Vida Urbana

Dona Maria é testemunha ocular de quase um quarto dos 435 anos de João Pessoa

De sua casa na General Osório, ela presenciou a evolução da capital no último século.




Dona Maria acompanhou fatos marcantes da história de João Pessoa de sua casa na General Osório. Foto: Angélica Nunes

Um olhar infantil se volta diariamente à janela, mirando um passado que não volta mais. Dona Maria do Carmo Bandeira de Miranda Pereira nasceu em uma charmosa casa na Avenida General Osório, no Centro Histórico de João Pessoa. Há 101 anos. Do seu lar presenciou quase um quarto da história da capital paraibana, que celebra 435 anos de fundação nesta quarta-feira (5).

Da casinha rosa da General Osório, Dona Maria estudou, formou-se em Odontologia, trabalhou como servidora pública, casou, teve dois filhos, netos e bisnetos. Fez seu destino e permaneceu na mesma casa. Ela herdou o imóvel do pai, Pedro Bandeira Cavalcante, promotor público que migrou de Guarabira quando foi nomeado desembargador do Tribunal de Justiça da Paraíba.

“Sou a caçula de oito filhos, nasci nesta casa em 21 de março de 1919. Papai trabalhava como desembargador aqui ao lado (o prédio onde funcionou o TJ atualmente funciona o Biblioteca Pública Augusto dos Anjos). Quando morreu deixou ela para a gente, mas todos foram morar longe quando saíram para estudar. Eu acabei ficando. Meu marido quis se mudar quando nos casamos, mas não quis abrir mão da casa de papai”, lembra Dona Maria.

 

Lembranças

 

Do lar dos Bandeiras na General Osório, Dona Maria foi testemunha ocular de fatos marcantes e históricos da cidade. Presenciou a comoção pela morte de João Pessoa, viu a escavação para a construção do viaduto Damásio Franca, o trabalho de caridade do Padré Zé de porta em porta e acompanhou a transformação da rua em área quase estritamente comercial.

A tradicional Festa das Neves, a qual aguardava ano a ano no aniversário da cidade, com expectativa, por sinal, é onde estão suas melhores lembranças. Além da novena, a rua era tomada pelos pavilhões (das paróquias de Tambiá e Trincheiras, onde estavam as pessoas mais ricas). No auge da festa, entre os anos 1920 e 1970, havia ainda um passeio, que consistia em uma espécie de desfile pela General Osório, com moças transitando de um lado e rapazes do outro.

“Eu trabalhava no pavilhão chamado Tambiá. Era uma festa muito bem frequentada, bonita. Sinto muito falta desse tempo. Há anos que ela deixou de ser a mesma, perdeu sua beleza”, lamentou a idosa.

 

Morte de João Pessoa

 

Mas não só de momentos alegres são marcadas as suas lembranças na General Osório. Há 90 anos, quando a cidade ainda se chamava Parahyba, ela acompanhou ao lado do pai, já viúvo, a comoção em torno da morte de João Pessoa.

O então presidente da Paraíba, cargo que hoje equivale ao de governador do estado, foi assassinado no dia 26 de julho de 1930, no Recife. O corpo dele, transportado por via férrea, foi velado por três dias na Basílica de Nossa Senhora das Neves, no fim da rua General Osório, até ser transportado ao Porto de Cabedelo para ser sepultado no Rio de Janeiro. “Foi um momento em que muitos ficaram tristes. Fui com papai ver o corpo e depois acompanhamos a movimentação da porta de casa. Veio muita gente de fora”, recorda, apesar da pouca idade.

 

Corpo de João Pessoa foi velado por três dias na Catedral de Nossa Senhora das Neves.Foto: Acervo/FGV

Outro fato que mudou completamente a região da General Osório foi a construção do viaduto Damásio Franca, na Praça Vidal de Negreiros, mais conhecida como Ponto de Cem Réis, em julho de 1970, para uma melhor circulação entre a Cidade Baixa e Lagoa. “Antes era uma praça, mas melhorou muito quando veio o Viaduto”, conta.

 

Amiga da rua

 

A casa de Dona Maria é uma das poucas ainda apenas residenciais na General Osório, hoje em dia tomada de estabelecimentos comerciais. A rua tem se transformado nos últimos anos de ponto comercial para quem busca materiais hospitalares e também para refúgio artístico, sobretudo com a abertura de cafeterias, além do shopping popular ‘O Terceirão’.

O que parece um incômodo para uma senhora centenária é, no entanto, uma distração que acompanha diariamente, da janela de casa. Ela adora o barulho do shopping popular, a ponto de se incomodar é com o silêncio no domingo. “Ela se queixou muito no período da pandemia, que o comércio ficou totalmente fechado e o povo sumiu”, conta Luzia, que cuida com carinho de Dona Maria há 43 anos.

Durante a semana, ela permite que a garagem da sua casa funcione como apoio para os lavadores de carro e acompanha o trabalho com a mira boa de seu canto cativo. Entre os lavadores é chamada carinhosamente de vó. Eles aguardam o riso fácil de Dona Maria, antes de encerrar o expediente.

Dona Maria é chamada de Vó pelos trabalhadores e mantém o sorriso aberto mesmo na pandemia. Foto: Angélica Nunes

Olhos para o futuro

Com a pandemia do coronavírus, os encontros ficaram escassos, as visitas suspensas e as idas à Igreja, seu principal passeio, foram impedidas. Apesar da tristeza pelo confinamento obrigatório, Dona Maria surpreende com sua leitura otimista do futuro. “Quero que tudo isso passe para eu voltar a ver as pessoas, andar pela minha rua como antes, já que não posso mais dirigir”, revela a idosa, que até os 97 anos pilotava o seu Fusca Fafá de Belém pela cidade. Hoje o veículo foi estrategicamente “confiscado” por uma neta.

“A vida é muito boa. Não tenho medo de nada. Aqui nasci e aqui quero morrer porque é o meu lugar”, confidencia a centenária Dona Maria.


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