Especial

Filho relembra momentos com a mãe, vítima de Covid-19: "Uma mulher espetacular, minha melhor amiga"

Maria Cristina lutou contra a Covid-19 durante Dia das Mães de 2020, mas não resistiu.




Foto: Arquivo Pessoal

Era Dia das Mães em 2020. Marcílio de Souza, de 28 anos, assistia ao show especial de Roberto Carlos, transmitido pela Rede Globo, enquanto esperava notícias de sua mãe, Maria Cristina, de 69 anos, que estava intubada com Covid-19. Em meio à tristeza, a esperança de reencontrar a mãe, que era fã de Roberto Carlos, falava mais alto. Em 2021, no entanto, a mesma data será ainda mais difícil. Infelizmente, assim como milhares de outras mães, Maria Cristina não resistiu.

Marcílio conta que a relação com a Cristina era “a mais perfeita possível”. Isso porque, além do relacionamento entre mãe e filho, eles nutriam uma verdadeira amizade. A mãe era dedicada e muito apegada à família. Nutria e participava dos sonhos de todos. 

“Nossa relação era a mais perfeita possível. Além de mãe, ela era minha amiga mesmo, coisas que nem pro meu pai eu falava, coisas de homem pra homem, eu falava pra ela. Era uma amizade muito fora do comum”, lembra.

A família de Cristina não sabe como ela foi infectada pelo novo coronavírus. Na época, há cerca de um ano, a realidade que ainda parece nova era ainda mais desconhecida, com orientações médicas pontuais e protocolos de atendimento ainda não bem definidos. 

“Ela não saía de casa, então até hoje é uma incógnita muito grande. Não sabemos como aconteceu, ela estava em casa e começou a apresentar sintomas. Lembro que numa madrugada eu estava no computador e escutei ela tossindo, perguntei o que era, mas ela disse que era alergia. No outro dia, ouvi ela tossindo e fiquei preocupado, e quando amanheceu ficou mais frequente. Falei pro meu irmão, que é médico, e ele já ficou preocupado também”.

Foto: Arquivo Pessoal

Após os primeiros sete dias de sintomas, a família percebeu que o quadro de saúde de Cristina piorou gradualmente. Além da tosse, ela passou a apresentar falta de apetite e náuseas. O irmão de Marcílio, que é médico, examinou a mãe antes de levá-la ao hospital. A oxigenação sanguínea não foi restabelecida mesmo após o tratamento com medicamentos, havendo necessidade de internação.

“Lembro que, num sábado, meu pai comprou almoço e ela não quis comer, pediu pra comprar de outro lugar porque achava que tinha enjoado. Ele trouxe, mas mesmo assim ela não quis. Eu vi que ela não quis e machuquei banana com mel, que ela gostava, mas também não quis comer. Pediu pra eu fazer suco de melancia, tomou mas com 2 minutos levantou da sala, caminhou até o terraço e passou mal. A partir daí começou a preocupação maior”, relembra.

No hospital, ela chegou a ser apenas tratada com oxigenação, mas não melhorou e mesmo contra a própria vontade, foi intubada. Durante os 21 dias de intubação, precisou fazer diálise, ficou em coma induzido. Apresentou melhoras pontuais, mas não resistiu. 

“Infelizmente não a visitei. Só lembro que quando ela saiu do apartamento que eu estava sentado na mesa, ela passou por mim de cabeça baixa e caminhou até a saída. Eu corri pra abraçá-la, mas meu irmão não deixou. Só dei um ‘beliscão’, como de costume, no braço dela, mas ela não me olhou. Era como se ela já soubesse. Foi a última vez que vi minha mãe, daí em diante foi só notícia ruim. Nem uma chamada de vídeo eu pude fazer. Não tive o direito de me despedir da minha mãe, nem em vida nem após a morte”, lamenta.

Por conta dos protocolos de prevenção à Covid-19, a família não pôde fazer o velório e teve apenas 30 minutos para sepultar o corpo. O caixão ficou lacrado, os impedindo de ver Cristina. Um luto inacabado, regado a uma saudade que mesmo após quase um ano não para de crescer.

“Foi uma reviravolta muito grande, algo que eu realmente nem pensava. Eu sonhava em ver minha mãe idosa, conhecendo os netos, assim como todo mundo sonha. E ela era uma mulher muito família, não é porque era minha mãe, mas era espetacular. Nunca vou conhecer uma mulher como ela, tão família”.

Foto: Arquivo Pessoal

Marcílio recorda que os primeiros meses após a morte da mãe foram os mais difíceis – coincidiram com o período de isolamento social rígido. Ele, que trabalha em academia, precisou ficar em casa e conviver com a ausência da mãe ainda mais de perto. 

“Vi meu lar sem ela, o quarto sem ela… Sempre antes de dormir tenho o costume de ir no quarto dos meus pais, e passei a ver só ele. Os objetos, o quarto dela… Tudo lembra ela. É uma saudade imensa, não tem como expressar em palavras”, comenta.

Dias após Cristina falecer, a sogra dela também morreu, por causas naturais. O pai de Marcílio, então, perdeu a esposa e a mãe com poucos dias de diferença. A família precisou se unir, mesmo que distante, para superar o momento e seguir em frente.

“Apesar de todas as perdas a gente não recebia visita. Sofremos e muitos queriam nos dar um abraço, mas não podiam. Redobramos os cuidados, ficamos com medo… De certa maneira, precisamos passar por tudo isso sozinhos, mas estamos nos unindo como família para superar. Minha mãe faz uma falta muito grande, mas procuramos ficar juntos pra amenizar a dor e passar o conforto um pro outro. Se os quatro baixarem a cabeça, fica complicado, então sempre tem um dando força ao outro”, disse.

Neste Dias das Mães, assim como Marcílio outros milhares de filhos não terão a presença física das suas, vitimadas pela Covid-19. Ficaram as lembranças de momentos especiais, afetos, conversas simples que muitas vezes passam despercebidas, mas devem ser celebradas.

“Um colega me disse: ‘essa semana vou gastar dinheiro com minha esposa e minha mãe’, por conta do Dia das Mães, reclamando. Mas eu disse ‘que bom, cara, que você vai gastar, presentear. Queria eu gastar agora tudo que eu tenho pra dar um presente a minha mãe, pra ter ela comigo’. E é bem isso mesmo. Ela era extraordinária. Eu só queria ela comigo”, finaliza.

Foto: Arquivo Pessoal


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