Vida Urbana

Deficiente visual se forma no IFPB com pesquisa sobre balança sonora

Leonardo Xavier é o primeiro deficiente visual a se formar em um curso superior no IFPB.



Juliana Gouveia/IFPB
Juliana Gouveia/IFPB
Estudante só teve aulas práticas a partir do quinto período, justamente a partir da criação da balança sonora

Esforço e dedicação. Foi com estes elementos que Leonardo Xavier Lopes Daniel, estudante de Licenciatura em Química, tornou-se o primeiro deficiente visual a se formar em um curso superior no Instituto Federal da Paraíba (IFPB). 

>>> Idoso de 93 anos se forma em Direito na UEPB e vai receber título

Após perder a visão ainda no ensino médio, Leonardo prestou vestibular e foi aprovado em primeiro lugar. Em seu trabalho de conclusão de curso (TCC), ele apresentou uma pesquisa sobre uma balança sonora, instrumento que o ajudou nas aulas práticas em laboratório.

>>> ‘Lixo me deu o luxo’, diz sucateira da PB que levou latinhas para formatura

Leonardo diz que, na época em que perdeu a visão, pensou em desistir dos estudos. Contudo, foi o incentivo da família que deu forças para que ele conseguisse concluir os estudos e realizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).  "Quando saiu o resultado, vi que eu fiquei em primeiro lugar nas cotas, aí fiquei preocupado com a quantidade de cadeiras de cálculos que iria ter que pagar, mas entrei para o curso", afirmou.

Apesar da abertura à inclusão, no início da graduação, houve certa preocupação dos professores do IFPB em relação às questões de segurança no manuseio de substâncias químicas nas aulas práticas ministradas em laboratório. De acordo com a instituição, até o quinto período, o aluno não conseguia ter autonomia nas disciplinas práticas, fazia apenas atividades complementares, como anotação de pesos, medidas e resultados.

Balança sonora

Foi durante as aulas da disciplina de Prática Profissional, com o professor Sérgio Santos, que a falta de vivência prática de Leonardo começou a mudar. O docente desenvolveu uma balança mecânica de escala tríplice, composta por recursos sonoros capazes de auxiliar o aluno na pesagem de substâncias. O instrumento deu autonomia para o aluno e serviu de modelo pedagógico para a turma, de acordo com o professor.

"Aqueles que não acreditavam que era possível ensinar química a um deficiente visual se deram conta de que era só querer e buscar alternativas para as limitações técnicas. Nos aspectos humano, de respeito, pedagógico foi excelente", disse Santos.

O projeto da balança adaptada ganhou uma metodologia de utilização por deficientes visuais, pesquisa que virou tema do TCC de Leonardo. Agora, o próximo passo dele é ajudar outros alunos. “As escolas onde fiz o ensino médio possuíam laboratórios de química, mas eu só ouvia falar. Espero que a partir desse modelo, outros deficientes visuais ou pessoas com baixa visão consigam ter autonomia em algumas atividades realizadas no laboratório”.

Inspiração para inclusão

A partir da experiência em sala de aula com o Leonardo, alguns estudantes se interesseram pela capacitação na área de inclusão. É o caso de Lilian Mamedes, que fez o curso de transcrição de textos em Braille. A estudante trabalha dando apoio a estudantes deficientes visuais no campus de João Pessoa. "A experiência que vivenciamos em sala de aula sobre inclusão foi incrível. A partir daí, eu busquei estudar sobre o assunto", disse Lilian.

Ainda conforme a estudante, há uma grande variedade de possibilidades para trabalhar a inclusão no ambiente acadêmico. "Percebi que existem muitas ferramentas pedagógicas que podem ser trabalhadas com o deficiente visual e não é muito complicado, basta só ter boa vontade e disposição", completou.


Você sabia que o Jornal da Paraíba está no Facebook, Instagram, Youtube e Twitter? Siga-nos por lá. Encontrou algum erro? Entre em contato.