Cultura

Os véus do poder

Comemorando 10 anos, a Usina Cultural Energisa abre o projeto ’10 Anos – 10 Exposições’ com a mostra ‘Memórias do Olhar’, de Raul Córdula.



Fotos: Divulgação
Fotos: Divulgação
Memórias do Olhar reúne várias fases da trajetória de Córdula

Para artistas como Raul Córdula, que surgiram no auge da Ditadura Militar e viram sua obra ser desfigurada pela censura, a memória é mais que uma mera fonte de inspiração. "Não tenho visto motivações tão interessantes quanto a memória em meu trabalho porque eu acho que o meu passado é mais rico que o meu presente", declara o paraibano, que abre hoje em João Pessoa a exposição Memórias do Olhar.

Em cartaz até 14 de abril, a mostra individual inaugura o projeto ’10 Anos – 10 Exposições’, que comemora a primeira década da Usina Cultural Energisa e, até o ano que vem, realizará dez exposições de artistas que participaram da história do espaço instalado no bairro da Torre.

Coletânea com séries que fazem um retrospecto dos 50 anos de carreira que Córdula celebra desde o ano passado, Memórias do Olhar reúne várias fases da trajetória de um artista que segue militando politicamente em uma época na qual o heroísmo parece estar fora de moda.

"Antigamente havia um outro sentido para se fazer arte. Os artistas usavam seu trabalho como veículo de comunicação para questões políticas. Hoje vivemos uma liberdade. Essa coisa meio heroica e meio romântica não tem a força e a importância que tinha na minha época", reflete Córdula, que incluiu na mostra obras famosas como a instalação ‘Olhe onde pisa’, que foi censurada nos anos 1970.

A instalação, projetada para a galeria da Fundação Cultural do Estado da Paraíba (Funcep, atual Funesc), é composta por uma sequência da frase de alerta escrita no chão. Ela não foi exibida, na época, porque a Secretaria de Educação e Cultura julgou que oferecia perigo aos visitantes.

Segundo Raul Córdula, a abertura da exposição, que coincide com o início dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, é uma oportunidade de, simbolicamente, "levantar os véus que foram encobertos pelo poder".

"Para mim, é importante uma expressão como esta", diz ele. "É preciso mostrar que certos fatos da história aconteceram e algumas pessoas não ficaram de braços cruzados. Não quero dizer que minha arte resolveu nada, mas ajudou", opina o artista, que afirma esperar que a Usina Cultural Energisa realize um trabalho de arte e educação para levar estudantes da rede de ensino para o espaço.

"A juventude de hoje é alheia à política porque não é motivada, não é colocada a par. É preciso estar sempre em alerta. Tem sempre algum oportunista querendo o poder", conclui Córdula, atento às incongruências do país onde vive.


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