Cultura

'The Post - a guerra secreta': oportuno, filme alia liberdade de imprensa à luta feminina

Baseado em história real, novo longa de Steven Spielberg se volta para os anos da Guerra do Vietnã, mas é bastante atual.




The Post- a guerra secreta crítica

Hanks e Streep em The Post: filme discute o papel da imprensa e das mulheres na democracia.

RESENHA DA REDAÇÃOTHE POST – A GUERRA SECRETA (EUA, 2017, 132 min.)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk
★★★★☆

 

The Post – a guerra secreta (The Post, 2017)*, mais novo filme do diretor Steven Spielberg, traz Tom Hanks e Meryl Streep (juntos pela primeira vez) no papel dos protagonistas e poderia ser apenas mais uma receita pronta para arrebatar a temporada de premiações de Hollywood com seus nomes estelares e o texto autorreferente tão caro aos americanos. Mas a verdade é que não há momento mais oportuno para o lançamento do filme.

Para falar do presente, Spielberg volta ao passado – mais especificamente ao escândalo dos Pentagon Papers, uma série de documentos ultrassecretos do governo norteamericano detalhando as políticas internacionais e os planejamentos de guerra dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Parte dos documentos vazaram para a imprensa em 1971 por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys), militar que participou da formulação dos papéis.

Maryl Streep encarna o papel de Katharine Graham, proprietária do The Washington Post. Quando um repórter do jornal consegue uma cópia dos documentos vazados, Graham se vê em meio a um conflito: publicar as informações secretas e entrar em conflito com o então presidente Richard Nixon ou ignorar os desvios de conduta do governo durante a guerra, assegurando a estabilidade do jornal. A partir dessa premissa, o longa traça um comentário sobre o papel da imprensa na democracia e suas relações com o poder político.

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Comum nas faculdades de jornalismo é a expressão ‘quarto poder’ para designar a mídia: considerando a sua influência, caberia aos jornais fiscalizar a atuação da máquina pública. O ponto em que esse ‘dever jornalístico’ perde força esbarra em interesses financeiros, na necessidade de sobrevivência econômica e nas estreitas relações que a mídia estabelece com o poder político – jogo bem explicitado no filme pela amizade que Graham mantém com o Secretário de Defesa dos EUA, Robert McNamara (Bruce Greenwood). Em The Post, contudo, esse aspecto mais promíscuo da atuação midiática acaba dando lugar à defesa irrestrita da liberdade de imprensa e de seu dever para com os cidadãos – ideia encarnada pelo então editor do jornal, Ben Bradlee (Hanks).

The Post - a guerra secreta crítica

Filme destaca a importância da atuação da imprensa.

O retrato de uma imprensa plenamente atuante na defesa da sociedade pode até ser um tanto romantizado no longa, mas se faz necessário no tempo presente, no qual o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (ironicamente um magnata da mídia), usa o Twitter furiosamente para atacar jornais como o Post e o The New Tork Times (o presidente certamente veria sua fortuna aumentar exponencialmente se patenteasse a expressão Fake News!).

A figura caricata do atual presidente dos Estados Unidos leva também à segunda discussão trazida à tona pelo filme: o papel das mulheres na sociedade, no mercado de trabalho e em posições de liderança. É sintomático como a personagem de Streep é continuamente silenciada e ignorada pela maioria dos homens que a cercam. Todo o tratamento dispensado a Graham ao longo do filme é compensado na cena em que ela sai da Suprema Corte e, esquecida pelos repórteres (todos homens), é recebida por um grupo de manifestantes (todas mulheres) que a olham com admiração. Em meio ao debate sobre as acusações de misoginia contra Trump e figuras poderosas como Harvey Weinstein, a lembrança de que Katharine Graham já assumia a luta feminina contra o machismo no ano de 1963 é revigorante e reconfortante.

(Em tempo: é interessante perceber como o filme retrata a figura de Nixon – a câmera não ousa se aproximar do presidente e ele é visto através de uma janela da Casa Branca, sempre na escuridão, raivoso e de costas; sem intimidade alguma, nem física nem emocional, com o espectador. Em outros filmes, essa seria uma construção bastante caricata de um vilão superficial; mas aqui, tratando-se do presidente dos Estados Unidos – figura sempre idealizada e apontada exaustivamente como o ‘líder do mundo livre’ -, configura uma abordagem mais crítica e bem-vinda).

The Post – a guerra secreta pode se passar numa época de guerra contra o Vietnã e de manipulação dos governos de Nixon, Eisenhower e Kennedy. Mas o olhar que ele lança sobre o 2018 de Donald Trump, de declarações de guerra no Twitter e de mulheres que ainda lutam para serem ouvidas é indispensável.

* O jornalista assistiu ao filme a convite da rede Cinépolis no Manaíra Shopping, na sala VIP, em João Pessoa.


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