Cultura

'A forma da água' é fábula de amor que dá voz a oprimidos e silenciados

Del Toro cria uma história que ressoa como um grito em favor dos estranhos.




a forma da água crítica

Sally Hawkins e Doug Jones em A Forma da Água.

RESENHA DA REDAÇÃOA FORMA DA ÁGUA (EUA, 2017, 123 min.)
Direção: Guillermo del Toro
Elenco: Sally Hawkins, Richard Jenkins, Doug Jones, Octavia Spencer
★★★★★

 

Já virou clichê a máxima de que o amor supera todas as dificuldades. Mas é exatamente essa a ideia central de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017), fábula de Guillermo del Toro que estreia nos cinemas da Paraíba nesta quinta-feira (1º). E, por mais que a premissa possa ser um clichê, o filme que o diretor mexicano entrega certamente não o é.

Por debaixo do improvável romance entre uma mulher solitária e uma criatura aquática, Del Toro cria uma história que ressoa como um grito em favor dos estranhos e dos excluídos. Sally Hawkins interpreta Elisa Esposito, uma mulher muda que trabalha no setor de limpeza de uma unidade militar americana durante os anos 1960, em plena Guerra Fria. Seu cotidiano monótono – reforçado pelas repetidas sequências em que a mulher acorda para trabalhar, prepara o café, masturba-se – é interrompido quando uma criatura (Doug Jones) é capturada na América do Sul pelo coronel Richard Strickland (Michael Shannon) e levada para a unidade militar para ser estudada.

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Sally Hawkins e Octavia Spencer em A forma da água.

As semelhanças entre Elisa e o Homem Anfíbio vão se tornando claras à medida que a relação entre eles se desenvolve. Ambos vivem existências solitárias; ambos estão presos na unidade militar (a ‘prisão’ de Elisa é sugerida com recorrência sempre que ela bate o ponto para trabalhar); ambos têm uma relação essencial com a água: Elisa, quando bebê, foi abandonada pelos pais e ficou muda após sofrer uma lesão nas cordas vocais, sendo encontrada em um rio.

É na incapacidade de falar que reside a maior semelhança entre Elisa e seu par aquático; a necessidade de se comunicar por outros meios que não a fala – por sinais, pela música (dentre os muitos sucessos do filme, a trilha sonora composta por Alexandre Desplat se destaca), por desenhos – é justamente o que possibilita o romance da história e torna verossímil a estranha relação. As barreiras que impedem o diálogo e a empatia não se sustentam quando eu me enxergo no outro – seja o outro um anfíbio ou o negro, o imigrante – e encontro nele um pouco de mim.

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O literal silenciamento a que o par está sujeito ressoa em sentido mais amplo no filme. Zelda (Octavia Spencer), que também trabalha na unidade militar, sofre com o marido sempre ausente e apático; e Giles (Richard Jenkins), que mora no mesmo apartamento da protagonista, acumula uma série de perdas profissionais e chega a ser expulso de um restaurante quando sua homossexualidade é percebida pelo barman – que também impede que um casal negro permaneça no local. Nesse sentido, são todos peixes fora d’água em uma luta constante contra uma sociedade que os renega e oprime.

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Cena de A forma da água.

Tal figura opressora é encarnada pelo coronel Strickland. Em sua busca egoísta por poder e ascensão na carreira, Strickland incorpora tudo o que caracteriza o estereótipo do ‘homem branco heterossexual’: uma família perfeita da qual ele esconde suas hipocrisias; uma atitude predatória e abusiva para com os colegas de trabalho e as mulheres; o desrespeito e desprezo por aqueles que considera inferiores. Não é à toa que seu maior feito durante o filme é a compra de um carro, símbolo superior de poder do macho alfa.

A missão do quarteto dos excluídos e o amor entre Elisa e a criatura parece, à primeira vista, inútil e descabida. Mas não é por acaso Elisa mora em cima de um cinema, onde o impossível pode ocorrer e onde os silenciados podem ganhar sua voz. O cinema exibe A História de Rute, filme de 1960 dirigido por Henry Koster que é continuamente referenciado em A Forma da Água. A história bíblica de Rute, uma estrangeira em Israel, fala do amor que é redentor:  Rute é salva pelo sentimento que nutre por Noemi, sua sogra, e pelo israelita Boaz.

“Não instes comigo para te abandonar… pois, aonde quer que fores, irei eu”, diz Rute no texto bíblico, com palavras que soam poderosas ao final da exibição de A Forma da Água. Conquanto os esquecidos permaneçam juntos, não há força que os derrube.


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