Cultura

Ana Maria Machado sobe a Serra

Já é oficial: a escritora Ana Maria Machado, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), finalista do Prêmio Jabuti, no ano passado, e vencedora do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon, este ano, será a grande atração do Letras e Luzes na Serra – Festa Literária de Areia. Em entrevista exclusiva ao JORNAL DA PARAÍBA, […]




Já é oficial: a escritora Ana Maria Machado, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), finalista do Prêmio Jabuti, no ano passado, e vencedora do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon, este ano, será a grande atração do Letras e Luzes na Serra – Festa Literária de Areia. Em entrevista exclusiva ao JORNAL DA PARAÍBA, ela confirmou presença no evento e falou sobre questões como o papel da literatura na formação do cidadão, tema da palestra que irá ministrar no próximo sábado, dentro da programação do evento.

Para a escritora, que acaba de lançar um novo livro infantojuvenil, Enquanto o Dia Não Chega (Alfaguara, 184 páginas, R$ 39,90), a promoção de festas literárias como a de Areia é um fenômeno positivo para o mercado editorial: "Parece-me que a multiplicação de feiras literárias é um sinal de que esse tipo de evento entrou na moda e isso implica uma certa valorização do livro, ainda que não necessariamente da literatura. Chama a atenção para a importância da escrita, da leitura, da palavra impressa. Obriga a mídia a falar em livros, assunto que normalmente ela evita."

Leitora contumaz ("de tudo o que me cai nas mãos e me atrai quando passo os olhos inicialmente"), Ana Maria Machado também atenta para o papel deste tipo de evento na conquista de leitores adultos ainda na infância: "Crianças acostumadas a ler e conviver com os livros forem crescendo, se tornando leitores, professores, formuladores de políticas de leitura."

Não à toa, o Brasil já é o 9ª mercado livreiro do mundo graças ao governo federal, também um dos maiores compradores de livros no contexto global. Apesar dos esforços, o hábito de leitura no país caiu de 4,7 livros por ano, em 2007, para 4 livros no mesmo período, em 2011, segundo dados do Instituto Pró-Livro.

Ana Maria Machado aponta ainda outros impasses: "Um dos problemas que vivemos ainda, nessa área, é o fato de que só agora a primeira geração majoritariamente alfabetizada (e nem sempre de modo pleno) está chegando aos postos de influencia e decisão. Isso leva tempo. Mas sou otimista, pois acredito na força da palavra."

Força e crença que mantêm a escritora carioca, que completa 72 anos na véspera do Natal, em um ritmo de produção incansável: depois de vender mais de 20 milhões de livros ao longo da carreira e se incursionar novamente pela literatura adulta com Infâmia (2011), a autora voltou à literatura infantojuvenil com uma novela que se passa no século 17, entre aldeias portuguesas e savanas africanas.

"Nunca me afastei da literatura infantojuvenil, então não há retorno algum", corrige. "Desde meu primeiro livro (para adultos, aliás, em 1976) até hoje, sempre escrevi sem me preocupar com idade do leitor, atingindo ora um público, ora outro. Não há nenhuma razão especial para isso, depende de como vêm as ideias e como elas vão se organizando em termos de linguagem e estrutura narrativa, à medida que vou escrevendo."

No ano passado, Infâmia foi centro de uma polêmica que envolveu uma nota zero dada por um jurado durante a apuração do Prêmio Jabuti. É uma das tantas polêmicas que Ana Maria Machado reconhece ter provocado com o livro, notícias que ela prefere não comentar, mudando ligeiramente de assunto. "Acho que estas notícias que saíram esta semana, sobre uma verdadeira fábrica de dossiês forjados com acusações a políticos, sobretudo em período pré-eleitoral, só confirmam o que o livro já dizia desde que foi publicado: esse tipo de infâmia vem caracterizando a História do Brasil há muito tempo e não se faz nada para acabar com ela."

A apenas um mês de deixar a presidência da ABL, a sexta ocupante da cadeira 1 da instituição faz um balanço do período à frente da diretoria: "Eu não diria que a participação do Brasil na Feira de Frankfurt tenha sido especialmente significativa em minha gestão na ABL, embora reconheça sua importância para a divulgação do livro brasileiro em geral. Mas ao deixar agora a presidência, acho que esse período foi muito mais marcado pelos projetos sociais que pudemos desenvolver com as comunidades recém pacificadas no Rio, apoiando bibliotecas populares e formação de mão de obra ligada a livros e leitura."

Ciente de que, antes do livro e do leitor, o autor brasileiro também passa por perrengues, Ana Maria Machado encerra a conversa comentando a situação do escritor em regiões periféricas do mercado editorial, com o Nordeste que ela visita esta semana. Que conselho daria, por exemplo, para os escritores que sentem dificuldade em publicar por grandes editoras? "Desculpe, mas conselho é coisa que não dou a ninguém, quem sou eu para aconselhar?", interrompe, de forma cortês. "Um palpite que dou a todos os que escrevem, em geral, sem distinção, é que procurem concursos, pois no Brasil há vários. Muitos de nossos grandes autores se revelaram a partir de concursos literários: Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Cristóvão Tezza, Guimarães Rosa… Hoje em dia também há algo que facilita muito: a internet e a multiplicidade de blogs. Não costumo reparar onde foi escrito o que leio. Para mim, é algo que não tem a menor importância."


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