Vida Urbana

No Dia dos Pais, uma história para lembrar que eles não são (apenas) super-heróis

Sertanejo começou a trabalhar cedo para sustentar a família; mas nem só de força se faz paternidade.




Marcelo Lima
Marcelo Lima
Adauto com a esposa, Teresinha, e Isana, uma das filhas

Em catorze de abril de 1936, em Itaporanga, Sertão paraibano, nascia Adauto Herculano dos Santos. Nem só como Adauto viveu: filho, agricultor, mecânico, marido, comerciante, avô, pai. Foram vários os papéis ao longo de 81 anos.

Quando o assunto é Dia dos Pais, o comércio, os jornais, a televisão, o cinema – todos vendem a imagem do super-homem: quase o Pai celestial, infalível e inatingível. A história de Adauto e a relação com sua família – hoje composta por numerosos filhos e netos – é de força e sucesso, mas também de tombos e hesitações: é uma história para relembrar que os pais também são, afinal, humanos.

O pai clássico

Adauto lembra com carinho de sua infância em Itaporanga. “Eu cresci com meu pai e minha mãe dentro de casa, e fui criado com os ‘costumes antigos’”, conta. “Educar um filho era mais difícil, escola era mais difícil, era tudo mais complicado”, diz. E, devido às dificuldades, foi preciso ajudar o pai com o trabalho difícil na roça desde cedo.

“Meu pai era agricultor, com pouco estudo, e precisava de ajuda pra cuidar da terra. A gente plantava e criava uns animais – nada de muito, um boi, um porco, um bode, o que tinha pra viver, né?”, relembra. Da criação do pai veio desde cedo o gosto pelo trabalho e a força diante das dificuldades, algo que tentou passar aos filhos e netos. “Obrigação de trabalhar, tu é doido? Sou um homem sério", anuncia, orgulhoso. "Nunca tive medo de trabalhar, não consigo ficar é parado”.

Aos dezessete anos saiu do Sertão e foi tentar a vida no Rio de Janeiro, em busca de melhores oportunidades, e acabou conseguindo um trabalho em uma oficina mecânica – função que exerceria por mais de 40 anos. Ficou no Sudeste até 1954.

A estadia em casa, entretanto, durou pouco tempo: o irmão trabalhava como motorista de uma empresa de ônibus em Recife, e logo o chamou para trabalhar como mecânico da companhia. Mas Itaporanga reservou mais um marco importante, o casamento com uma vizinha e amiga da família, dona Teresinha. Se aproximaram em uma festa e em pouco tempo casaram: “as coisas eram mais simples naquela época”, resume.

Transferido continuamente de estado em estado pela empresa de transportes, Adauto tornou-se pai. Foram quatro filhos em quatro cidades diferentes, o primeiro deles em 1968. E a necessidade do emprego transformou-se muitas vezes em ausência enquanto os filhos cresciam. “Quem criou meus filhos foi a mãe”, diz, enquanto fixa o olhar em um ponto distante. “Eu vivia pro trabalho. Mas tem uma coisa: eu trabalhava pra eles. Era por meus filhos que eu me ausentava. Claro que eu sentia falta deles, foi difícil, mas a vida era assim. Enquanto nada faltasse para eles, eu estava satisfeito”.

A distância física, porém, não se transformou em distância emocional – pelo contrário, os fins de semana em que Adauto voltava para casa eram de festa entre os filhos. “Não importava a hora que ele chegasse, a primeira coisa que ele fazia era vestir a gente e levar para uma lanchonete, para uma sorveteria”, conta a terceira filha, Carla Herculano.

Segundo ela, o pai não demonstrava muito afeto – “até pela criação mais rígida que ele teve”, avalia –, mas o amor que ele sentia pelos filhos nunca foi uma dúvida. Com sua voz grossa, trejeitos diretos e corpo grande, Adauto passa de fato a imagem de homem forte, inatingível, o pai que não chora, o provedor, o super-homem; e foram esses os aspectos que ele ressaltou enquanto contava sua história. Mas a realidade - graças à família que também tem muito a contar - não é exatamente essa.

O lado escondido

“Eu costumo dizer que o dia em que conheci meu pai foi no dia do meu casamento”, diz Carla. “Todo mundo já tinha ido para a igreja e estávamos somente eu e ele em casa. Quando ele me viu de vestido de noiva, desabou em lágrimas. Ele ainda tentou esconder, mas não conseguiu. Chorava feito criança. Pegou uma dose de whisky, bebeu e me ofereceu. Foi ali que eu vi que ele não era aquela figura toda que parecia de aço”, sorri.

Os filhos cresceram e, através deles, Adauto ganhou nove netos e assumiu o papel de avô. “Agora, com os netos, a história foi completamente diferente. Até por estar aposentado, ter mais tempo”, revela a esposa, dona Teresinha. “Tô pra ver homem mais derretido, faz todos os gostos, é preocupado, vive pelos netos. Nem parece essa brabeza toda”, diz.

Para uma das netas, Laís Renata, que sempre morou na casa dos avós, o avô foi uma presença constante e indissociável de sua vida. “A primeira lembrança que tenho dele é de vovô me segurando na cadeira de balanço, usando a barriga como almofada”, ri, sem evitar as lágrimas. “Meu avô sempre foi muito presente. Gostava de dar presentinhos, de me levar pra todo canto – até hoje, se ele percebe que tô com algum problema, ele faz de tudo pra resolver”, diz.

É assim com todos da família. Quando a mãe de sua esposa adoeceu e ficou de cama, ele tomou as rédeas a cuidava pessoalmente dela. "Ele dormia com ela, ficava bem perto para perceber se ela precisava de alguma coisa durante a noite. Quando ela se foi, ele ficou muito abalado. Ficou extremamente vulnerável e aquela imagem de força caiu", conta Laís.

Hoje, as reuniões familiares em torno dele são constantes e, no Dia dos Pais, reúne os filhos, netos, genros e noras (“só me faltam bisnetos, já tá na hora”, reclama). “A família pra ele é tudo. Ele tem essa imagem forte, mas se acontece uma desavença familiar, esse homem se desespera”, fala a esposa.

Adauto é a figura clássica do pai: o homem que começou a trabalhar cedo, se sacrificou pela família, o patriarca distante e protetor que, na frente de todos, não demonstra fraquezas. No Dia dos Pais, vá lá, o rótulo de super-herói é aceitável. Mas sem esquecer que também é o pai não tão difundido: o que sofre com a distância dos filhos, que chora em segredo e tenta esconder as lágrimas, que se lamenta com os problemas familiares.

E não é algo de que se envergonhe: “meu jeito forte, minha agitação, é uma coisa – isso não impede que eu seja humano”, conclui.