Vida Urbana

Número de casos de Aids dispara entre adolescentes paraibanos

No ano passado, foram diagnosticados 14 novos casos de HIV entre pessoas com idades entre 14 e 19 anos, seis a mais que os registrados em 2013.



Francisco França
Francisco França

O aumento no número de casos de HIV entre adolescentes paraibanos, a maioria do sexo masculino, tem preocupado médicos e demais profissionais da área de saúde. Quem atesta o crescimento é a Secretaria de Estado da Saúde (SES). No ano passado, foram diagnosticados 14 novos casos de HIV entre pessoas com idades entre 14 e 19 anos, seis a mais que os registrados em 2013. À primeira vista, a diferença parece pouca, mas não é. Cada um desses diagnósticos vem acompanhado de desespero e medo. Em seguida, vem a depressão. 
 
De acordo com Adriana Teixeira, diretora do Hospital Clementino Fraga, em João Pessoa, referência no tratamento de doenças infectocontagiosas, um dos fatores que contribuem para o aumento da propagação do vírus entre os adolescentes é o início da vida sexual que acontece cada vez mais cedo. Além disso, a sensação de liberdade, própria dessa fase da vida, faz com que os garotos pensem que estão imunes ao vírus, quando na verdade não estão. “O número de casos vem aumentando a cada ano, e isso nos preocupa”, afirmou Adriana Teixeira. 
 
 
Como nem todos os adolescentes fazem o teste de HIV, é provável que muitos outros desconheçam que estão infectados. Em todos os casos diagnosticados no Clementino Fraga, em relação aos adolescentes, a contaminação se deu por meio de relações sexuais desprotegidas, sem o uso do preservativo, segundo a direção. 
 
Quando recebem o diagnóstico, os adolescentes passam a receber o tratamento no hospital, que oferece os remédios (coquetel) gratuitamente. É esse tratamento – que inclui idas periódicas ao consultório –  que reacende a esperança e garante a qualidade de vida, apesar das limitações que existem. Porém, não é tão fácil convencer um adolescente a receber o acompanhamento e cuidar de si, de acordo com a diretora. 
 
Alguns resistem inicialmente, mas acabam convencidos de que tem que ser assim. Outros, por não aceitar essa ideia, acabam morrendo, já bastante debilitados. Ela lembrou o caso recente de um adolescente, em depressão profunda, que ficou internado por algumas semanas no Clementino Fraga, e não tomava os medicamentos. O paciente fingia que engolia, mas na verdade escondia os comprimidos debaixo do travesseiro. A situação do garoto foi se agravando e ele acabou morrendo, por não aceitar o tratamento. 
 
Segundo Adriana Teixeira, os adolescentes que chegam ao Clementino geralmente são encaminhados por médicos de postos de saúde e já apresentam alguns sintomas suspeitos, como o emagrecimento repentino e imunidade baixa. É comum também que eles já tenham em mãos um resultado positivo de exame realizado em laboratórios particulares. Contudo, é preciso fazer um novo teste para confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento, que é por toda a vida. O vírus ataca o sistema imunológico e deixa a pessoa mais vulnerável às doenças. Uma gripe, por exemplo, pode ser fatal. 
 
“Infelizmente o HIV está chegando em um grupo onde não deveria chegar. O que nos impressiona é que eles têm acesso à informação. Acaba sendo algo contraditório. A gente se preocupa muito porque eles terão que fazer tratamento para o resto da vida”, comentou a diretora. Segundo ela, os adolescentes demonstram medo de uma gravidez indesejada, mas parecem não se importar com as doenças sexualmente transmissíveis. Além da Aids, uma relação sexual desprotegida pode transmitir doenças como sífilis, hepatite, HPV, etc. 
 
Adolescentes escondem contaminação dos pais
 
 
A psicóloga Cirlene Araújo, do Clementino Fraga, é da equipe que tem como missão conversar com os pacientes que chegam para tratamento. (Foto: Francisco França)
 
De uma forma geral, os adolescentes contaminados com o vírus HIV não compartilham essa informação com os pais, segundo revelou a psicóloga Cirlene Araújo, que trabalha no Hospital Clementino Fraga, na capital. Ela faz parte da equipe que tem a difícil missão de conversar com os pacientes nesse momento de angústia e insegurança. Segundo ela, os adolescentes preferem ir sozinhos ou acompanhados de um amigo no qual confiam e dizem ter intimidade. 
 
Quando recebem o diagnóstico, imploram pelo silêncio do amigo. Pedem fidelidade para que a informação continue em sigilo. De acordo com a psicóloga, o fato de não comunicar a situação aos pais, dificulta o tratamento. “Muitos adolescentes chegam disfarçados para receber a medicação, usando boné e óculos escuros. Eles têm muito medo de serem descobertos, é uma situação delicada”, explicou. Esse isolamento é visto como uma atitude perigosa. 
 
Resistentes, eles são orientados a contar aos familiares que têm o vírus. “Quando se convencem dessa importância, pedem que os profissionais do hospital contem a verdade, eles não têm coragem”, afirmou. Mesmo quando contam, preferem abrir o jogo com as mães, e continuam escondendo dos pais. 
 
No momento que recebem a confirmação da doença, os jovens choram, se desesperam. Alguns chegam a passar mal. Transtornados, falam em suicídio. Das raras vezes que vão acompanhados de familiares, a tensão parece ser maior. Em um dos casos, a avó de um adolescente ficou em estado de choque ao saber que o neto estava com o vírus HIV. “É uma angústia profunda, que acaba sensibilizando a todos”, declarou a psicóloga. 
 
Só quando recebem o exame positivo é que os adolescentes percebem o quanto é arriscado ter relações sexuais sem preservativo, segundo informou Cirlene. Para eles, o diagnóstico representa o fim. Muitos pensam em abandonar a escola e a vida social. Ao serem informados que precisam tomar medicamentos para o resto da vida, os pacientes voltam a cair no choro. O serviço social tenta reverter esse pensamento com muita conversa e orientação. O preconceito da sociedade surge como uma fantasma que não para de assombrar, o que se torna um peso a mais na vida dos jovens. 
 
Com base nas conversas que tem com os adolescentes que têm o vírus HIV, a psicóloga disse que percebe que a troca de parceiros é algo frequente entre eles. “Não estamos dizendo que eles não podem namorar, podem. O que não devem fazer é descuidar da proteção”, alertou. É importante frisar que ter o HIV não é a mesma coisa de ter Aids.
 
É preciso que pais e escolas entrem no diálogo sobre AIDS
 
O aumento no número de casos de HIV entre adolescentes reforça a necessidade de diálogo entre pais e filhos, segundo explicou a psicóloga Cirlene Araújo. A escola também tem seu papel nesse processo de orientação. A prevenção precisa melhorar para que os adolescentes não tenham que chegar ao ponto de ir ao Clementino Fraga iniciar o tratamento. 
 
A psicóloga Socorro Gomes, que trabalha na rede municipal de ensino de João Pessoa, disse que a orientação sexual é trabalhada levando em consideração a faixa etária dos alunos, começando na educação infantil. “O que a gente percebe é que nem todos os professores estão preparados para abordar esse assunto, que envolve desde questões religiosas, a culturais e valores familiares”, destacou. 
 
Ela revelou que há um projeto de orientar e capacitar esses profissionais para corrigir essa lacuna. Socorro disse que o fato da sexualidade ser discutida cada vez mais cedo entre crianças e adolescentes assusta os professores, os quais, de uma forma geral, não sabem lidar com essa situação. “O volume de informações é muito grande, a sexualidade está chegando cada vez mais cedo, mas as crianças e adolescentes não estão preparadas para discernir entre o que é certo e errado”, explicou a psicóloga. 
 
De acordo com Socorro, o adolescente sabe que tem que usar camisinha nas relações sexuais, mas não usa.  “Precisamos capacitar os professores para que eles possam fazer uma intervenção correta. Os meninos sabem que sexo sem camisinha pode trazer doenças sexualmente transmissíveis, mas acham que estão imunes”, declarou. Ela disse ainda que o estudante que recebe uma orientação adequada sobre sexualidade, em casa e na escola, vai ter mais discernimento sobre como deve agir, será mais responsável. Sobre o vírus HIV, a psicóloga disse que as conversas nas escolas são transparentes e têm o objetivo de esclarecer todas as dúvidas, inclusive sobre as formas de contaminação. 
 
 
 


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