Vida Urbana


Distúrbios alimentares: busca por padrão coloca a vida em risco

Jovem relata luta para se livrar da doença, tema de filme lançado recentemente.




Divulgação
Divulgação
Os distúrbios alimentares voltam à cena na produção 'O Mínimo Para Viver', da Netflix

“Eu aceitei que precisava parar quando fui vomitar e não saiu nada além de sangue”. É assim que a paraibana Beatriz (nome fictício), de 25 anos, narra o momento em que percebeu que sua doença, a bulimia, tinha chegado ao limite. A jovem é apenas uma das milhares de pessoas em todo o mundo diagnosticadas todos os anos com distúrbios alimentares, tema que voltou à tona recentemente após o lançamento do filme 'O Mínimo Para Viver', da Netflix.

A produção foi alvo de controvérsias, sendo considerada um 'gatilho' por supostamente glamurizar os distúrbios alimentares e incentivar outros jovens psicologicamente frágeis a se inspirarem nos personagens retratados pela obra. Beatriz conta que há alguns anos ela foi uma destas adolescentes que descobriu a bulimia por meio da mídia.

"A Globo estreou uma novela chamada 'Páginas da Vida' em que havia uma personagem com bulimia e a mãe insistia que ela precisava emagrecer mais para ser bailarina, isso apesar de a menina ser magra", conta. "Já tinha ouvido falar sobre a 'técnica', então fui tentar e os resultados imediatos chegaram”, completa ela, que acabou ficando abaixo do peso.

De acordo com Beatriz, um dos principais motivos para o desenvolvimento de seu quadro foi a não aceitação do próprio corpo. “As identidades individuais vão sendo esquecidas em nome de um padrão de beleza estipulado na mídia. Na época em que tive bulimia nervosa, eu era uma pré-adolescente e ainda estava tentando me descobrir assim como qualquer outra pessoa da minha idade”.

A jovem explica que, pela doença mexer com o psicológico, a pessoa não consegue se enxergar magra, por mais que esteja. “Eu sabia que não estava gorda, mas qualquer gordurinha a mais me irritava. Então nunca me sentia completamente feliz”, ressalta.

Vencendo o problema

Para conseguir vencer o distúrbio, a ajuda da família é fundamental, foi o que Beatriz aprendeu. “Minha prima percebeu o que eu fazia, e contou à minha mãe. Ela conversou bastante comigo e, por incrível que pareça, eu consegui parar sem precisar de ajuda psicológica”, menciona.

Embora Beatriz tenha obtido melhora em seu quadro, nem todos os casos de distúrbios alimentares conseguem ser solucionados sem a ajuda de apoio psicológico: quem explica é a psicóloga Sylvia Rojas. “É importante entender que esses transtornos são sérios, as pessoas não estão nessa porque decidem estar", comenta ela em relação ao processo de tratamento.

"Uma pessoa com anorexia se vê gorda, não importa o que você diga a ela. Uma pessoa com bulimia não consegue controlar a culpa que sente ao comer, nem conhece outra forma de compensar o que está sentido que não seja comendo. É importante mostrar ao indivíduo a importância do tratamento e estar ao lado dela durante todo o processo”.

Quadro afeta mais mulheres

Conforme Sylvia, a doença distorce a auto imagem de suas portadoras, fazendo-as buscar  um ideal de magreza inalcançável. A psicóloga frisa que os transtornos alimentares como o de Beatriz e o da personagem do filme não são exclusivos de um determinado grupo da sociedade, apesar de ressaltar que o grupo mais vulnerável é o das mulheres jovens.

“O indivíduo passa a utilizar o alimento não mais com o propósito de saciar a fome, dar energia ou fornecer nutrientes necessários para o corpo”, diz, acrescentando que dentre os principais motivos que despertam o transtorno estão “a predisposição genética, as condições psicológicas em que se encontra o indivíduo, o meio social em que ele vive e os padrões da sociedade na qual está inserido".

Casos mais graves em que o paciente usa métodos arriscados para continuar perdendo peso e colocar em xeque a integridade física não são incomuns. Beatriz ressalta que por inúmeras vezes se viu extrapolando os limites e, inclusive, orgulhando-se de feitos relacionados à doença. “Assim como no filme, eu adorava o fato de conseguir fechar a mão na circunferência do meu braço”, lembra.

Produção polêmica

Protagonizado por Lily Collins, o filme 'O Mínimo Para Viver' conta a história da jovem Ellen que lida com a anorexia. Sem perspectivas de se livrar da doença e ter uma vida feliz e saudável, ela passa os dias sem esperança até que encontra um médico (Keanu Reeves) não convencional que a desafia a enfrentar sua condição.

A produção foi bastante criticada por romantizar a doença, da qual a protagonista, em várias cenas, se mostra bastante orgulhosa por saber a quantidade de calorias de vários alimentos - desde vagens, até a quantidade de calorias contidos em 1l de soro. De fato, o filme não é tão profundo na hora de mostrar como Ellen chegou a ficar neste estado, mas não tem como explicar. As doenças psicológicas são extreamente pessoais até na hora de seu desenvolvimento.

Porém, ao contrário do que a polêmica mostra, o filme consegue trazer, de maneira sutil, o resultado de quem entra no desafio da inanição. Ao final, Ellen entende os reais males que a anorexia causa em seu corpo em uma epifania causada por um desmaio. O fato do filme não ter um final bem definido também é uma conquista do diretor. Dessa forma ele consegue mostrar que cada pessoa tem uma escolha e pode ter um bom futuro, mas nada está previamente definido.