Vida Urbana

Especialista alerta para os riscos da automedicação com antibióticos

Segundo OMS, cerca de 700 mil mortes ao ano por resistência bacteriana.




Médico cardiologista André Telis alerta para uso de antibiótico sem orientação médica. Foto: Divulgação

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente, cerca de 700 mil mortes por ano são atribuídas à resistência bacteriana no mundo, e a previsão é de que esse número suba para 10 milhões de mortes até 2050.

Vamos imaginar a seguinte situação: sábado noite, chuva, seu filho doente, ardendo em febre e com dor ao engolir. Você acha que ele está com crise de garganta. Imagina agora, no meio da madrugada, enfrentar uma fila no pronto atendimento e sair de lá com uma receita de antibiótico na mão, passar na farmácia e só então fazer o que você já tinha em mente há muito…

Se você acha isso tudo muito complicado e que seria mais fácil comprar antibiótico sem receita médica, é porque você deve estar incluído nos 76% dos brasileiros que tem o hábito de se automedicar, é o que informou um levantamento do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ). Foram ouvidas 2.090 pessoas de todas as regiões do País, em 120 municípios. Além da automedicação, 40% dos entrevistados ainda tinham o hábito de se autodiagnosticar usando a internet.

Engana-se quem acha tudo isso bobagem, afinal já estamos sentindo na pele a resistência bacteriana aos antibióticos. Segundo a  Organização Mundial da Saúde (OMS), se nada for feito, até 2050 o número de mortes todos os anos em função da resistência aos antibióticos pode chegar a 10 milhões.

O consumo de antibióticos no Brasil está entre os maiores do mundo, superando a média da Europa, Canadá e Japão. A principal preocupação da agência é que o consumo indevido favoreça o surgimento de bactérias multirresistentes, causadoras de infecções difíceis de curar.

Entendendo a resistência

Os antibióticos são medicamentos capazes de matar bactérias. Eles devem ser usados apenas no tratamento de infecções bacterianas, de acordo com prescrição médica, e sua eficácia está diretamente relacionada ao agente causador da infecção. Nem todos os antibióticos são adequados para uma mesma infecção e eles não tem efeito algum sobre doenças causadas por vírus como gripes e resfriados.

Toda vez que você toma antibiótico, todas as bactérias que são sensíveis a ele acabam morrendo e só restam aquelas que já são resistentes. Então, se você toma o remédio errado, vai matar bactérias sensíveis e deixar o seu corpo livre para as bactérias resistentes se reproduzirem. Da próxima vez que você ficar doente, o antibiótico precisa ser bem mais forte, pois agora as bactérias no seu corpo são resistentes.

Conforme os antibióticos vão se tornando ineficazes, o número de infecções que se tornam mais difíceis de tratar tende a aumentar. Com o esgotamento das ações terapêuticas, infecções que hoje são conhecidas por ter um tratamento simples, poderão, no futuro, causar danos maiores ao organismo, na medida em que teremos menos recursos para combatê-las.

O setor público implementa medidas para diminuir a resistência aos antibióticos. Mas já vemos com perplexidade o número cada vez maior de pessoas que são resistentes a tratamentos para tuberculose e gonorreia no mundo. Doenças outrora de tratamento eficaz, voltam a ameaçar de mortes.

Desde 2010, por determinação da Anvisa, os antibióticos só são vendidos com receita médica, porém um projeto de lei que tramita no Senado quer flexibilizar a regra e possibilitar a venda desses produtos sem receita médica em locais sem serviço regular de saúde.

Estamos caminhando na contramão das orientações da OMS, que este ano, entra as metas para aumentar a qualidade de saúde de mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, considera essencial criação de políticas para inibir o consumo de antibiótico sem necessidade.

A resistência antimicrobiana – a capacidade de bactérias, parasitas, vírus e fungos resistirem a esses medicamentos – ameaça nos mandar de volta a uma época em que não conseguíamos tratar facilmente infecções como pneumonia, tuberculose, gonorreia e salmonelose. A incapacidade de prevenir infecções pode comprometer seriamente cirurgias e procedimentos como a quimioterapia.

O médico é a pessoa ideal para definir qual tipo de antibiótico deve ser dado em cada caso. Lembrando que em casos de infecção que não é causada por bactérias (gripe, por exemplo), o uso dessas substâncias pode levar até a uma piora do quadro. É importante ter hábitos saudáveis e nunca esquecer de lavar as mãos.

No caso de você precisar mesmo tomar antibióticos, é preciso seguir direitinho a prescrição – dose, horários e dias de tratamento são fundamentais para o sucesso do tratamento. Tem monte de gente que não completa o tratamento e isso é um dos fatores de resistência.

Lembre-se, a conscientização é fundamental para que menos pessoas morram por causa de superbactérias.

Eu mesmo, só tomo antibióticos em último caso. Não quero que as bactérias resistentes se multipliquem em mim….

 

* André Telis é médico cardiologista, professor do curso de medicina da UFPB, colunista de Saúde na CBN João Pessoa e escreve sobre o tema no Jornal da Paraíba


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