Vida Urbana


Fórmula da juventude: idosos dividem experiências e revelam como mantêm vida saudável

Apesar da rotina puxada no campo, eles esbanjam disposição e mostram que idade é apenas um número.




Angélica Nunes
Angélica Nunes
Seu Nascimento e Dona Duda mantém uma vida simples na zona rural de Pirpirituba

Uma enxada na mão e um roçado preparado com esperança de fartura de produtos para levar à mesa. É assim que me recebe o produtor rural Manoel João do Nascimento, de 88 anos, em sua pequena propriedade. Ele mora com a esposa, Maria Balbino do Nascimento, mais conhecida por Dona Duda, de 89 anos, na zona rural de Pirpirituba, no Curimataú da Paraíba. “No dia em que eu parar, eu morro, isso é minha vida”, desabafa Seu Nascimento, como é conhecido na região, enquanto exibe como um trunfo as mãos calejadas, ásperas e tomadas por um vitiligo tardio, adquirido após anos de trabalho sob o sol.

O agricultor lida com a terra desde os oito anos, quando auxiliava o pai na roça, e chora ao pensar que o corpo fragilizado pode a qualquer momento não corresponder ao desejo de continuar em atividade. “Nascemo e se criemo (sic) na lavoura e é assim que quero morrer”, sentencia, mesmo a contragosto da mulher, que ainda pede que ele diminua o ritmo. 

Seu Nascimento nasceu Manoel João Santana no dia 25 de dezembro de 1929. A mãe encafifada que o sobrenome já estava “batido na cidade”, na verdade uma pequena vila de Guarabira, resolveu por registrá-lo Nascimento. Dessa nova ‘linhagem’ nasceu o patriarca de uma família de 17 filhos (apenas 10 vivos), 23 netos e 17 bisnetos, frutos do casamento com Dona Duda, que completa este ano 65 anos.

O casal está inserido numa estatística apertada do Censo 2010 do IBGE, que aponta que no município de Pirpirituba apenas 1,02% (homens) e 1,69% (mulheres) têm mais de 80 anos. Outro dado de que escapam é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) Longevidade, que é 0,595, medido no mesmo ano, situando esse município na faixa de Desenvolvimento Humano Baixo (IDHM entre 0,500 e 0,599).

Seu Nascimento acredita que a agricultura o mantém vivo e saudável (Foto: Angélica Nunes)

Sem pretensões de traçar o segredo para a longevidade, Seu Nascimento e Dona Duda contam que mantém uma vida regrada, sem extravagâncias, mas com qualidade de vida. A maior parte do que comem vem da terra que o agricultor ainda planta e colhe, apesar da avançada idade. Ele produz banana, laranja, feijão, milho, tudo cultivado sem agrotóxico, seguindo as orientações do neto George Nascimento, técnico extensionista rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural da Paraíba (Emater-PB), além de manter um terreiro cheio de galinhas e ainda criar uma vaca leiteira. “Mas não tomo nada que venha do leite e carne”, completa Dona Duda, como se contasse a fórmula da juventude.

A rotina do casal é simples. Seu Nascimento acorda às 4h da manhã e vai para a roça, enquanto Dona Duda mantém o ofício de costureira. Ela conta com orgulho o fato de ter preparado o enxoval de mais de 70 afilhados. “Tenho o prazer maior do mundo nisso e mesmo com as pernas fracas não deixo de costurar porque é meu passatempo. Cabeça parada nao presta”, comenta.

Fazer apenas o que dá prazer é o que também arrisca Seu Nascimento como segredo para se manter bem. “Meus filhos todos seguiram outra profissão e muito me orgulho porque isso foi graças ao meus esforço. O mais importante é não se preocupar com o que passou, olhar pra frente”, afirma. 

Vida de sacrifícios

A casa sempre movimentada pelas visitas dos familiares satisfaz Seu Nascimento, que se emociona sempre que lembra o esforço que foi para chegarem até ali. Em momentos de muita dificuldade, pelos idos de 1970, ele teve que trabalhar como tropeiro. Viajava 15 dias montado em um cavalo, puxando burros carregados de encomendas para Timbau do Sul (município no litoral sul do Rio Grande do Norte, distante pouco mais de 100 km de Pirpirituba, mas por meio de rodovias estaduais, que não existiam na época). Quase sempre o produto era cachaça. “Aquilo ali é uma desgraça que foi minha alegria, porque com o dinheiro dela consegui comprar minha casa e montar minha horta, mas vi muita gente se desgraçar por causa dela”, relembra.

Apesar da aversão à bebida, seu Nascimento confessa que vez ou outra toma uma ‘bicada’ para encarar o banho matinal na fria região.  

Alegria é remédio

Na feira popular de Pirpirituba, onde Seu Nascimento vende seus produtos e compra outros tantos para complementar a dieta da família, também circulam vários agricultores aposentados como ele. Em meio a pilhas de batata, inhames e macaxeiras, encontramos Severino da Silva, de 82 anos.

Produtor rural aposentado, Seu Severino brinca que virou “locutor recreativo da feira” apenas por diversão. Sem cerimônia com o colega responsável pelo trabalho, ele pega “emprestado” o improvisado microfone, com cabeça de telefone antigo, ligado a uma camioneta carregada de produtos, e faz gozação com todos os que passam pela rua. 

O chapéu, os óculos escuros, uma sobrinha para se proteger do sol e uma garrafinha de água ao lado revelam a preocupação de quem já lidou por décadas com o trabalho no campo. Entre uma gracinha e outra com qualquer um que passa pela quitandas, eu pergunto a Seu Severino qual o segredo para a longevidade. Ele se desdobra em uma gargalhada e pede: “quando descobrir, conta que também quero chegar lá”. 

Seu Severino é só descontração enquanto ajuda um amigo a vender seus produtos na feira (Foto: Angélica Nunes)

 A ciência explica

Apesar de não existir fórmula da juventude, o geriatra Jamerson Carvalho revela que há certos hábitos que podem ser mantidos para atravessar a velhice com saúde e bem estar. O especialista lembra dos segredos dos centenários de Okinawa, arquipélago do Japão em que boa parte dos moradores têm mais de 100 anos, fontes de estudos.

Com base nesta pesquisa, Jamerson Costa delimita dicas para garantir uma vida longeva: fazer exercícios frequentes; manter uma dieta pobres em sal e rica em frutas e vegetais, com muita fibra e antioxidantes; e comer sempre o suficiente para se satisfazer. Além disso, conforme ele, há sempre aquelas vitaminas da moda, mas que são úteis como complementos, como Ômega 3, vitamina D. 

“Quando você supera a barreira de transição de outras causas de morte, como doenças parasitárias, de acidente, seja de homicídios e automobilísticos, por exemplo, a influência da genética pesa muito, mas uma vida com melhor qualidade de vida é fundamental para a longevidade”, conclui.