Vida Urbana

Família quebra tradição de comemorar Dia das Mães após 40 anos por conta do isolamento social

Quatro gerações da família Miranda contam como estão encarando o distanciamento.




Foto: Arquivo Pessoal

O domingo de Dia das Mães é ainda mais especial que qualquer outro domingo ‘comum’ para milhares de famílias. É quando os parentes têm a oportunidade de se reunir com as matriarcas, e colecionar memórias que ficam guardadas para sempre, em meio às tradições familiares. Mas, em 2020, neste 10 de maio, muitas dessas tradições estão sendo quebradas em prol de um bem maior, o combate à pandemia do novo coronavírus.

As recomendações por isolamento social, única forma de frear o avanço dos casos de Covid-19 no mundo, enquanto ainda não há vacina para a doença, fizeram a família Miranda, de Campina Grande, na Paraíba repensar as formas de comemoração do Dia das Mães. A tradição familiar, que perdura por pelo menos 40 anos, precisou ser deixada de lado para preservar a saúde de todos. Afinal, os casos de infecção pelo novo coronavírus já passam de 2 mil na Paraíba.

Foto: Arquivo Pessoal

Segundo dona Djanira Maria, de 90 anos de idade, após tomar conhecimento da disseminação do vírus, a família decidiu não se encontrar mais, e as recordações dos antigos almoços de Dia das Mães ficaram ainda mais vivas com a saudade. A idosa, que compõe o grupo de risco para Covid-19, possui 4 filhos, 18 netos, 26 bisnetos e 4 tataranetos, e lembra com carinho recordações passadas.

“Nos domingos nós nos reuníamos, era muito bom. Paramos de nos encontrar, estamos cada um em um canto. A data não vai ser a mesma, mas depois vamos agradecer a Deus por estarmos vivos”, disse.

Uma das filhas de dona Djanira, Miradalva Silva, de 69 anos, explica que após o isolamento, o contato com a família passou a ser completamente virtual, fator este que demonstra a importância da tecnologia para que os afetos sejam mantidos. No entanto, a falta do abraço e do carinho físico da mãe e dos parentes entristece, e faz com que por vezes, a tecnologia que ajuda também aumente a saudade.

“Continuamos nos encontrando pelas redes sociais, por chamadas de vídeo, telefonemas. Mas a gente sente o peso da solidão. O pior horário é a noite… mas fazer o quê? Faz parte da vida. Continuamos juntos assim, até o dia que Deus permitir.”, comenta.

Já uma das filhas de dona Miradalva, Francicleide Silva Miranda, de 50 anos, lembra que os encontros da família sempre eram acompanhadas por boas risadas. Mas, para proteger a avó, de 90 anos, e a mãe, de 69 anos, eles decidiram que a partir do dia 18 de março não se encontrariam mais. Na época, a Paraíba estava registrando o primeiro caso de Covid-19, e hoje, conforme informações da Secretaria de Estado da Saúde, são mais de 2 mil casos confirmados e 124 mortes pela doença.

“Procuramos mandar as coisas para minha mãe e minha avó, não deixamos faltar nada ainda que de longe. Esse domingo em especial não vai ser nada fácil. Vai ser um pouco triste porque a gente se reunia, almoçava, passávamos um tempo juntos… Mas temos que passar por isso e vencer.”, comenta.

O desejo de Carla Miranda, que compõe a quarta geração da família, se assemelha ao da bisavó Djanira, da avó Miradalva e da mãe Francileide. A jovem de 19 anos relata a preocupação constante com a saúde das avós, e conta que a família até parou de adentrar à casa de dona Miradalva pela entrada principal, para reduzir o risco de contágio pelo novo coronavírus à idosa.

“Desde o fim de fevereiro começamos a orientar toda a família quanto às medidas de higienização. Quando decidimos parar de nos ver, descobrimos que não é a mesma coisa só por voz. Se não é só por vídeo, quem dirá por voz? Mas sempre mantemos contato, até para saber se estão tomando todos os cuidados.”, explica.

Carla lembra que além do Dia das Mães, a família precisou abrir mão da comemoração do aniversário de 90 anos de dona Djanira, completados em meados de março. Apesar de ouvir frases como “Não tem problema! É só um aniversário”, a família preferiu manter a idosa segura, sem contato próximo, e pretende comemorar depois, quando a pandemia passar.

Foto: Arquivo Pessoal

Para ela, o que conforta o coração nesse momento de isolamento é saber que todo mundo está bem de saúde. A bisneta, neta e filha lembra do privilégio de ter o ensinamento de três gerações para seguir em frente, mesmo durante períodos difíceis, como este de enfrentamento ao novo coronavírus.

“O que conforta é que está todo mundo bem, porque imagina o tanto de família que perdeu alguma. Até uma conhecida nossa é de uma família que perdeu uma mãe para o coronavírus. Então, nosso conforto é que está todo mundo com saúde, um ligando pro outro, nos parabenizando, porque é um dia especial. A expectativa é de que isso passe para a gente agradecer juntos”, destaca

“Tivemos a oportunidade de ir pra casa da minha bisavó para fazer uma novena no início da pandemia. Praticamente começamos a quarentena rezando, e se Deus quiser vamos nos reunir para agradecer no final. É muito especial poder fazer parte dessa família, ter minha bisavó viva, agradeço porque posso aprender com três gerações a ser uma pessoa melhor, uma mulher melhor e uma futura mãe melhor.”, conclui.

Sob supervisão de Jhonathan Oliveira*


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