Política

Desvende mitos sobre posições políticas espalhados na internet

Que ideias sobre esquerda/direita estão certas e o que é  desinformação?




Para além das discussões no campo econômico e sobre as posições políticas dos governos do Brasil, muitas visões errôneas são transmitidas sobre os conceitos políticos de esquerda e direita, principalmente nas redes sociais e à luz do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Uma dessas ideias é a de que governos autodeclarados de esquerda estão destinados a se transformar em ‘ditaduras comunistas’, como Cuba ou Coreia do Norte.

“Existem nações (com postura esquerdista) com bom desempenho na área social e econômica, como os países nórdicos”, explica Rejane Gomes, professora doutora em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O modelo de países nórdicos como Dinamarca e Finlândia é a social-democracia, associada à esquerda. O modelo combina livre mercado com uma forte presença e regulação estatal para suprimir desigualdades sociais.

Segundo a professora, o comunismo é distorcido nos dias de hoje, sendo comumente usado como argumento nas discussões na internet o ‘fato’ de que o modelo estaria tentando ser implantado pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil. A possibilidade, de acordo com estudiosos, é remota.

Estaria o Brasil destinado a se tornar uma ‘ditadura comunista’, como a Coreia do Norte? (Foto: KCNA)

“Dificilmente uma posição política que se declare de esquerda poderia ser considerada ‘governo comunista’, explica Rejane Gomes. “O comunismo só poderia ser alcançado após a superação das condições sociais e materiais de reprodução do sistema capitalista. As experiências históricas que tivemos, chamadas de ‘socialismo’ ou ‘comunismo’, de longe representaram ou representam o que seria o comunismo de Marx”, esclarece. A opinião é compartilhada pelo professor Leon Victor, doutor em Ciências Políticas da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). “Comunismo no Brasil é pura retórica. Nunca os bancos lucraram tanto, por exemplo. Isso é fruto do imaginário popular”, diz.

"Esquerda progressista" vs. "direita conservadora"

Outro ponto que provoca debate entre diz respeito à posição assumida pela direita e pela esquerda em relação a valores morais estabelecidos na sociedade: a esquerda, representada por políticos como Ivan Valente (PSOL-SP), seria associada a valores e políticas mais progressistas – como a liberação do aborto e a descriminalização das drogas – e a direita, cuja figura política mais popular atualmente é o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), a posições mais conservadoras, como a resistência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O professor Leon Victor esclarece que, ao contrário do que muitos pensam, podem existir governos de esquerda com visões conservadoras. Ele ressalta, entretanto, que a realidade social do Brasil confirma, de certo modo, a ideia de que políticas de esquerda representam uma quebra do status quo.  “A esquerda não é liberal no aspecto econômico, mas é do ponto de vista social, dos costumes. Na realidade brasileira, a direita é mais conservadora no aspecto de manter tradições e ideais pré-formuladas de sociedade, principalmente os baseados na religião”, esclarece Victor.

Grupos quebram estereótipos

Apesar disso, existem grupos que contrastam com essa relação entre esquerda, direita e valores morais. Nas redes sociais, é comum encontrar páginas como a ‘Cristãos de Esquerda’, que reúne mais de 14 mil seguidores. “Existem muito mais similaridades entre a Bíblia e a esquerda do que com a direita”, defende um dos administradores da página, o professor de História carioca João Marcos Bigon, de 23 anos. “Percebemos isso através de uma leitura bem feita do texto bíblico no seu contexto; dizer que as lutas da esquerda não possuem vínculo com o cristianismo é um equívoco normalmente fruto de desconhecimento tanto da ideologia quanto da religião. O cristianismo sempre foi subversivo”, diz Bigon.

Outro grupo que confronta estereótipos é o ‘Gay de Direita’, que tem pouco mais de mil seguidores na internet. Para o professor de Língua Inglesa paulista Rommel Werneck, que administra a página, uma economia liberal permite maior aceitação de homossexuais. “Um rapaz gay desprezado por sua comunidade e por sua família, por exemplo, consegue conforto estudando e trabalhando, acumulando capital e independência”, argumenta. Para ele, assumir posições conservadoras não significa lutar contra os direitos dos homossexuais. “Creio muito mais numa expansão de direitos de cidadãos de bem, em direitos do indivíduo, do que na realização de um recorte da população”, diz.

Independente das posições adotadas, é consenso que é importante se informar sobre as diversas correntes políticas para a construção de uma consciência cidadã mais responsável e atuante; é preciso entender, também, que a política brasileira – e mundial – se mostra tão complexa que impede categorizações engessadas. “A dinâmica das economias na atualidade exige políticas que podem estar associadas às formas de governo liberal e de esquerda”, finaliza Rejane Gomes. 


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