Vida Urbana

Detentos pagam até R$ 15 mil por celular dentro de presídios

Conforme a Secretaria de Administração Penitenciária da Paraíba (Seap-PB), no ano passado foram apreendidos mais de 3 mil aparelhos em unidades da PB.




Nas ruas, um celular smartphone novo, de última geração, custa, em média, R$ 3 mil. Nos presídios da Paraíba, um celular mais simples, usado, chega a valer R$ 15 mil. É um objeto valioso e cobiçado entre os presos, que fazem ofertas grandiosas e prometem pagamento à vista para quem conseguir entrar com o aparelho. O preço varia entre as unidades prisionais, chegando a custar R$ 5 mil no Róger e na Máxima, e até R$ 15 mil na Penitenciária Romeu Gonçalves de Abrantes (PB-1 E PB-2). Os valores foram repassados por agentes penitenciários. A Secretaria de Administração Penitenciária da Paraíba (Seap-PB) informou que não recebeu nenhuma denúncia desse tipo nos últimos meses e prometeu apurar o fato.  

Não é de hoje que a entrada de celulares nos presídios preocupa as autoridades. Praticamente toda semana algum visitante é flagrado com um aparelho celular escondido – seja em uma Bíblia, em um pacote de bolachas ou no próprio corpo. No ano passado, segundo a Seap, foram apreendidos cerca de 3 mil aparelhos.

O comércio de celulares nos presídios é real, embora, algumas vezes, as autoridades evitem falar sobre o assunto para dar a impressão de que tudo está sob controle. Não está. Um agente que trabalha na Penitenciária de Segurança Máxima Criminalista Geraldo Beltrão, em Mangabeira, disse que celular é o item mais valioso no comércio obscuro da prisão. O valor de R$ 15 mil é cobrado dentro da unidade PB-1, em Jacarapé. Um dos motivos seria a impossibilidade de arremesso que existe na área, o que explicaria o valor da oferta.

Ousadia
“Todo mundo sabe que um celular é muito caro dentro do presídio. A maioria dos agentes tem boa conduta, mas infelizmente, alguns são seduzidos pelas ofertas”, frisou o agente.
O presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários da Paraíba, Manuel Leite, reconhece o comércio de celulares nos presídios, mas disse não ter conhecimento dos valores. “Os agentes precisam manter a vigilância, esse é o grande desafio tendo em vista o efetivo reduzido que temos na Paraíba”, declarou.

Segundo Leite, uma das formas de entrada de celulares nos presídios é através do arremesso de sacolas para os pátios. “Os presos encomendam e contratam pessoas para jogá-los para dentro. Essa é uma forma reconhecida de comércio de celulares nos presídios. É onde começa a guerra dos agentes para evitar que isso aconteça”.

Apreensões
Algo que também preocupa a Secretaria de Administração Penitenciária da Paraíba (Seap-PB) é o envolvimento de agentes penitenciários que se deixam seduzir pelas ofertas dos detentos e colocam para dentro das unidades celulares, carregadores e drogas. O presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários da Paraíba, Manuel Leite, ressaltou que a categoria, em sua maioria, tem boa índole e é honesta. “Contudo, como em toda profissão, há quem apresente desvios de conduta”, declarou.

O caso mais recente ocorreu na Penitenciária Regional Raimundo Asfora (Serrotão), em Campina Grande, quando, no mês passado, um agente foi flagrado com uma sacola contendo seis celulares e drogas para entregar nas mãos de um apenado. Esse não foi o único caso. Em junho de 2015, outro agente foi pego com sete celulares, carregadores e drogas para um presidiário. Os valores que os agentes receberiam pelas encomendas criminosas não foram informados.

O diretor-adjunto do Serrotão, Queiroz Júnior, disse que, apesar desses casos envolvendo agentes, a principal forma de entrada de celulares é pelo arremesso de sacolas, a exemplo do que ocorre no Presídio do Róger. “Acontece com muita frequência. O grande problema do Serrotão é a localização geográfica, que facilita o arremesso de sacolas com aparelhos por cima dos muros”, destacou.

Segundo a Seap, as unidades prisionais com maior número de apreensões em 2015 foram: Róger, Serrotão e PB1 e PB2. Nas operações de segurança foram apreendidos 100 kg de drogas, cerca de 3 mil celulares, 3 mil unidades de psicotrópicos e dezenas de facas artesanais e espetos. A Seap informou ainda que houve um aumento significativo de interceptações de materiais ilícitos que seriam arremessados para o interior das unidades.

R$ 900 por carregador
O arremesso de sacolas com celulares virou rotina na Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, o Róger, na capital. O presídio que hoje conta com mais de 1,4 mil presos é o mais problemático do Estado nesse aspecto. Segundo o diretor da unidade, Lincon Gomes, sacolas são atiradas no pátio praticamente todos os dias. Nas sacolas, três ou quatro celulares que lá dentro são vendidos ao preço médio de R$3,5 mil. Pelo carregador, é preciso desembolsar mais R$ 900. A média de apreensão é de 25 celulares por semana.

Os valores foram revelados por um preso que foi apreendido com celular na semana passada, segundo informou o diretor da unidade, Lincon Gomes. Ele disse que casos dessa natureza são comuns no Róger, e que os agentes lutam, insistentemente, para evitar a entrada de material ilícito. “Realizamos três rondas noturnas para coibir essa ação, mas ainda assim acontece”, declarou. Dos pavilhões, os presos improvisam um gancho com material de garrafa pet para puxar a sacola com os celulares.

“Quando eles conseguem pegar, é difícil identificar a quem pertence”, disse. Se os agentes encontram a sacola antes dos presos e identificam o ‘dono’, ele sofre punição e passa dez dias no isolado”, afirmou. Além disso, o preso responde a uma sindicância administrativa e perde a possibilidade de progredir de regime.


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