Cultura

'Trama fantasma' é um filme primoroso sobre abuso e poder

Longa conta história sobre os jogos de poder envolvidos em um relacionamento amoroso.




trama fantasma crítica

Daniel Day-lewis e Vicky Krieps em Trama fantasma.

RESENHA DA REDAÇÃOTRAMA FANTASMA (EUA, 2017, 130 min.)
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Vicky Krieps
★★★★★

 

Temas como masculinidade tóxica e relacionamentos abusivos são comuns no cinema – só nesta temporada de premiações, filmes como A forma da água e Três anúncios para um crime tratam de questões relativas aos jogos de poder entre homens e mulheres. Nenhum deles, entretanto, consegue ser ao mesmo tempo tão sutil, efetivo e impactante quanto Trama fantasma (Phantom Thread, 2018), que concorre ao Oscar de Melhor Filme na premiação deste domingo (4).

O aclamado diretor Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, Vício Inerente) se une ao ator Daniel Day-Lewis – que, segundo ele, se aposentou do cinema após o filme – em uma narrativa que, se aparentemente simplória a princípio, termina por tecer um poderoso comentário sobre os jogos de poder envolvidos em um relacionamento amoroso.

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Lewis e Krieps: dupla invoca relacionamento problemático.

Lewis vive Reynolds Woodcock, um renomado e disputado estilista da Londres dos anos 1950 que produz vestidos para rainhas, nobres e membros da elite europeia em uma mansão que lhe serve de casa e ambiente de trabalho. A personalidade extremamente controladora e ritualística do estilista fica evidente desde o início e chega a ser irritante: atividades tão banais quanto o café da manhã devem seguir uma ordem rigidamente controlada, e qualquer um que viole o caráter sagrado do seu cotidiano está sujeito a seus rompantes de críticas e agressões.

É com a mesma mesura que Anderson constrói seu filme, com cuidado e perícia semelhantes ao cosimento dos trajes de Woodcock. Tudo em Trama fantasma funciona como peças de tecido meticulosamente desenhadas e unidas: os eventos são apresentados em ritmo lento, mas não monótono, que deixa o espectador no limiar entre contemplação e envolvimento. É interessante perceber como tanto as cores quanto a trilha sonora (essa composta por Jonny Greenwood) adquirem função narrativa e refletem a caótica interioridade dos protagonistas.

Apesar da competência do par de estrelas, é a atuação de Vicky Krieps que se revela como a verdadeira força destruidora de Trama fantasma e torna o longa tão bem-sucedido e efetivo.

Complexo de Alma

O rígido dia a dia de Reynolds é abalado quando ele conhece a garçonete Alma (Krieps) em um restaurante. Antes que o espectador perceba, o conturbado relacionamento amoroso entre os dois é desvelado naturalmente, e Alma logo se transforma na musa inspiradora de Woodcock, mudando-se para a mansão do estilista: simbólica é a cena em que ela adentra a casa (e a vida) vazia e silenciosa do protagonista pela primeira vez.

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Cena de Trama fantasma.

Logo ficam claras, entretanto, as diferenças que se impõem entre o casal: como seda e lã, ambos são feitos de matérias distintas, e as maneiras requintadas e quase paranoicas do estilista são confrontadas pela personalidade simples e extrovertida da ex-garçonete. Estabelece-se um complicado jogo de poder e controle, e Anderson utiliza o improvável romance para retratar as sutis (e as explícitas) demonstrações de abuso e dominação presentes, em maior ou menor grau, em qualquer relacionamento. O conto de fadas transforma-se, assim, em um jogo destrutivo envolvendo a necessidade de controle masculina (reforçada pela alta posição social do homem em relação à sua amante) e uma desesperada busca por atenção e carinho da mulher.

Há algo de edipiano na maneira como a atração de Reynolds por Alma é desenvolvida; as constantes lamentações do homem sobre a mãe, falecida há muitos anos, fornecem pistas para a compreensão do mecanismo de paixão e poder existente entre os amantes. A jovem vai lentamente desestabilizando o delicado equilíbrio sentimental do parceiro, desafiando a irmã e secretária de Reynolds, Cyril (Lesley Manville) e obliterando as lembranças de sua mãe.

Trama fantasma é um filme primorosamente construído e eficiente em contar uma história de amor e poder, refletindo sobre tais temas sem recorrer a clichês ou ferramentas melodramáticas. O trunfo da obra reside justamente em explorar as formas mais silenciosas e suaves de abuso tão presentes nos relacionamentos atuais: a tentativa de supressão do outro através do controle e manipulação.

Confira as resenhas dos outros filmes que concorrem na categoria Melhor Filme no Oscar 2018:


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