Cultura

Um cinema a cada esquina, um passado perdido

À cata deste passado perdido nas ruas de cidades como Campina Grande e João Pessoa, a reportagem do JORNAL DA PARAÍBA procurou figuras que frequentaram àqueles cinemas.




De Tiago Germano do Jornal da Paraíba

Na epígrafe de O Edifício (1987), o novelista gráfico Will Eisner fala de prédios incrustrados de risos e lágrimas que de tanto partilhar do convívio humano acabam, eles próprios, manifestando uma espécie de alma depois de perecerem aos agouros do tempo.

Assim ocorre com os antigos cinemas de bairro, espaços antes cheios de vida e de histórias que hoje, desaparecidos ou desfigurados pela rotina das metrópoles, são fantasmas de uma época reconstituída apenas pela memória de pessoas que viveram aquela saudosa era.

À cata deste passado perdido nas ruas de cidades como Campina Grande e João Pessoa, a reportagem do JORNAL DA PARAÍBA procurou figuras que frequentaram àqueles cinemas e que guardam a lembrança áurea de anos em que, para ir ao cinema, o que se precisava fazer era apenas atravessar a calçada.

“Lembro-me da sirene que tocava chamando os espectadores para a próxima sessão”, diz Wills Leal, pesquisador e atual presidente da Academia Paraibana de Cinema. Autor de 22 livros sobre a sétima arte, Wills afirma que grande parte de sua cultura cinematográfica foi descoberta a partir das salas de projeção nos bairros. “O cinema era o único lugar que tínhamos naquela época para conhecer o mundo”, relembra, com nostalgia.

Fundados em sua maioria nos anos 1930, tendo seu apogeu entre as décadas de 1950 e 1960 e entrando num período de decadência a partir dos anos 1980, os cinemas de bairro de João Pessoa eram pequenos espaços com lotação que variava entre 250 e 300 lugares.

“Nos primórdios, essas salas de exibição foram construídas obedecendo as rotas de transporte. Assim, bairros como Torre, Jaguaribe e Cruz das Armas, por onde a linha do bonde passava, tinham todos seus próprios cinemas. Locais como a rua da República, onde havia um grande tráfego populacional, chegaram a ter quatro cinemas em funcionamento”, explica Wills Leal.

Segundo ele, um dos grandes atrativos desses cinemas, fator responsável pela sua popularização em quase toda a cidade, era o preço do ingresso. “Podia-se assistir a uma sessão pelo que hoje custaria aproximadamente 50 centavos. Algumas famílias compravam assentos permanentes nessas salas, e o curioso era que umas até levavam suas próprias cadeiras, num tempo em que o ingresso era pago com preços diferenciados: quanto mais perto da tela, mais caro ficava”, conta o acadêmico.

Cine República, Cine Glória, Cine Filipeia, Cine Popular… Estes são alguns dos nomes que Wills Leal ressuscita ao vascular o baú da memória e retirar dele uma profusão de recordações tendo a parede branca como pano de fundo. “Havia também os ‘cinemas de poeira’, que organizavam sessões improvisadas, de cunho mais popular, e os ‘cinemas de veraneio’, que surgiam em Tambaú, na época de férias, e atraíam o público que ia ao bairro se divertir na praia”, diz Wills.

Para o pesquisador, o deslocamento do eixo cultural do interior da cidade para o litoral foi a razão determinante para a derrocada desses espaços. Hoje, prédios residenciais, comerciais, ativos ou em ruínas, os antigos cinemas de bairro deixaram saudades e narrações ainda a serem descobertas por gerações de cinéfilos.

Era de ouro do cinema da ‘Rainha da Borborema’

Quem visita Campina Grande em tempos atuais e se depara com um único local de exibições cinematográficas, talvez nem consiga imaginar que em tempos áureos a cidade já fez parte das principais rotas de exibição de grandes filmes nacionais e internacionais. A acirrada concorrência por espectadores nos cines Babilônia, Capitólio e São José, ou entre Cine Apollo e Cine Fox, permanece na memória dos mais antigos cinéfilos. Hoje, a memória do patrimônio histórico dos antigos cinemas campinenses tem sua preservação ameaçada.

Tudo começou em 1909, no prédio do antigo Grêmio de Instrução Campinense, na Rua dos Armazéns, atual Rua Marquês do Herval e onde hoje funciona o Colégio Alfredo Dantas. Ali na região da Boninas, em uma pequena sala, começaram as exibições do Cine Brazil. No ano seguinte, surgiu o Cine Popular, com o cunho de divulgar a nova arte, proporcionando facilidade de acesso às pessoas de baixa renda. Pouco mais de 14 anos após a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, em Paris, Campina Grande já começava a exibir suas primeiras películas, ainda de forma rudimentar e em cinema mudo. Se instalavam então o Cine Apollo, em 1912, e Cine Fox, em 1918, funcionando, respectivamente, nos prédios da atual Biblioteca Central e na antiga Livraria Pedrosa.

Ambas as experiências decaíram perante a instalação, em 20 de novembro de 1934, do Cine-Theatro Capitólio, considerado então o maior e mais moderno da Paraíba. “Até então, o cinema era coisa popularesca. A burguesia campinense não frequentava esses ambientes, para não se misturar com o povo. Quando queriam assistir filmes, eles alugavam as máquinas para exibir em casa, para amigos e familiares”, explica Rômulo Azevedo, professor de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

O Cine-Theatro Capitólio abriu as portas para espectadores da elite de Campina Grande em seus mais de mil assentos, encerrando com os experimentos dos cines Apollo e Fox. Pouco depois, viria o concorrente Cine Babilônia, inaugurado em 1939 com 898 lugares, e o Cine São José, em 1949, que ganharia fama por seus preços mais baratos, apesar das condições de conforto menores que os outros dois cinemas. As sessões neste último eram sempre por volta das 19h e além de filmes, exibiam seriados americanos e noticiários, já que a televisão na época era privilégio de poucos. Além disso, antes do Teatro Municipal Severino Cabral ser inaugurado em 1963, os três cinemas também serviam de palco para apresentações de dança, teatro e música.

O infeliz destino destes saudosos cinemas foi o mesmo e hoje um único cinema funciona em Campina Grande, no Shopping Boulevard. O Cine São José encerrou suas atividades no final da década de 1970, em sua franca decadência exibindo filmes pornográficos. O pomposo Cine-Theatro Capitólio sucumbiu em 1999, igualmente exibindo pornô em seus últimos anos. Nada funciona nas dependências do prédio, que já foi condenado pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), após sua cobertura ruir.

A falência do Babilônia veio logo depois, em 2000, transformado anos depois em shopping center. Dentre os prédios, apenas o Cine São José mantem a fachada original, apesar de abandonado durante mais de três décadas, servindo de abrigo para sem-tetos e usuários de drogas. Desde 11 de maio de 2010, o prédio está ocupado por estudantes de Comunicação Social da UEPB, que após longo protesto vem realizando pequenas atividades culturais em seu interior. Nesta segunda-feira, o secretário de Cultura do Estado, Chico César, fará uma visita ao Cine São José. De acordo com a assessoria da secretaria, a intenção é fazer uma primeira visita oficial para conhecer o espaço e anunciar os planos do governo para o local. (Taiguara Rangel).


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