Vida Urbana

Capoeira transforma a realidade social de crianças e jovens

Projeto criado pelo professor Escurinho tira da violência e do envolvimento com as drogas meninos de comunidades carentes localizadas na Grande João Pessoa. 



Phillipe Xavier
Phillipe Xavier
No bairro de Cruz das Armas, as aulas de capoeira do projeto do professor Escurinho acontecem todas as quartas e quintas-feiras nos fundos de uma padaria da comunidade

Dez de julho de 2009. Era uma tarde aparentemente comum em uma casa localizada no bairro do Rangel, em João Pessoa. Na sala de estar, uma mãe com o filho de 3 anos no colo assistia na televisão o noticiário. As imagens eram de dor: narravam a história de quatro pessoas da mesma família mortas na noite anterior em uma chacina ocorrida na mesma comunidade. Ao ver as cenas, o coração da mulher apertou. E as sensações de vulnerabilidade e preocupação que vieram com o impacto da notícia a fizeram soltar o menino dos braços. Ela estava sofrendo um infarto.

Com a morte da mãe, João Pedro (nome fictício) passou a ser criado pelo pai, que para suportar a responsabilidade de cuidar sozinho dos filhos se entregou ao vício no álcool. Sem orientação e vítima de constantes agressões, o menino tentou buscar na rua a válvula de escape que tanto necessitava. Para ele, o futuro não importava: a escola não era prioridade, o ano letivo estava perdido pela segunda vez e o comportamento piorava a cada dia. Queixas de professores e colegas o colocavam quase que diariamente na sala da diretora, que não via mais esperanças para a criança.

Foi quando a solidariedade despertou João Pedro para os estudos e a cidadania. Após sair do Rangel e mudar para Cruz das Armas, o menino de 9 anos vislumbrou no grupo de capoeira criado pelo professor Alberto Antônio da Silva, mais conhecido como Escurinho, a oportunidade de ter o suporte de uma mão mais velha e o conforto de uma família – no caso, os amigos que integram o projeto. “Houve uma conversa minha e do pai de outro aluno para que a gente assumisse esse compromisso de acompanhar ele, tanto na escola quanto na capoeira”, conta Escurinho.

“Como ele se identificou de imediato com o grupo, a gente fez uma contrapartida e disse ‘para você permanecer, é preciso obedecer algumas regras básicas que são: estudar, respeitar os mais velhos, além de não praticar a capoeira no meio da rua, e sim dentro da academia’. Isso tudo para ajudar no processo pedagógico e educacional dele”, afirma o professor, que teve o aval do pai de João Pedro. “Antes ele era sozinho, hoje ele tem a gente”.

Meses depois, a criança que possuía bases frágeis começou, com o apoio da nova família e o gingado da capoeira, a fortalecer suas estruturas internas e externas. As notas melhoraram, as brigas na escola diminuíram e a sabedoria da arte marcial, que nas noites de quarta e quinta-feira ele aprende com Escurinho, o fez enxergar um potencial que estava escondido por trás de uma realidade sofrida. Agora, o silêncio cotidiano do menino foi substituído pelo som do berimbau, que dita o ritmo dos passos dele. “Eu quero ser capoeirista”, revela João Pedro, sob os olhares atentos do professor, que não esconde a satisfação de ter contribuído para a escolha.

João Pedro mostra que as aulas semanais de capoeira trouxeram a certeza de um futuro melhor para ele. (Foto: Phillipe Xavier)

Quase 20 anos de luta
João Pedro é uma das 90 crianças de comunidades carentes da Região Metropolitana de João Pessoa que fazem parte do projeto ‘Fortalecendo nossas raízes’, do Grupo Badauê, conduzido pelo professor Escurinho. As aulas ocorrem na capital, em Cruz das Armas e no Oitizeiro, e em Bayeux, no bairro do Sesi. Fora o ensino da capoeira, a iniciativa visa a trabalhar a coletividade, o respeito às diferenças, a história da cultura afro no Brasil, além da valorização do negro e o fortalecimento da autoestima.

Segundo Escurinho, nestes quase 20 anos de esforços para tirar jovens e crianças da violência e do envolvimento com as drogas, por meio do projeto, foram poucos os incentivos. Um dos principais motivos seria a associação equivocada que muitos ainda fazem da capoeira com as questões religiosas. “É como se fosse um cabo de guerra relacionado à falta de informação, porque a gente tem que constantemente orientar e conscientizar para que entendam o que é essa arte marcial”, sublinha.

E os efeitos do preconceito, conforme ele, ficaram refletidos na demora para que o projeto encontrasse uma sede definitiva em Cruz das Armas. No começo, as aulas aconteciam no quintal da casa de Escurinho, local sem estrutura e ao ar livre. “Depois resolvi bater na porta de uma escola, que não quis nos abrigar, e procurei uma igreja aqui da comunidade, que tinha um salão livre, mas que também não quis liberá-lo, apesar de permitir no espaço jogos de bingo”, lembra.

Somente em 2011 foi que o grupo pôde finalmente contar com uma área exclusiva para a prática da atividade, nos fundos de uma padaria do bairro. É lá que atualmente os capoeiristas se concentram e se dedicam a aprimorar as técnicas passadas pelo professor. E se antes a sensação era de desamparo, agora o sentimento é de gratidão. Com o investimento da dona do estabelecimento, grande apoiadora do projeto, o lugar em breve ganhará todo o aparato para que os participantes sigam cultivando o amor pela capoeira.

“A gente quer continuar estimulando a cidadania em cada um deles”, diz Escurinho, complementando que nota claramente os resultados positivos do contato dos jovens com o grupo. “Eles não se diferenciam um dos outros, mesmo que alguns estejam há mais tempo, e não querem faltar um dia. Tem um que não tem nem as calças para as atividades, mas tem a camisa do projeto e faz questão de ir para a escola com ela, de andar na rua com ela. Você percebe a empolgação. E é bonito ver ele se assumir como negro, como capoeirista e cidadão da comunidade”, exalta.

 Professor Escurinho se diz orgulhoso ao ver mudanças positivas que acontecem com os jovens do projeto. (Foto: Phillipe Xavier)


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