Vida Urbana

Lei das cotas raciais ainda causa polêmica dentro e fora das universidades

Sistema de ingresso no ensino superior é o tema da 2ª reportagem da série sobre o racismo.



Francisco França
Francisco França
Aline Carvalho entrou na universidade pelo sistema de cotas e sabe que o mercado de trabalho é o próximo desafio

Aline Carvalho, 29 anos, estudante de Serviço Social, ingressou na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) pelo sistema de cotas. Em rodas de conversa, já ouviu colega de sala dizer que aluno cotista não tem capacidade intelectual para ocupar uma vaga no ensino superior. Aline, claro, se sentiu constrangida com o comentário. Discordou, mas não discutiu. Optou por mostrar, diariamente, que é tão capaz quanto seus colegas que entraram na universidade pela concorrência geral.

Polêmicas, as cotas raciais têm sido motivo de discussão dentro e fora das instituições de ensino. Há quem afirme que o ingresso no ensino superior, levando em conta a cor da pele, privilegia os negros, o que seria uma forma de preconceito com as outras raças. Por outro lado, há quem defenda o sistema de cotas como uma forma de reparar uma desigualdade construída ao longo dos séculos. Cotas raciais é o tema da segunda reportagem da série sobre o racismo, publicada em homenagem ao Dia Internacional contra a Discriminação Racial, lembrado ontem.

A história de Aline enquanto universitária cotista serve para ilustrar uma situação que é comum a tantos outros jovens negros que hoje ocupam uma vaga no ensino superior nos mais diversos cursos, e que por isso enfrentam preconceito. “Vi nas cotas raciais a possibilidade de acesso ao ensino superior. Sou de uma cidade do Sertão baiano que tem cerca de 60 anos de emancipação política. Nessa cidade, negro não podia estudar”, destacou. A Lei de Cotas (n° 12.711) foi instituída em 2012, em adaptação progressiva na oferta de vagas.

A jovem guarda na memória lembranças amargas de preconceito e de intolerância em relação à sua cor. “Enquanto passava em uma rua movimentada do Centro de João Pessoa, alguém gritou: cabelo de ‘bombril’. Voltei e não encontrei o agressor. Na universidade, embora ninguém fale diretamente sobre a minha cor, escuto críticas sobre as cotas, o que acaba me atingindo”, frisou. A reportagem procurou o Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabi) da UFPB, mas não obteve sucesso.

Aline tem consciência que o desafio não cessou com o ingresso na universidade. O mercado de trabalho é o próximo passo. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do total de pessoas ocupadas na Paraíba (1.796 milhões) o número que se declaram negras é 138 mil. O número de pardos é de 1.037 milhões. Dados são na faixa etária de 15 anos ou mais, em 2014.

Importante

No ano de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade, julgou ser constitucional a reserva de vagas para negros e índios em instituições de ensino superior. Para o tribunal, as cotas estão de acordo com o texto da Constituição Federal e são necessárias no processo de correção de discriminação racial no país.

Erramos

A primeira matéria da série sobre racismo, publicada no último domingo, informou que Dandara Correia era universitária. O correto é professora universitária.


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