Cultura

São João das 'lives': como este novo formato de shows reduz prejuízos e faz a festa continuar

Como alternativa à crise, artistas deram continuidade a festa, mesmo sem a grande estrutura conhecida em anos anteriores.




Foto: Divulgação/Luan Estilizado

O mês de junho, em Campina Grande, é esperado por muitos artistas e barraqueiros que encontram no período uma forma de ganhar renda extra, levando em consideração o espaço do Parque do Povo, que se transforma em uma atração turística por 30 dias.

No ‘Maior São João do Mundo’, tem forró, comidas típicas, apresentações de quadrilhas estilizadas, exibições de artes de paraibanos e, por consequência, o crescimento na renda local. Mas, todo esse festejo junino era pensado antes da pandemia da Covid-19, que foi a culpada por comprometer o maior evento cultural da cidade de Campina Grande, em 2020.

Como alternativa à crise, as autoridades locais pensaram em continuar fazendo a festa, mesmo sem a grande estrutura conhecida em anos anteriores. Afinal, muitas pessoas dependem do rendimento do São João de Campina Grande para se manter. O desafio estava lançado: como fazer o ‘Maior São João do Mundo’ chegar até as pessoas, em meio a uma pandemia?

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Campina Grande, Rosália Lucas, falou sobre a preocupação, já que apenas para o município, as festas de São João movimentam cerca de R$ 300 milhões por ano.

Além do receio com o impacto financeiro, o desafio era dar continuidade à programação seguindo os protocolos de biossegurança, adotados para prevenir contágios pelo coronavírus.

“[A partir da pandemia] nos preocupamos em fazer um evento seguro. Nós temos o selo de segurança do Ministério do Turismo”, pontuou Rosália.

Foi a partir desse entendimento que a prefeitura decidiu, ainda em 2020, adotar o formato de ‘lives’, para não cancelar totalmente o São João, e tentar reduzir o impacto financeiro aos cofres públicos e também aos artistas e demais profissionais envolvidos.

Os shows com transmissões ao vivo pela internet se popularizaram bem no início da pandemia da Covid-19 no mundo inteiro, e ganharam o gosto do público, que assiste às atrações sem pagar ingresso e de casa, sem aglomeração de pessoas.

O formato é possibilitado a partir do investimento de empresas patrocinadoras, que pagam aos artistas principais para fazer propagandas de produtos e/ou serviços durante os shows. Uma forma de adquirir renda, vender produtos e superar a crise.

O cantor Luan Estilizado, por exemplo, foi um dos músicos que adotaram os shows em lives. O artista relatou como foi receber a informação do cancelamento do São João presencial, em 2020, da saudade de se apresentar no palco no Parque do Povo, em Campina Grande, e também sobre a preparação para começar a fazer um novo formato de show, as apresentações por lives.

Luan em uma das lives realizadas durante a pandemia / Foto: Divulgação/Luan Estilizado

“Todos foram pegos de surpresa. Éramos acostumados a tocar pra grandes públicos, e depois você ter que tocar para um computador, para uma câmera, sem a energia das pessoas cantando com você… Agora, as pessoas cantam de casa”, diz.

Ainda sobre o cenário, que antes era atípico, Luan reforça a importância de continuar os shows, mesmo que de forma remota, “as lives foram uma forma diferente de levar a nossa música para os nossos fãs e uma forma de arrecadar algo para sustentar a nossa estrutura e os nossos funcionários”, afirma.

Economia e solidariedade

Além de servir como uma alternativa de renda, as lives também se tornaram uma ferramenta de promoção de solidariedade. O músico paraibano Fabiano Guimarães, de Campina Grande, é um dos artistas da região que também adotou o formato e abraçou uma causa maior, doando mais de 10 toneladas de alimentos e donativos a instituições de caridade.

Lugares como o Instituto São Vicente de Paula, Lar da Sagrada Face, Instituto dos Cegos e Apae, foram beneficiados pelas doações, feitas pelos internautas através de dados disponibilizados nas próprias lives, que estão sendo produzidas desde o início da pandemia.

“Conheci o mundo das lives no início [da pandemia], tanto que a primeira live de Campina Grande com estrutura grande foi a nossa. Assistindo a live do cantor Gusttavo Lima deu vontade de fazer naquele formato, com grande estrutura boa. Contratamos uma grande empresa e foi muito especial”, disse.

Do início da pandemia até junho de 2021, Fabiano promoveu cinco grandes lives, com estrutura planejada e montada por ele e sua equipe. Ao todo, o cantor já participou de mais de 30 shows transmitidos pela internet, frente à mais de 30 shows presenciais feitos apenas durante o período junino pré-pandemia.

Para ele, as transmissões são uma forma de entreter o público e “matar a saudade”, mas, além disso, servem pra dar renda a várias categorias profissionais do setor de eventos, que estão suspensos desde o início da pandemia da Covid-19.

“Com certeza essas lives são uma forma de gerar renda, ajudar nossos músicos, a equipe que está ‘por trás’. Os patrocinadores nos dão uma força pra que a gente pague as despesas e ajuda as pessoas que estão com a gente, como os produtores, os músicos, técnicos… Tem uma cadeia de profissionais por envolvidos que também merece reconhecimento”, comenta.

Fabiano em sua última live, em junho de 2021 / Imagem: Reprodução/Youtube

Agora, a expectativa dele é para o fim da pandemia e, consequentemente, o retorno dos grandes shows com público. Até 2022, Fabiano espera que essa que essa realidade não seja um sonho tão distante.

“Meu desejo esse ano é que o pessoal não se aglomere, faça sua parte pra que a gente possa sair o mais rápido possível dessa pandemia. Só depende de nós. Vamos aguardar a vacina pra ter o São João de volta”, conclui.

*Sob supervisão de Krys Carneiro


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