Cultura

Quadrilha dos sonhos: a história da mulher que lidera um grupo de jovens baixa renda que aguardam a volta aos pavilhões do São João

Coreógrafa Mércia Barbosa leva a cultura nordestina para crianças em situação de vulnerabilidade social em Bananeiras.




Grupo “Serra de Bananeiras” em uma de suas apresentações / Foto: Arquivo pessoal

Quem diria que um cantar junino viraria sinônimo de saudade. “Se avexe não, que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”. O compositor Accioly Neto não sabia, mas chegaria um ano em que o tão amado festejo de São João se resumiria ao silêncio nas ruas, fogueiras apagadas e pavilhões vazios, sem quadrilha e sem forró. Não apenas um ano, mas dois. Com números alarmantes de casos de Covid-19 na Paraíba, 2021 é o segundo ano sem festas de São João no estado.

Este ano até o feriado foi cancelado através de decreto estadual, como medida para conter a circulação de pessoas e possíveis aglomerações. É por isso que, após 16 anos de tradição, Mércia Barbosa não vai, mais uma vez, rodar o estado com seu grupo de meninos e meninas da quadrilha. A coreógrafa e professora, nascida e criada em Bananeiras, Brejo paraibano, confunde seus 48 anos de vida com o tempo em que a dança passou a fazer parte de sua rotina. Filha de músico, a memória lhe conta que desde os 3 anos de idade saltitava em passos dançantes demais para ser apenas caminhada. 

No canto esquerdo está Mércia, acompanhada pelos alunos durante as viagens de São João / Foto: Arquivo pessoal

Presença marcada nas festas, Mércia sempre estava envolvida nas celebrações de Bananeiras, colocando a dança como seu passaporte para alcançar experiências pessoais e profissionais. Em 2003 foi convidada para integrar um projeto cultural da prefeitura da cidade em parceria com o governo da Paraíba. O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) tinha como objetivo atender crianças e adolescentes de baixa renda. 

O projeto oferece atividades esportivas, teatrais, música e dança. E foi nessa última parte que Mércia recebeu o desafio de dar sentido aos dias daqueles jovens através da arte, e assim o fez. Natural de uma família onde a cultura popular sempre foi muito valorizada, a professora decidiu resgatar tradições ancestrais presentes aqui no Nordeste. A ideia era ensinar xote, xaxado, coco de roda, ciranda, boi de reis, várias manifestações da cultura afro-brasileira e, no meio de tudo, a quadrilha. Mas ela queria entender de onde veio cada herança cultural e, para isso, buscou estudar.

Mércia Barbosa é coreógrafa e professora, nascida e criada em Bananeiras, Brejo paraibano. Foto: Mércia Barbosa/Arquivo pessoal

Mércia descobriu, então, que a dança chegou aqui ainda no século 19. Que a herança hoje tida como símbolo do São João nordestino é, na verdade, originária da Europa. Segundo a pesquisadora em folkcomunicação da UFPE, Giselle Gomes, a chegada foi através da família imperial portuguesa. “A quadrilha junina tem origem em Paris, em referência à “quadrille”, uma dança de salão que era composta por quatro casais. Na época, quem dançava era a elite europeia. A quadrilha chegou ao Brasil por volta de 1830, no período da Regência. Com o sucesso, a dança acabou conquistando o povo”, conta a pesquisadora. 

Mas essa quadrilha vinda de solo europeu não é a que dança os nordestinos nos dias atuais. As mudanças se devem às adaptações populares. A classe trabalhadora, que não fazia parte da elite, imitava a dança a seu modo e, assim, o Brasil deu um tom só seu para tradição que hoje faz parte de quase toda festa junina. 

As influências locais fizeram os comandos em francês, aos poucos, serem substituídos pelo português. As quadrilhas chegaram no Brasil pelos grandes centros urbanos, mas como as cortes viajavam o país, o estilo logo chegou às áreas rurais. O chão histórico deixa nítido, então, que apesar de ter essência europeia, a quadrilha presente nos quatro cantos do nordeste é, sobretudo, um extrato da cultura dos povos do interior. 

Mas de acordo com Giselle Gomes, essas mudanças seguem nos tempos atuais, e isso se deve a globalização.“Se as músicas mudam, a quadrilha também mudou. Antes eram mais tradicionais, numa perspectiva mais rural, mais do campo, mais matuta. Mas ela foi se desenvolvendo, do tradicional para o estilizado, do estilizado para o recriado”, explica. 

A realização de um sonho 

Após descobrir de onde a cultura tinha vindo, a coreógrafa Mércia Barbosa decidiu, então, incrementar nos ensaios. As apresentações de quadrilha passaram a ser um dos momentos mais especiais do ano para o grupo de dança liderado por ela. Com a melhora das habilidades, o São João do Brejo paraibano ficou pequeno para os “Serra de Bananeiras”. O grupo se lançou nas aberturas dos festejos juninos de cidades vizinhas até chegar na capital. Ano a ano eram presença marcada na programação pessoense. 

Ao todo, cerca de 40 crianças e adolescentes fazem parte do coletivo de talentos. Com ensaios em três dias da semana nos meses normais, durante o mês de junho o grupo chegava a se reunir todos os dias para garantir que os passos de quadrilha estariam bem compassados. Eram cerca de 12 apresentações ao redor da Paraíba. Os alunos, meninos e meninas de baixa renda, têm no projeto uma oportunidade de desenvolver habilidades artísticas. 

Mas a coreógrafa afirma que sempre acreditou que aquilo poderia mudar a vida deles. “Muitos deles eu conheci com menos de 7 anos de idade. Hoje são jovens adultos, e eu fico feliz em ter acompanhado. Já peguei jovens envolvidos com drogas, que passavam fome. A dança mudou a vida de muita gente”, desabafa Mércia com a voz embargada em meio a emoção.

Noivos Teresa e Luciano durante os preparativos da quadrilha / Foto: Arquivo Pessoal

E essa mudança, por vezes, ultrapassa as questões socioeconômicas. Como no caso dos jovens Teresa Fabrynne e Luciano Junior. Eles fazem parte dos que começaram a dançar na infância. Teresa, não por acaso, é filha de Mércia e carrega no sangue as heranças de amor pelo São João. O casal passou anos  nutrindo uma amizade enquanto trocavam passos estrelando como os noivos da quadrilha. Mas o afeto cultivado desde cedo deu lugar a um romance de juventude, e a ficção popular virou realidade, quando em 2019 se casaram na igreja e no cartório central de Bananeiras.

“De repente eles se apaixonaram e ficaram juntos, mas para mim foi uma surpresa, passei muito tempo acreditando que era apenas ficção”, conta a mãe de Teresa em tom de descontração.

Registro da ficção que virou realidade / Foto: Arquivo pessoal

Para Mércia, os relatos de vida pessoal se confundem com os de professora de dança em tempo integral, e quadrilheira por amor dos tempos juninos. Sempre que questionada sobre a importância do trabalho desenvolvido com os “Serra de Bananeiras” o tom é de cuidado. Um olhar carinhoso com a vida dos jovens que escolheu impactar através da multiplicidade de arte espalhada ao longo do ano. 

Na quadrilha, a liderança feminina de Mércia, sempre com firmeza e disciplina, chama atenção de quem normalizou achar que só haveria espaço para puxadores homens no São João. Mas de acordo com a pesquisadora Giselle Gomes, quem se surpreende pouco entende de quadrilha. A tradição é, acima de tudo, um respeito pela coletividade.

“A manifestação tornou-se a dança típica da festa, onde diversos casais gritam, se entrelaçam entre fitas e mãos. Entretanto, os integrantes desse grupo utilizam a dança não só como diversão, mas sim como um espaço de lutas, de resistência, de quebra de preconceitos. A maioria das quadrilhas é liderada por coletivos e o interessante é a equidade de gênero nesses coletivos, o que indica a maturidade das quadrilhas juninas”, descreve a estudiosa. 

O medo de um possível fim

O projeto “Serra de Bananeiras” fazia parte de uma programação para manter a juventude em atividades durante o horário oposto às aulas escolares. Desde o início da pandemia, Mércia não consegue realizar as atividades com os alunos de modo presencial, mas as reuniões para dançar têm feito muita falta, principalmente durante o período junino “eles me chamam de tia e dizem que estão com saudades, dizem que precisam que as aulas voltem logo”, relata. Segundo ela, são conversas assim que a fazem superar as dificuldades causadas pela pandemia. 

Vacinada com as duas doses contra Covid-19, a professora conta que chegou a cogitar a possibilidade de realizar alguma atividade este ano. Mas afirma que percebeu que não seria certo, e o mais prudente a fazer é esperar até que a crise sanitária passe para retornar às atividades tradicionais na cidade. “Durante a pandemia tive um sentimento de tristeza, de perda por estarmos parados nos nossos encontros. Mas com sabor de esperança, de renovação. Para que eu faça isso com mais força, mais vigor pela dança depois que tudo isso passar”.

Passada a pandemia, o vínculo com a prefeitura não existirá mais. O projeto de Mércia vai seguir agora rumos independentes, e deve reduzir a quantidade de alunos para conseguir se manter com recursos próprios, mas o objetivo é recomeçar para voltar a crescer. 

Apesar do momento de crise, o São João de 2021 não será de silêncio e calmaria na casa de Mércia. Com três netos pequenos, a professora gasta os dias passando para os mais novos a importância das heranças populares. “A quadrilha representa para mim ter a cultura do Nordeste sempre viva. É uma tradição antiga que precisa ser alimentada. Os antigos dançavam muito, mas os jovens não conheciam muito. sinto que é meu dever ensinar”, reafirma mércia. Junto com as outras danças, a quadrilha é passada de geração em geração com a intenção de manter latente uma manifestação que mudou a vida dela e de tantas crianças na cidade de Bananeiras.


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