Vida Urbana

Pais gays contam experiência e falam do amor incondicional aos filhos

JORNAL DA PARAÍBA narra histórias de pais que enfrentam o conservadorismo pela criação dos filhos.




“Há um tempo, ele teve uma briga com um coleguinha porque ficavam dizendo que o pai dele era homossexual”. O fato relatado pelo paraibano André Eric Ferreira, de 38 anos, é apenas um entre tantos envolvendo o filho Andrew, de 11 anos, e que fazem parte de sua rotina como um pai gay – um dos tipos de paternidade retratados pelo JORNAL DA PARAÍBA neste domingo (13), Dia dos Pais.

Descrevendo-se como feliz e realizado, André conta que, contrariando todas as possibilidades e críticas que recebeu, tornar-se pai biológico de uma criança, mesmo em uma sociedade conservadora, foi uma das melhores coisas que aconteceu na sua vida. “Muita coisa mudou porque eu sou um pai muito presente, já que sempre sonhei com isso”.

O paraibano lembra que o início de sua trajetória como pai foi construída nos mínimos detalhes e com bastante planejamento. “Nunca quis ser uma pessoa só, queria olhar para trás e ver uma pessoa sendo meu filho, alguém que eu ajudei a criar e a constuir o caráter”.

Para isso, ele teve a contribuição de uma amiga mais do que especial que, ao seu lado, aceitou o desafio de gerar e dar à luz a uma criança que viria a tornar os laços entre os dois ainda mais fortes. Hoje, André afirma, orgulhoso, que é membro de uma família fora dos padrões e faz questão de compartilhar todos os seus momentos nas redes sociais.

“Minha amiga agora tem um novo relacionamento, um novo filho, e a gente continua vivendo dentro de uma amizade. Sou amigo do esposo dela e todos nós saímos juntos, vamos à praia, ao shopping”, comenta, frisando que sempre vê o filho. “Isso acontece porque a gente combinou de morar perto. Então, como o colégio dele é próximo da minha casa, eu busco, levo na casa dele, ajudo nas tarefas. Todo final de semana trago ele para minha casa”.

Parceria e felicidade

André ressalta que a convivência diária com o filho faz com que um aprenda com o outro. E é por causa disso que Andrew vem ganhando, aos poucos, segurança e maturidade em relação à sexualidade do pai. “Quando ele brigou com o coleguinha, o diretor chamou a mim e ao pai do menino, que vieram pedir desculpas, inclusive na minha casa. Eu expliquei tudo para ele, porque para mim foi uma pequena discussão que se resolveu, e ele entendeu”.

Sobre o domingo de Dia dos Pais, André confessa que considera a data como outra qualquer, já que todo dia ao lado do filho é dia de parceria e celebração. “Todo ano, a gente se reúne com meu pai, meu avô, os netos, bisnetos, a família inteira, para almoçar e trocar os presentes. Mas eu não ligo muito para presente porque meu maior presente é meu filho. Com ele, eu tenho certeza de que minha felicidade é completa”.

PAI DE PARAQUEDAS

Faz 5 anos que o psicólogo Roberto Maia, de 50 anos, diz que passou a saber de verdade o que é amor incondicional. Isso porque foi em 2012 que ele precisou descobrir mais a fundo seu lado paterno ao adotar o pequeno Davi, na época com 8 meses. Homossexual e coordenador de Promoção à Cidadania LGBT e Igualdade Racial da prefeitura de João Pessoa, Roberto reconhece que o menino trouxe novas perspectivas a ele, que se jogou de cabeça na educação e instrução da criança.

“Acho que a paternidade vai além da questão de gerar, porque durante muito tempo as pessoas achavam que era isso. Mas ser pai é ser cuidador, é ter afeto, fazer comida, trocar fralda, prestar socorro. Um pai deve ter os mesmos cuidados que uma mãe tem”, opina o psicólogo, que acolheu Davi junto com o ex-marido após a mãe, uma prima, ter sido abandonada pelo pai biológico da criança.

Ele, que atualmente divide os cuidados do menino com a prima, salienta que a criação proporcionada por ambos tornou Davi aberto à diversidade e à convivência com todo tipo de pessoa. “Esse olhar diverso é muito bom para a criança, o olhar de aceitar o outro do jeito que é, e Davi é assim, além de ser muito comunicativo”, sustenta.

Roberto conta, ainda, que o diálogo é algo constante entre pai e filho, tanto que, apesar da pouca idade do menino, os dois já conversam sobre diferentes tipos de família como a deles. “Expliquei que ele tem três pais a partir de uma história infantil que mostra que um pai de coração pode não ser o pai biológico”, diz. “Na cabeça dele, ele entende que tem três pais e uma mãe e, com isso, acaba vendo com certa normalidade essa configuração. Se a criança é criada assim, não tem esse negócio de achar anormal”, conclui.