Cultura

'Me chame pelo seu nome': apesar de romance interessante, apatia impede maior envolvimento do público

Longa tem seus momentos de triunfo, mas apatia e monotonia podem atrapalhar envolvimento do espectador.




Me chame pelo seu nome crítica

Timothée Chalamet e Armie Hammer em cena de Me chame pelo seu nome, de Luca Guadagnino.

RESENHA DA REDAÇÃOME CHAME PELO SEU NOME (Itália/França/Brasil/EUA, 2017, 132 min.)
Direção: Luca Guadagnino
Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar
★★★☆☆

 

“O que vocês fazem quando estão aqui?”
“Esperamos o verão acabar”.

A monotonia que o jovem Elio (Timothée Chalamet) sente ao viver com os pais numa pequena cidade do norte da Itália corre um risco real de ser transmitida aos espectadores de Me chame pelo seu nome (Call me by your name, 2017)*. Embora seja um bom filme, sofre com uma apatia tão constante quanto a mosca que, insistente, aparece e reaparece em cena para relembrar os desejos inquietantes dos protagonistas.

A trama começa quando Oliver (Armie Hammer), um estudante de graduação, aparece na casa de Elio para passar um período de seis semanas com o pai do adolescente, o professor Perlman (Michael Stuhlbarg), buscando aperfeiçoar um trabalho acadêmico. A partir daí, um romance entre o Elio e Oliver, que é vários anos mais velho, começa lentamente a se desenvolver.

Oliver é idealizado pelo adolescente desde o momento em que se conhecem. Idealizado fisicamente – o que é sugerido logo no início do longa, quando esculturas do período grego, famosas pelas perfeições de seus contornos, são exibidas em sequência ao longo dos créditos – e intelectualmente. Cena sintomática é a que o visitante, logo após de ter chegado à casa, corrige o pai de Elio, seu mentor: a ordem que antes existia é perturbada, e Oliver torna-se a figura masculina de proeminência no local.

me chame pelo seu nome crítica

Chalamet e Hammer em Me chame pelo seu nome: certa presunção pode atrapalhar envolvimento do espectador.

A relação entre os dois homens é bem construída pelo roteiro assinado por James Ivory – e, nesse quesito, Me chame pelo seu nome consegue alcançar o patamar de outros filmes com temática LGBT aclamados por público e crítica, como Moonlight – sob a luz do luar (2016), Carol (2015) e Weekend (2012). Chalamet se destaca em sua jornada de amadurecimento e descoberta e empresta a Elio doses iguais de inocência e provocação.

Entretanto, falta à abordagem de Luca Guadagnino uma certa paixão que caracteriza filmes como Moonlight – embora belo e bem construído, Me chame pelo seu nome conta sua história de forma apática, como que observado de longe, e sem muito envolvimento, o romance que se desenrola.

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O que é, no mínimo, contraditório, já que o filme é construído através do olhar de Elio. Uma certa presunção intelectual pode contribuir para essa barreira que parece ser construída entre o casal e o público: muitas das discussões das personagens envolvem temas irritantemente aristocráticos, como um debate sobre Bach e Busoni, alusões constantes a filósofos ou obras como o Heptamerão, etc. Em determinado momento, é quase impossível não revirar os olhos.

O filme sem dúvida tem suas virtudes, mas elas são postas em cheque com a relutância do diretor em se entregar. Elio e Oliver estão sem dúvida apaixonados – mas o olhar que o filme lança sobre seus personagens parece ser um tanto menos interessado.

* O jornalista assistiu ao filme a convite da rede Cinépolis no Manaíra Shopping, em João Pessoa.


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