Vida Urbana

Associação inicia preparo para plantação de cannabis medicinal em Campina Grande

Primeira unidade da Abrace fora de João Pessoa enfrenta lentidão ocasionada pela pandemia.




Foto: Divulgação/Abrace

Primeira entidade autorizada pela Justiça a plantar maconha para fins medicinais no Brasil, a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) deu início aos preparos para o cultivo da planta em Campina Grande. As atividades de preparo na unidade, que é a segunda da associação instalada na Paraíba, tiveram início há alguns meses, e podem ampliar a capacidade de atendimento a pacientes que fazer uso do medicamento feito à base da cannabis produzida na associação.

A sede da Abrace está localizada na capital João Pessoa, e produz cerca de 300 óleos à base de cannabis por dia. Há cerca de dois anos, a associação estuda a possibilidade de iniciar o cultivo de cannabis em Campina Grande, tendo em vista que o clima ameno e a altitude da cidade poderiam melhorar as condições do plantio e ampliar a produção da substância extraída da planta (CBD) cannabidiol.

A unidade da Abrace em Campina Grande está localizada no perímetro rural do município. Pelo menos 20 funcionários estão trabalhando no local, que tem capacidade de produzir uma média de 14 mil plantas ricas em cannabidiol.

Com a abertura da unidade na Rainha da Borborema, a expectativa da Abrace é que até 10 mil pacientes possam fazer uso dos medicamentos feitos à base da cannabis cultivada no local. Concretizando a expectativa, a associação já registrou um aumento na quantidade de pacientes, que passou de 1,5 mil para 7 mil pessoas.

“Havia uma lista de espera de pacientes que precisam dos medicamentos produzidos aqui (na Abrace), mas a capacidade de produção aumentou e conseguimos zerar essa lista. Vamos poder receber novos pacientes que precisam dos nossos produtos.”, explicou Luciano Lima, gerente executivo e co-fundador da Abrace Esperança.

Foto: Divulgação/Abrace

Ainda de acordo com a direção da associação, além do preparo para abertura da primeira unidade em Campina Grande, em breve a cidade vai receber uma segunda unidade da Abrace para o cultivo completamente orgânico de cannabis. A previsão é de que a construção do local seja concluída até o final de 2021, e se concretizada como o planejado, será a maior plantação de maconha para uso medicinal da América Latina, segundo Luciano Lima.

 

Trâmites judiciais e pandemia

 

O andamento das medidas necessárias à produção de cannabis para uso medicinal em Campina Grande, assim como a maioria das produções industriais e de setores diversos, tem enfrentado impasses provocados pela pandemia da Covid-19.

Segundo a diretoria da Abrace, a maioria dos funcionários que atuam na preparação para o cultivo na unidade passaram a trabalhar de maneira remota, em home office, e os trâmites judiciais necessários à abertura oficial da unidade em Campina, como o alvará de funcionamento expedido pela Prefeitura Municipal, e o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), também atrasaram.

A expedição da licença para funcionamento é necessária para que estabelecimentos comerciais, industriais ou demais prestadores de serviço, possam funcionar normalmente. Apenas a prefeitura onde o empreendimento está instalado, ou outro órgão governamental municipal devidamente autorizado, podem emitir a documentação.

Segundo Luciano Lima, a pandemia da Covid-19 fez com que a tramitação da documentação fosse paralisada nos setores responsáveis e, por isso, a unidade da Abrace em Campina Grande ainda não pode operar de maneira plena, e segue em fase de teste.

“Sem o alvará de funcionamento, qualquer empresa pode ser multada e, em nosso caso, se isso acontecesse muitos paciente iriam ficar sem o óleo, porque sem planta não tem como ter o principal do medicamento, que é o extrato.”, comentou Luciano.

Foto: Divulgação/Abrace

 

Esperança na plantação de cannabis

 

No dia 8 de abril de 2018, o pequeno João Pedro, que à época possuía 6 anos de idade, apresentou o primeiro indício de algo “errado”. Após inúmeros exames, o diagnóstico positivo para encefalite autoimune pôde explicar as mais de trinta convulsões diárias que o menino passou a apresentar.

De acordo com Ana Fabia Olinto, mãe do garoto, João Pedro chegou a passar 33 dias internado, sendo 29 deles em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Emergência e Trauma de Campina Grande. Ao ouvir da equipe médica que seu filho estava entre a vida e a morte, Fabia decidiu procurar a Abrace Esperança.

O dispensário, que é um galpão onde os óleos à base de cannabis ficam armazenados, já estava recebendo medicamentos em Campina Grande, onde Fabia mora, e isso facilitou o acesso da família à substância que, ao ser utilizada por três dias seguidos, cessou as crises de convulsão de João Pedro e o fez receber alta médica.

“Só conseguimos controlar (as crises de convulsão) com a maconha, não teve outra. O médico disse que ele estava entre a vida e a morte, e que se sobrevivesse iria ficar em cima de uma cama em tratamento contínuo. Até entubado ele tinha convulsões, e hoje as crises são muito raras. Ele é uma criança normal.”, disse a mãe de João Pedro.

Foto: Arquivo Pessoa/Ana Fabia Paulino

Para Fabia, a produção da cannabis em Campina Grande vai poder ajudar a salvar outras vidas. Através da doença do filho, ela conheceu várias outras famílias de crianças que precisam dos medicamentos à base de maconha e não podem tê-los por conta da alta demanda na Abrace. Uma produção em larga escala ajudaria a fazer com que os medicamentos chegassem a muitas outras pessoas.

“Através do meu filho, muitas outras crianças conheceram o tratamento disponibilizado pela Abrace e ficaram interessadas. Mas infelizmente nem todo mundo pode ter acesso por conta da demanda. Sabemos que o clima aqui aumenta a produção e pode ajudar muitas outras pessoas com doenças autoimunes, assim como ajudou meu filho.”, concluiu.

 

A Abrace Esperança

 

Plantação de cannabis para fins medicinais em Campina Grande / Foto: Divulgação Abrace

A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) funciona desde 2014, e até esta semana era a única entidade do Brasil autorizada pela Justiça a plantar cannabis para uso medicinal. A segunda entidade permitida a plantar cannabis é a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), do Rio de Janeiro.

A maioria dos pacientes que fazem uso dos medicamentos à base de cannabis produzidos pela Abrace mora na região Sudeste do Brasil. Com a pandemia, o Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) autorizou a associação a realizar um estudo sobre os efeitos terapêuticos da cannabis medicinal em médicos e enfermeiros que estão atuando no enfrentamento à Covid-19.

Os interessados em obter o tratamento com os medicamentos produzidos Abrace Esperança podem entrar em contato com a associação por meio de seu site oficial, disponível aquiou através do telefone (83)3243-1951, e do e-mail contato@abraceesperanca.org.br.

Sob supervisão de Jhonathan Oliveira*


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