Vida Urbana

‘Deixados para trás’: pacientes abandonados lotam hospitais na PB

O abandono acaba por agravar o problema da superlotação nas unidades, prejudicando o atendimento que carece melhora. 



Alberi Pontes
Alberi Pontes
Serviço social do Ortotrauma de Mangabeira diz que muitos chegam sozinhos e sem contato de parentes

Doentes, sozinhos e abandonados pelos familiares. É essa a realidade enfrentada por muitos pacientes que se encontram em hospitais da Paraíba sem esperança de voltar para o aconchego de um lar. Diante do ‘não’ de filhos, netos, sobrinhos e demais familiares, esses pacientes – em sua maioria idosos – são deixados para trás e tentam vencer a doença e o abalo emocional. Embora não haja números oficiais sobre essa situação, o problema se repete em quase todos os hospitais do Estado. 

O abandono acaba por agravar o problema da superlotação nas unidades, prejudicando o atendimento que já carece de melhoria. Isso porque o paciente recebe alta, mas não vai embora porque não tem para onde ir. Com isso, o leito permanece ocupado, quando deveria ser liberado para uso de outro paciente.

No maior hospital da Paraíba, o Trauma de João Pessoa, pelo menos dois casos de abandono surgem por semana, segundo informou Neuma Ribeiro, coordenadora do setor de serviço social da unidade. Os idosos são os que mais sofrem com o abandono dos familiares, mas poucos externam o sentimento de dor. “Eles preferem sofrer em silêncio, ficam introspectivos. É uma abalo emocional muito forte para qualquer pessoa que se sinta rejeitado pela família”, declarou Neuma. 

Ela disse que em alguns casos os familiares têm boas condições financeiras, mas mesmo assim abandonam seus pais, tios, etc. “Já tivemos casos de idosos que tiveram alta e passaram dias no hospital porque a família não atendia as ligações da unidade. Muitas famílias têm boas condições financeiras, não é questão de dinheiro”, afirmou a coordenadora do serviço social. O trabalho de busca dos familiares conta com o apoio da assessoria de imprensa, por meio das redes sociais.

A assistente social disse também que o Ministério Público é um parceiro importante nesse processo. Quando a situação de abandono atinge moradores de rua, o serviço social toma o cuidado de não deixar o paciente voltar para a condição de vulnerabilidade, para isso os centros de serviço social dos municípios são acionados. A alegria da equipe é quando o paciente retorna ao seio da família. “Dá uma sensação de dever cumprido, é muito gratificante quando isso acontece”, pontuou. 

Em casos de falecimento, a situação pode ser ainda mais burocrática. “Se o paciente tem documento e foi vítima de violência, por exemplo, encaminhamos o corpo para o Instituto de Medicina Legal da Paraíba (IML-PB), caso a família não compareça em até 24 horas. Há casos em que solicitamos a autorização ao juiz para que seja feito o sepultamento”, explicou Neuma.

Familiares se recusam a buscar pacientes 

Não é difícil, por exemplo, um paciente chegar desacordado, com sintomas de embriaguez, e passar dias internado sem que ninguém o visite. É nesse instante que o setor de serviço social de cada unidade hospitalar se torna fundamental nesse processo. No Complexo Hospitalar Governador Tarcísio Burity (Ortotrauma), no bairro de Mangabeira, em João Pessoa, o abandono de pacientes também se tornou comum. Tão comum que não impressiona mais a equipe de assistentes sociais, segundo informou o coordenador do setor, Edval Avelino. 

Segundo ele, o problema já é visto como uma situação corriqueira na unidade. “Infelizmente recebemos muitos pacientes que chegam sozinhos ao hospital ou são trazidos por outras pessoas e não têm nenhum contato dos familiares”, declarou. Avelino disse ainda que os casos mais comuns de abandono são com os idosos. “Acontece que esses pacientes são atendidos, recebem alta, mas ficam sem ter para onde ir”, explicou Avelino. 

Nesse período, enquanto o paciente se recupera, o serviço social, busca, principalmente por meio telefônico, encontrar os familiares. Há casos, no entanto, que o apelo ganha força nas redes sociais. “Nem sempre o retorno é positivo. Infelizmente ainda nos deparamos com situações nas quais os parentes são localizados, mas se recusam a vir buscar o paciente”, revelou o coordenador.

Além do abalo emocional causado pelo abandono, o problema tem outra consequência preocupante: o paciente, mesmo tendo recebido alta, fica ocupando o leito que poderia servir a outro necessitado. “Quando a situação está muito difícil, temos que acionar o Ministério Público para nos ajudar”, frisou. 

No Hospital de Emergência e Trauma, em Campina Grande, a coordenadora do serviço social Cecília Aragão disse que a situação é parecida com o que acontece no Trauminha da capital. “É rotineiro”, afirmou. Segundo ela, os assistentes sociais da unidade buscam contato através dos agentes comunitários de saúde ou secretarias de saúde. “Caso nenhum familiar seja localizado ou se recuse a vir buscar o paciente, nós requisitamos ao município que providencie um acompanhante”, destacou.

Abandono também no Complexo Juliano Moreira 

O abandono também foi, por anos, talvez a principal característica do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, onde os pacientes com transtornos mentais eram internados e ‘esquecidos’ pelos familiares. Por décadas, muitos homens e mulheres doentes, aguardavam, todas as manhãs, pela chegada de seus pais, mães e filhos que sequer avisaram que não iriam. Pessoas que nunca chegaram. Nunca os procuraram. 

Segundo o diretor da unidade, Walter Franco, era comum pacientes internados há 20, 30 anos, sem nenhum contato familiar. “Era um tempo arcaico no qual os familiares abandonavam mesmo, esqueciam seus filhos e pais aqui dentro, o que aumentava a angústia e sofrimento desses pacientes”, afirmou. O contato perdido representava, para os internos, o fim da esperança de voltar para casa, sentar na mesa da cozinha e tomar um café com as pessoas que amava. 

Com o passar dos anos, as coisas foram mudando, segundo Franco. No ano de 2012, o Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira contava com 52 pacientes internados, hoje tem nove. “Esses que restaram estão à espera de residências terapêuticas para que possam ir embora. Hoje quando um paciente é internado, o serviço social tem o cuidado de pegar o máximo possível de informações para não correr o risco de perder o contato com os familiares”, explicou. 

Ainda de acordo com Franco, a quebra simbólica dos cadeados tem contribuído para a implementação de um novo modelo, no qual o foco é a humanização dos pacientes”, pontuou. O tempo de internação também foi reduzido de 60 para 22 dias, o que é bastante representativo para o tratamento dos pacientes. “A redução desse tempo praticamente impede o abandono dos internos. Mesmo quando o paciente é de rua, o serviço social procura um lugar para que ele continue sendo acompanhado”, explicou o diretor. 


Você sabia que o Jornal da Paraíba está no Facebook, Instagram, Youtube e Twitter? Siga-nos por lá. Encontrou algum erro? Entre em contato.