Cultura

Artista paraibano reativa antiga usina em PE e a transforma em complexo cultural

José Rufino explica como foi reativar uma antiga usina no interior pernambucano para transformá-la num complexo artístico.



Fotos divulgação
Fotos divulgação
Hangar da antiga usiba foi transformado em atelier e galeria de arte

O artista plástico José Rufino carrega em suas obras traços e objetos que remetem ao campo. Nascido em Areia, no Brejo paraibano, presenciou de perto o cotidiano de trabalhadores rurais e, como num ato de ativismo, trata disso em suas peças. 

Este foi um dos motivos pelos quais Rufino foi convidado em julho deste ano para ingressar num projeto ambicioso na cidade de Água Preta (PE), a 246 km de João Pessoa. O plano, que em passos rápidos vem se concretizando, é reativar a antiga Usina Santa Terezinha e transformá-la num complexo artístico. O que Inhotim é para Minas Gerais, este novo centro cultural quer se tornar para Pernambuco e Alagoas. 

A antiga usina de açúcar, inaugurada em 1929 e que já foi considerada uma das três maiores em capacidade de produção do Brasil, será transformada em Jardim Botânico, galeria de arte e atelier. A princípio, a participação de Rufino era limitada à exposições pontuais, mas não demorou muito até o cenário mudar para algo permanente. O hangar da usina foi batizado com o nome do paraibano e já abriga uma instalação artística do próprio, visitada por cerca de 2 mil pessoas em poucos meses.
O prédio pertence a Ricardo Pessoa de Queiroz, neto do antigo proprietário da usina. “Agora ele está completamente tomado pela ideia de transformar socialmente a região, mudar o IDH dos municípios próximos”, disse Rufino. Isso já acontece através de trabalhos realizados com crianças de escolas da região e ex-operários do cultivo da cana-de-açúcar.

“Começamos as atividades em julho. Tivemos algumas reuniões com diretores de escolas, traçamos metas e já comecei o trabalho com materiais que estavam no antigo prédio”. Sucata, papéis e documentos descartados. O que era uma oficina mecânica, se tornou numa oficina para artista e público. Todo o processo é feito de forma didática em conversas sobre história da arte e arte contemporânea com a população.

Algumas das obras feitas no atelier vão estampar páginas de um livro idealizado pelo artista. “Juntei ex-operários e fiz um trabalho de documentação, carimbando as mãos deles no papel e escrevendo um pouco sobre cada um”, relembra.

A extensa área abriga outras ramificações do trabalho de Rufino, como um espaço dedicado às gravuras simétricas, buscando influências analíticas do teste de Roschach, e a instalação Ligas. Para esta última, velhos facões de corte da cana foram utilizados.

“Por ser filho de dois comunistas muito ativos na época da Liga das Camponesas, tive que resgatar a temática. Esse trabalho é uma reinvenção, uma outra categoria de Ligas. Essa discussão ativa o lado político dos moradores da região”.

Os instrumentos foram doados pelos próprios trabalhadores e soldados em diferentes combinações, “arrumados na parede de forma que relembram o maculelê”.

PLANOS FUTUROS

Em novembro foi realizado no engenho o Festival Arte da Usina – Safra 2015, a primeira edição do evento que ser tornará anual. Mais de 20 artistas se juntaram e abraçaram a cultura junto com a comunidade. “Nossa ideia é trabalhar com pessoas do local. Oferecemos oficinas de fotografia, dança, artesanato para crianças. Contratamos recentemente dois estagiários selecionados por escolas da região”.

Há pouco tempo foi fundada a Associação Socioambiental e Cultural Jacuípe, que tem o paraibano como sócio. Porém, as atividades desengatam em 2016 e o calendário já começa a ser montado visando o envolvimento com comunidades de pequenas dos arredores. O cineasta paraibano Torquato Joel ministra, por exemplo, entre 16 e 23 deste mês, uma oficina de cinema para adultos da região, além de uma sessão pública.

“Este complexo cultural, localizado num ambiente rural, gera outro tipo de experiência artística. A viagem ao campo, distanciamento geográfico é importante para essa sensação que oxigena as ideias e o corpo para coisas novas”. O público terá a chance de conferir parte do acervo no Museu do Estado de Pernambuco, no Recife, já neste novo ano que começa.


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