Vida Urbana

Conheça o cotidiano de João Pessoa sob o olhar dos motoristas

Condutores de táxi e ônibus dividem fatos inusitados vividos na cidade.




Bruna Cairo
Bruna Cairo
Joseilto da Silva Figueredo, o Van Dame, trabalha há 20 anos como motorista de ônibus

Só quem circula pelas ruas de uma cidade é que conhece a história de seus cidadãos. E em João Pessoa, que comemora 432 anos neste sábado (5), não poderia ser diferente. Por isso, para retratar de maneira fiel o cotidiano da capital paraibana, o JORNAL DA PARAÍBA ouviu aqueles que mais estão ligados à circulação de pessoas, levando-as a todos aos seus destinos e testemunhando as situações mais inusitadas ou perigosas: os motoristas.

O taxista Edvaldo Frazão de Lima é um deles. Com um enorme repertório de histórias, ele conta que certa vez já transportou até uma grávida que deu à luz em seu veículo. “Em 2007, eu fui buscar uma cliente e no meio do trajeto aconteceu da bolsa estourar. O menino nasceu no banco de trás do meu carro. A moça que estava acompanhando a grávida era novinha e não sabia o que fazer. Na hora, eu tive que ir às pressas para a maternidade”, lembra.

E a prestatividade de Edvaldo não se restringe apenas aos passageiros. Para ele, há momentos em que a empatia com o próximo precisa falar mais alto que o preço da corrida. É o caso das caronas que ele dá para as mães aflitas que saem tarde da noite do Hospital Arlinda Marques, em Jaguaribe - ponto onde estaciona seu veículo para descansar às vezes. “Eu digo para elas: chegue pra cá que eu deixo vocês na parada, aí elas dizem que não têm dinheiro e eu falo que deixo elas lá mesmo sem pagar nada”.

Outro que conhece bem o cotidiano da cidade é o taxista Diego Araújo dos Anjos. De acordo com ele, a rotina de um motorista pode ser intensa e ao mesmo tempo arriscada, o que mostra que muitas vezes as aparências enganam. “A gente recebe todo o tipo de pessoa no táxi, não tem como escolher ou selecionar. Às vezes, aquela pessoa toda engravatada consegue ser mais perigosa do que uma outra pessoa mais humilde", menciona.

"Uma vez, deixei um casal em uma comunidade e, quando o homem falou o nome, eu fiquei até preocupado, mas como estavam bem vestidos resolvi levar. Quando chegamos, o homem apontou uma arma para a minha cara e disse que se eu virasse o carro e fosse embora já estava levando muito. Eu não tinha o que fazer. Virei o carro e fui embora com a minha vida, mas sem o dinheiro da corrida”, relata o profissional, ao lembrar de uma de suas 'caronas' indesejadas.

Joseilto da Silva Figueredo, carinhosamente conhecido pelos seus amigos e colegas de trabalho como Van Dame, conta que, em 20 anos trabalhando como condutor de ônibus, também já teve que lidar com situações curiosas. Elas envolvem não apenas turistas, que chegam perdidos e falando outros idiomas, mas também habitantes da própria cidade. "Uma vez, eu estava descendo a ladeira ali no Centro, próximo da rua da Areia. Desceu um passageiro e entrou um homem, mais ou menos nos seus 60 anos, gritando ‘fecha, fecha, fecha, que está vindo uma mulher aí’", conta.

"A mulher se aproximou segurando uma faca e dizendo 'eu vou matar ele!' Os passageiros ficaram todos assustados e correram lá para trás. E eu fiquei bem tranquilo, dizendo que ela não ia fazer nada com o senhor e perguntando o que tinha acontecido", diz, acrescentando que, depois de descobrir que a mulher era garota de programa e que a ameaça havia acontecido por causa de um calote de R$ 10, aconselhou o idoso. "Eu disse ‘homi, pague logo isso! Sua vida vale mais’. Quando ele desceu, todo o ônibus vaiou ele!"

Assim como o idoso, que teve a intimidade exposta, outros passageiros costumam ser mais despudorados e não conseguem esperar para ter privacidade em um local mais 'apropriado', é o que diz o taxista Diogo dos Anjos. “Já vi casal ficar quase sem roupa aqui no meu carro. Nessa hora, eu tive que encostar o carro e pedir para eles pararem”, frisa ele, sem deixar de refletir e se divertir com as surpresas do dia a dia de um lugar como João Pessoa. “Eu presto muito atenção nas pessoas que entram no táxi".

Calma e paciência

Apesar das histórias diferentes, uma coisa é consenso entre os motoristas: é preciso paciência para lidar com o público e com os acontecimentos diários, mesmo que eles envolvam risco de vida. “Durante as minhas viagens, eu carrego um bem muito precioso, que é a vida de todas as pessoas", assegura Van Dame, ao relatar um dos assaltos que sofreu.

"O homem estava com a arma na minha cabeça, os outros estavam fazendo arrastão no ônibus e o tempo todo eu falava com o cara ‘fica calmo, ninguém está reagindo. Abaixa essa arma e segue teu caminho'", recorda. “Depois que eles desceram, eu parei próximo a uma farmácia e nem lembrava onde eu estava mais de tão nervoso que fiquei! Pelo menos ninguém se feriu naquele dia”, garante, aliviado.

Depois de muitos anos no mesmo ofício, Van Dame ressalta que é quase impossível não conhecer alguns passageiros e criar vínculos, já que grande parte tem o hábito de pegar o ônibus sempre nos mesmo horários. “Eu busco sempre dar um bom atendimento e não trazer problema para o trabalho. As pessoas, às vezes, têm muitos problemas no dia a dia e querem descarregar em cima do motorista, mas eu nunca tive nenhum com passageiros", finaliza ele, antes de se preparar para mais um dia de aventuras pela cidade que nunca para.