Vida Urbana

‘Sou transexual e não consigo entrar no mercado de trabalho’

E o problema não é falta de capacitação, formação adequada, nem boa vontade…




Os três idiomas que Nicole Galdino exibe com orgulho no currículo parecem não valer de nada no momento que ela sai de casa à procura de emprego. Aos 31 anos, transexual assumida, Nicole é daquelas que às vezes se revolta e fica triste, mas cinco minutos depois volta a falar com uma empolgação que poucos conseguem. A carteira de trabalho continua em branco, nunca foi assinada.

Nicole coleciona lembranças de preconceito. Todas as vezes que saiu de casa em busca de uma vaga de emprego, voltou com o currículo na mão e uma angústia que só ela sabe o tamanho. “Um dia fui com minha prima em um loja do Centro de João Pessoa e para minha surpresa aceitaram o dela (da prima) e o meu não”, conta. “Diante de uma situação dessa, a gente se sente decapitada, humilhada, diminuída”, completa.

O mais perto que Nicole chegou de um emprego de carteira assinada, ofereceram uma vaga na cozinha de um restaurante. “Embora eu não tivesse dom de cozinhar, eles queriam que eu ficasse ali porque assim eu ficaria escondida. Era a condição para eu ganhar a vaga”, declara. Sem habilidade na cozinha e sentindo o peso do preconceito, Nicole rejeitou a proposta.

Outra vez ela conseguiu uns ‘bicos’ em um salão de beleza, maquiando noivas. A princípio seriam dois meses de experiência, mas uma semana depois Nicole foi dispensada. “Inventaram uma desculpa qualquer e me colocaram para fora. Foi terrível para mim”, destaca. Nicole reclama que a sociedade marginaliza travestis e transexuais que, diante de tanta discriminação, acabam vendo a prostituição como única alternativa para sobreviver. 

"Venha vestida de homem"
“Pode me chamar de Fabiano mesmo, ainda não mudei o meu nome no papel”. Assim começa a conversa com Fabiana Lima, transexual, de 38 anos. A primeira lembrança que ela compartilha é da vez que foi deixar currículo em uma loja do comércio e ouviu do vendedor o seguinte comentário: “Venha vestida de homem para a entrevista de emprego, bem arrumado. Tem mais chance”.

Fabiana sabia que por trás daquelas palavras um tanto carinhosas havia também uma forte carga de preconceito. O mesmo preconceito que a castiga desde que ela decidiu se vestir da forma que se sentia bem, de saia, sapato alto e uma maquiagem discreta. “Eu diria a você que todos os dias enfrento preconceito. Todos os dias. A indiferença é algo constante”, declara.

A chance do primeiro emprego para Fabiana só surgiu aos 34 anos, como auxiliar de serviços gerais em uma unidade de saúde municipal. A experiência foi muito positiva, segundo Fabiana faz questão de ressaltar, mas o contrato acabou há dois anos. Desde então luta por uma recolocação no mercado de trabalho. “Um ‘não’ dói muito e quando ele é consecutivo acaba nos deixando desestimuladas”, frisa.


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