Vida Urbana

Pacientes fazem peregrinação por atendimento no interior da Paraíba

Sem serviço de saúde especializado na cidade de origem, usuários recorrem a outros municípios. Patos é referência.




Por falta de atendimento especializado na rede pública em muitos municípios do interior da Paraíba, pacientes chegam a peregrinar quilômetros para receber o socorro médico especializado que só existe em cidades como Patos e Campina Grande. Após passar horas na estrada, ao chegar às unidades hospitalares os usuários dão de cara, muitas vezes, com emergências superlotadas e longas filas. Isso quando não perdem a vida a caminho do hospital.

Em Princesa Isabel, no Sertão, por exemplo, não existe pronto-socorro de alta complexidade para vítimas de acidentes de trânsito, e os pacientes são encaminhados para Patos, a 145 quilômetros de distância.

Um caminho de dor, como contou a comerciante Márcia Pereira, de 45 anos, moradora de Princesa Isabel, e que já teve que recorrer duas vezes ao Hospital Regional de Patos, quando seu filho sofreu acidentes de moto, em 2014 e em 2015. “Consegui uma ambulância do município para levar meu filho para Patos e receber atendimento adequado para não ficar com sequelas, mas tivemos que percorrer 145 quilômetros, que dá umas duas horas e meia de viagem vendo meu filho sofrer de tanta dor”, lamentou.

No entanto, além de adiar o atendimento que deveria ser emergencial, o fato de muitas cidades não contarem com atendimento especializado resulta, muitas vezes em hospitais superlotados, por terem que atender à demanda de várias cidades e outros Estados. O Hospital Regional de Patos Deputado Janduhy Carneiro (HRP) é referenciado para 59 municípios paraibanos, mas chega a receber pacientes de mais de 80 cidades, além dos estados de Rio Grande do Norte, Pernambuco e até mesmo do Ceará. Segundo balanço divulgado pela unidade, em janeiro deste ano, o Regional de Patos recebeu pacientes de 87 municípios, mas apenas 56% deles eram do próprio município.

De acordo com a diretora da unidade, Hígia Lucena, o fato de muitos pacientes de outras cidades serem destinados à unidade faz com que o hospital tenha dificuldades em oferecer atendimento adequado.

 “Às vezes não temos como oferecer um atendimento humanizado. Não é fácil destinar equipe e cuidados a uma demanda de pacientes tão alta, de mais de 200 pacientes por dia. Isso acaba gerando superlotação e o que vemos por aí é que os demais municípios não têm cumprido com sua responsabilidade, carregando os outros”, disse.

O gerente regional de Saúde de Patos, José Leudo Farias, informou que como os hospitais atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não podem negar atendimento a municípios que não possuem pactuação, mesmo que isso acarrete superlotação em algumas situações.

A maior parte dos atendimentos realizados em Patos no último mês foi relacionado a urgência, 2.033 do total de 6.490 procedimentos; em seguida vem vítimas de acidente de trânsito (moto), com 57. O número de internações em janeiro deste ano foi de 632 pacientes.

Pacientes também vão para Campina Grande

Assim como Patos, Campina Grande também recebe uma grande quantidade de pacientes de outros municípios e Estados, e a situação não é diferente. Somente o Hospital de Trauma chega a receber pacientes de até 331 municípios, segundo levantamento feito pela unidade. São 203 municípios da Paraíba, além de cidades do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará, o que resulta em uma média de 250 atendimentos diários. No entanto, vários desses municípios não são pactuados (não repassam os recursos para esses atendimentos), e além das despesas médico-hospitalares ficarem a cargo da Paraíba, a demanda gera uma superlotação.

Para o diretor do Trauma, Geraldo Medeiros, por oferecer atendimento especializado em plantões e de média e alta complexidade, a unidade termina sendo penalizada pela resolutividade. “Com a crise na saúde no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, a demanda tende a aumentar. O que estamos fazendo para tentar amenizar isso é uma triagem mais rigorosa, então pacientes que não são de urgência e emergência são reencaminhados para as suas cidades. Eles são acolhidos, passam pela triagem com as enfermeiras que veem a necessidade de atendimento”, disse.

No entanto, conforme o diretor, a maior parcela dos pacientes que chegam ao hospital, oriundos de outras cidades e até de outros Estados, precisam de atendimento de urgência ou emergência, e não há como redirecioná-los para outros serviços. “Principalmente nos finais de semana e feriados, recebemos grande demanda de doentes crônicos, cardiopatas, pacientes oncológicos e com doenças infectocontagiosas que não têm atendimento especializado nas suas cidades”, informou.
 


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