Educação

Crianças chegam até o 5º ano sem saber ler e escrever

Segundo os dados dos Indicadores do Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC), em 2007, a Paraíba possui pelo menos 85 mil estudantes sem saber ler nem escrever.




André Gomes

“Eu tenho vergonha dos meus amigos porque não sei ler direito. As vezes eles ficam rindo de mim”. O relato é do estudante Alison Silva Santos, de 15 anos, que estuda na Escola Municipal Augusto dos Anjos, no bairro do Cristo, em João Pessoa. Ele vive uma realidade comum a muitas crianças e adolescentes que chegam a até o 5º ano do ensino fundamental I com sérios problemas na leitura e na escrita. Segundo os dados dos Indicadores do Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC), em 2007, a Paraíba possui pelo menos 85 mil estudantes sem saber ler nem escrever.

O levantamento mostra que o analfabetismo atinge um em cada quatro paraibanos com mais de 15 anos. Hoje na Paraíba, segundo dados parciais da Secretaria Estadual de Educação, existem 588.361 alunos divididos nas redes estadual e municipais dos 223 municípios, sendo 73.776 matriculados do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental I e 113.295 do sexto ao nono ano do ensino fundamental II, na rede estadual. Já na rede municipal estão matriculados 254.863 do primeiro ao quinto ano e 146.385 do sexto ao nono ano.

Para se ter ideia da situação do sistema educacional, 31,2% dos estudantes nos anos finais do ensino fundamental, segundo dados do Ministério da Educação, são reprovados justamente porque chegam ao quinto ano do ensino fundamental I sem saber ler nem escrever, mas as novas formas de avaliação baseadas na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação Nacional possibilitam que, mesmo sem uma formação adequada, os alunos sejam aprovados e passados para a próxima turma. Além disso, 48,8% das crianças e adolescentes matriculados no ensino fundamental I e II da rede pública da Paraíba cursam a série inadequada para sua idade, números que chegam a superar a média do País, estipulada em 31,2% e a do Nordeste, 44,7%.

A realidade vivenciada por Antônio, em João Pessoa, pode ser facilmente encontrada em qualquer parte do Estado. Aparecida Macêdo é professora em um colégio estadual há 25 anos no município de Princesa Isabel, localizado na região do Sertão paraibano. Segundo ela, é comum alunos no município chegarem a séries mais avançadas enfrentando dificuldades de leitura e escrita. Ela contou que um de seus alunos abandonou a escola por vergonha de não saber ler e escrever. “Uma certa vez eu fiz um ditado e ele escreveu de uma forma totalmente incompreensível que depois ele mesmo não soube ler o que escreveu”, disse, revelando que os novos métodos de avaliação dos alunos é preocupante uma vez que fica na responsabilidade dos professores alfabetizar um estudante em séries em que ele já deveria dominar a leitura e a escrita.

Para atenuar esse quadro, a LDB, de 1996, instituiu a chamada progressão continuada, hoje implantada em grande parte do País. A lei diz que o aluno deve ser avaliado ao final de um primeiro ciclo (do primeiro ao sexto ano) e num segundo (do sexto ao nono ano). A avaliação deve ser feita sem prejuízos ao aprendizado e levando-se em conta a frequência escolar. Quem repetir num dos dois ciclos, por exemplo, pode passar de ano pelo processo de “aceleração” (ou recuperação).

A psicóloga e especialista em educação Cenise Monte Vicente, ex-coordenadora do programa de combate à repetência escolar Acelera Brasil, do Instituto Ayrton Senna, também não poupa os professores. “Mesmo na quinta série, eles têm que saber alfabetizar. Não podem colocar a culpa só no sistema de avaliação, na família, no governo. O problema não está no sistema”. Para ela, o professor se encontra num estágio de “solidariedade inoperante”. “Eles se sentem impotentes para resolver o problema e acham que a solução está fora de seu âmbito. Não se sentem responsáveis”.


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