Vida Urbana


Entre sexo e voyeurismo: por dentro de um cinema pornô em João Pessoa

Local conta com bar, dark room, quatro cabines privativas e hall com área de convivência.




Francisco França
Francisco França
Sala heterossexual do Cine Phoenix exibe uma de suas obras: frequência é maior no ambiente gay

O Cine Phoenix, casa de cinema pornô localizada no Centro de João Pessoa, não é apenas um cinema – além de duas salas de exibição, (uma heterossexual, que fica no térreo, e uma gay, no subsolo, que eventualmente ainda exibe filmes para públicos com gostos menos convencionais), o local conta com bar, dark room, quatro cabines privativas e hall com área de convivência.

Há um forte cheiro de perfume e desinfetante no ar, que se torna mais forte à medida que saímos da bilheteria e andamos em direção às salas – reflexo, segundo o dono do estabelecimento, Marco Antônio, da limpeza constante que é feita no local. Rolos de papéis e lixos são visíveis em todos os corredores do cinema, numa tentativa de diminuir a sujeira deixada pelos clientes.

Segundo Marco, o serviço de limpeza é realizado de hora em hora, principalmente nas cabines e no dark room. Quatro funcionários trabalham no local, todos com carteira assinada, e recebem cursos de capacitação sobre higienização e sexualidade.

>>> A história do Cine Phoenix: cinema resiste à pornografia online e tem clientela assídua

Fazemos um tour cuidadoso em partes do cinema, procurando não atrapalhar ninguém. Durante todo o caminho pelos corredores escuros, é possível escutar gemidos – ora dos filmes em exibição, ora dos próprios frequentadores –, e é preciso calcular os passos com cuidado para evitar os preservativos descartados no chão. Clientes passam por nós, a maior parte aos pares, desconfiados, em direção às salas, às cabines privadas e ao dark room.

Nem todos que vão ao cinema encontram uma alma gênea, entretanto, e se contentam em observar; na 'sala heterossexual', que dispõe de cerca de 30 lugares, um senhor solitário, que pareceu não se intimidar com nossa presença, assistia à uma modelo que se despia lentamente na tela. “A sala hétero é mais vazia”, confidencia Marco em um sussurro – como se fosse possível sobrepor sua voz aos ruídos exagerados do filme. 

O público gay é o que compõe a maior parte da freguesia – são cerca de 70 a 80 pessoas diariamente, no total. A sala de exibição de filmes gays é, de fato, bem mais frequentada – quando espiamos da porta, é possível avistar um grupo de cerca de dez homens assistindo ao filme, atentos, ou engajados em outras atividades. “Aqui vêm muitos homens héteros, que geralmente permanecem sozinhos só assistindo. Já o público gay encontra parceiros com mais facilidade para ir às cabines privadas ou ao dark room", conta Marco. "Mas também frequentam mulheres e até casais”, acrescenta com orgulho.

Na cabine privada a que temos acesso, o cinema oferece uma lixeira, um rolo de papel e - um luxo - luzinhas para criar o clima ideal ao romantismo. O dark room, por motivos óbvios, ficou fora de nosso alcance.

Me despeço e deixo para trás a escuridão e o cheiro de desinfetante do Cine Phoenix. Uma barata espera à porta para dizer adeus. Enquanto saio, um jovem passa por mim, tirando o cartão fidelidade entregue aos clientes mais assíduos enquanto falava ao celular. Sem preocupações, paga o ingresso e entra pelas portas duplas.