Vida Urbana

Negros não eram escravos, eram escravizados

Verônica, como tantos outros negros, continua sendo vítima do preconceito e da discriminação em pleno século XXI. As histórias, caso fossem omitidos os sinais temporais, poderiam ser facilmente confundidas com as de negros que, pouco tempo após a abolição, continuavam sendo humilhados, tratados como bichos e massacrados única e exclusivamente devido à cor de sua […]



Rizemberg Felipe
Rizemberg Felipe

Verônica, como tantos outros negros, continua sendo vítima do preconceito e da discriminação em pleno século XXI. As histórias, caso fossem omitidos os sinais temporais, poderiam ser facilmente confundidas com as de negros que, pouco tempo após a abolição, continuavam sendo humilhados, tratados como bichos e massacrados única e exclusivamente devido à cor de sua pele.

De acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra no Brasil é composta por 97 milhões de pessoas, o equivalente a 50,7% da população total. Na Paraíba, a população negra equivale a 58,3% e na capital, João Pessoa, essa porcentagem é de 54,1%. O racismo, no entanto, continua se fazendo presente nas situações mais casuais.

Fruto de uma sociedade escravista, o racismo no Brasil é ligado, sobretudo, a uma questão de poder. "Aqui, a escravidão não era apenas uma questão econômica, não era apenas uma questão de mão de obra. Era, sobretudo, uma questão de status social. O escravo era, além de um braço, também um símbolo, de poder, de hierarquia", argumenta o historiador Lucian Souza, especializado na área. Se, no entanto, àquela época, ser “dono” de um escravo era sinônimo de status, hoje, a situação não muda muito – continua perdurando a ideia de que superiores são os homens brancos enquanto que, aos negros, restam apenas posições de subserviência.


 A coordenadora executiva da ONG Bamidelê, Terlúcia Silva, destaca a questão dos estereótipos de cor.  (Foto: Felipe Gesteira)

Para Terlúcia Silva, coordenadora executiva da Bamidelê, Organização de Mulheres Negras na Paraíba, ainda hoje, persistem, no imaginário da população brasileira, estereótipos que subtraem os negros às piores condições. "É uma coisa do imaginário coletivo. Qualquer negro é um marginal; já a mulher negra é tida como hipersexualizada; a criança, tida como burra. Se o imaginário fosse algo deslocado da nossa vida, o problema não seria tão grande. Mas os estereótipos que existem interferem brutalmente no nosso dia a dia", comenta.

"Quando a gente fala de racismo no Brasil a gente sempre tem que fazer esse retorno à história. E um fato que também merece atenção é que a maioria da população pobre do país também é negra. Só que ela não é pobre porque quer. É uma sequência histórica que colocou essa população nesse lugar. E tudo isso é fruto de um racismo que, hoje em dia, é institucionalizado", afirma.
 

O historiador Lucian Souza destaca que no Brasil a escravidão era, além de tudo, uma questão de mão de obra.  (Foto: Felipe Gesteira)

Para o historiador Lucian Souza, é necessário que se tenha em mente a noção de processo – tanto em relação à forma como foi instituída a escravidão como, também, em relação à resistência que houve (e continua havendo) frente às ideias abolicionistas. "Hoje, ao invés de utilizarmos o conceito de escravo, utilizamos o conceito de escravizado, justamente para demonstrar esse processo de coisificação ao qual o indivíduo era submetido desde que saia da África até sua chegada ao Brasil. Ele não era escravo. Era escravizado", defende. Segundo ele, mesmo que a escravidão viesse sendo diluída desde o início do século XIX, o Brasil e, em especial a Paraíba, mostrava uma enorme resistência às ideias abolicionistas, tendo sido, inclusive, a última nação a abolir a escravidão.

"Todo o processo abolicionista dá a ideia de que foi algo linear, mas é muito claro que tudo que aconteceu foi resultado de um processo de luta, de resistência, de atuação, e não só do movimento abolicionista – que era composto, sobretudo, da "elite letrada" – mas, também, dos próprios escravos", comenta o historiador. "Mesmo assim, se formos analisar os jornais da época, a gente percebe que havia um forte conservadorismo enraizado na sociedade. A luta foi grande", defende. Assim como é, ainda, nos dias atuais.

    

 

 


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