Vida Urbana

Pandemia acentua diferenças no mercado de trabalho entre negros e brancos

Dieese mostra que negros são maioria entre trabalhadores sem carteira assinada na PB; e têm rendimento menor.




“A pandemia tornou ainda mais visível esse racismo que é estrutural na sociedade brasileira”, afirma o professor e pesquisador Lucian Souza. Nesta sexta-feira (20), quando é celebrado o Dia da Consciência Negra, números do boletim “Desigualdade entre negros e brancos se aprofunda durante a pandemia” do Dieese mostram que embora a população negra seja maioria no país e, também, na Paraíba, continua recebendo menos que não negros, e a pandemia fez com que essa diferença se tornasse ainda mais gritante.

O boletim aponta que a população negra representa 68% da população paraibana, número superior ao do Brasil, onde a população negra representa 55% da população total. Mesmo assim, no entanto, o rendimento médio dos negros é bastante inferior ao das pessoas de outras etnias. Dados do Dieese do segundo bimestre de 2020 mostram que, no país, uma mulher negra ocupada recebeu em média R$1.345, enquanto uma mulher não negra recebeu em média R$ 2.105. Já um homem negro recebeu em média R$ 1.542, e o homem não negro, R$ 2.466.

Crédito: Boletim Desigualdade entre negros e brancos se aprofunda durante a pandemia / Dieese

O professor e pesquisador Lucian Souza, cuja atual pesquisa de doutorado é sobre escravidão negra no Brasil, afirma que desde antes da pandemia há, no país, o que é chamado de racismo institucionalizado.

“Pessoas negras não conseguem ter acesso a postos de trabalho nem conseguem ganhar o mesmo salário que as pessoas brancas. É um racismo que se manifesta de maneira sutil, que muitas vezes a gente não vê, a não ser que se verbalize de forma pública, mas se materializa em situações práticas que fazem com que as pessoas negras no nosso estado não tenham acesso às mesmas oportunidades que os brancos”, disse.

O pesquisador também aponta que a população negra é maioria em comunidades e no interior do estado, além de também ocuparem mais postos informais. Os dados são reforçados com os números do boletim do Dieese.

Em relação ao trabalho desprotegido, que é aquele que está empregado sem carteira assinada, autônomos que não contribuem com a Previdência Social e trabalhadores familiares auxiliares, os negros são maioria na Paraíba: são 53% das mulheres negras, enquanto entre as mulheres não negras esse percentual é de 46%; em relação aos homens negros, o número é de 59%, enquanto entre os homens não negros é de 40%.

Ainda de acordo com o boletim, baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 6,4 milhões de homens e mulheres negros no país saíram da força de trabalho – como ocupados ou desempregados, entre o 1º e o 2º trimestre de 2020, isto é, perderam ou deixaram de procurar emprego por acreditar não ser possível conseguir nova colocação. Entre os brancos, o número de pessoas nessa mesma situação chegou a 2,4 milhões.

A situação, infelizmente, pode ficar ainda pior, com o fim do auxílio emergencial pago pelo governo federal. “Muitos profissionais que atuam no mercado informal, cuja predominância é de negros, estão impedidos de exercer sua profissão ou tiveram diminuição de salário e de carga horária. Com o fim do auxílio, a população negra é a mais afetada em todos os aspectos”, aponta Lucian.

 


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