Cultura

'Cinquenta tons de liberdade', de fato: público finalmente se vê livre de Anastasia e Christian Grey

Filme é um resumo da falta de inspiração, do machismo e da tolice presentes em toda a série.




Cinquenta tons mais escuros crítica

Dakota Johnson e Jamie Dornan em Cinquenta tons de liberdade, que estreia nesta quinta-feira.

RESENHA DA REDAÇÃOCINQUENTA TONS DE LIBERDADE  (EUA, 2018, 105 min.)
Direção: James Foley
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Kim Basinger, Arielle Kebbel, Max Martini
★☆☆☆☆

 

A franquia Cinquenta Tons certamente tem seu público – do contrário, os dois primeiros filmes não teriam arrecadado, juntos, quase 1 bilhão de dólares em bilheteria em todo mundo, sem falar nas milhões de cópias vendidas dos livros escritos por E. L. James. Mas, desconsiderando os fãs mais fervorosos, mesmo aqueles que acompanham a história de Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson) concordam que, na literatura ou no cinema, Cinquenta Tons não tem muito a acrescentar.

Todos podem, então, respirar aliviados: estreia nesta quinta-feira (8) nos cinemas da Paraíba Cinquenta tons de liberdade (Fifty shades freed, 2018)*, o aguardado encerramento da trilogia. Considerando o padrão estabelecido pelos antecessores – e embora o episódio final seja o menos pior dos três -, é melhor ir para o cinema com as expectativas baixas.

O filme dirigido por James Foley começa com o sonho de qualquer adolescente de 13 anos: casar-se com um homem lindo e rico na igreja e partir em lua de mel para Paris e praias paradisíacas. No meio tempo, muitos gastos com champanhes, comidas e carros; as cenas de sexo, que viraram marca registrada da série, são repetitivas, previsíveis e entediantes. Em determinado momento o espectador deve começar a se perguntar se é possível atingir um patamar ainda maior de clichês e breguice.

>>> Veja todos os filmes que estão em cartaz nos cinemas paraibanos

Esse é o primeiro terço de Cinquenta tons de liberdade: uma rememoração sem fim de como Christian Grey é rico e bonito e pode oferecer de tudo para sua esposa (além, claro, de ser controlador, mimado e obsessivo). Todo o primeiro ato é preenchido com sequências genéricas e de uma felicidade superficial e monótona que parecem ter saído diretamente de comerciais. Agora que a franquia finalmente chegou ao fim, talvez os produtores possam alcançar novo sucesso dedicando-se à publicidade.

cinquenta tons de liberdade crítica

Johnson e Dornam em cena de Cinquenta tons de liberdade.

Além da felicidade do casal, outras tramas sem sentido alongam o sofrimento do espectador, como a que gira ao redor da arquiteta Gia Matteo (Arielle Kebbel) – personagem cuja única função no filme é provocar ciúmes em Anastasia e ser suspeita de ter um caso com Elliot Grey (Luke Grimes), irmão de Christian. Como se Cinquenta Tons não precisasse de mais razões para ser misógino e tolo, a audiência é constantemente relembrada dos enormes peitos de Gia.

O vilão do filme, o antigo chefe de Anastasia, Jack Hyde (Eric Johnson), é praticamente um clichê ambulante digno dos clássicos da Sessão da Tarde: ele até tem uma bomba com contagem regressiva (outro fio narrativo que não vai para lugar algum é o roubo dos documentos da empresa de Grey). Os personagens constantemente se questionam porque diabos Hyde estaria disposto a perseguir o casal Grey tão ardentemente, como se o próprio roteiro, assinado por Niall Leonard, reconhecesse que tudo aquilo não faz sentido nenhum. No final do filme, quando as motivações para os planos maléficos de Hyde são reveladas, boa parte do público já corre o risco de estar dormindo – quem ainda estiver assistindo tem a chance de revirar os olhos.

Uma das poucas coisas que ainda podem ser elogiadas no longa é a atuação de Dakota Johnson. Ela consegue conferir um tanto de credibilidade para Anastasia e provocar certa empatia; os conflitos pessoais pelos quais a personagem passa após o paraíso inicial do casamento emprestam ao filme o pouco de veracidade que falta ao restante da franquia.

Cinquenta tons de liberdade é um resumo da falta de inspiração, do machismo e da tolice presentes em toda a série. O filme, entretanto, é algo a ser celebrado: depois dele, não vem mais nenhum.

* O jornalista assistiu ao filme a convite da rede Cinépolis, no Cinépolis Macro XE Manaíra Shopping, em João Pessoa.


Você sabia que o Jornal da Paraíba está no Facebook, Instagram, Youtube e Twitter? Siga-nos por lá. Encontrou algum erro? Entre em contato.