Vida Urbana

Operação Gabarito: 70 pessoas são suspeitas de participação em esquema de fraude em concursos

Grupo atuou em 70 seleções e movimentou cerca de R$ 21 milhões.




Cógenes Lira
Cógenes Lira
Polícia apresentou detalhes das duas etapas da Gabarito em uma entrevista

Mais de 70 pessoas são apontadas como suspeitas de participação no esquema de fraudes em concursos públicos desarticulado pela Operação Gabarito. De acordo com a Polícia Civil, a quadrilha teria fraudado mais de 70 certames e movimentando cerca de R$ 21 milhões. Os detalhes da ação foram divulgados em uma entrevista coletiva na Central de Polícia, na manhã desta segunda-feira (15)

A ação foi desencadeada no domingo (7), quando 19 pessoas foram presas, em João Pessoa e no Rio Grande do Norte. Na sexta-feira (12), outros seis suspeitos de participação no esquem foram detidos pela Polícia Civil, totalizado 25 presos.

“Isso é só o começo do trabalho da Polícia Civil”, afirmou o delegado de Defraudações, Lucas Sá. Segundo ele, a investigação começou há quatro meses, com denúncias anônimas. “A denúncia era de que tinham pessoas que passaram por meio de fraudes", completou.

De acordo com a Delegacia de Defraudações e Falsificações de João Pessoa, entre os concursos que têm suspeita de fraude estão o da Polícia Rodoviária Federal, do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba, do Ministério Público da Paraíba, de uma série de prefeituras e até o Exame Nacional do Ensino Médio. Lucas Sá deixou claro que não existe nenhum vazamento por parte das organizadoras dos concursos. A atuação dos criminosos é totalmente independente. A quadrilha tinha até assessoria jurídica para assessorar os candidatos que tivessem problemas com desclassificações.

A quadrilha exigia que pelo menos dez pessoas comprassem a aprovação em um mesmo concurso para que ele pudesse ser fraudado. Segundo o delegado Lucas Sá, mais de 500 pessoas foram beneficiadas com o esquema fraudulento. Os próprios integrantes do esquema foram aprovados em concursos como da Guarda Municipal de João Pessoa, do CFO de Bombeiros da Paraíba e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Flávio Luciano Nascimento Borges, um dos líderes do grupo, foi aprovado em catorze concursos públicos.

Terceiro em comando está foragido

O delegado Lucas Sá explicou que alguns dos suspeitos são considerados foragidos, pois já tiveram o mandado de prisão temporária decretada, mas ainda não foram encontrados. Um deles é o agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Marcus Vinicius Pimentel dos Santos, apontado como 3º em comando na organização criminosa. “Ele consta como aprovado em vários concursos, conseguiu aprovar vários parentes. Pela divisão de lucros da quadrilha, que nós tivemos acesso, ele é o terceiro mais beneficiado”, afirmou.

Marcus beneficiou, inclusive, a filha no esquema. Ela entrou de forma irregular no curso de Medicina em uma faculdade privada de João Pessoa. A jovem fraudou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e conseguiu a vaga na instituição por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni), iniciativa do governo federal que concede bolsas de estudos. O policial repassou o ponto eletrônico para a estudante.

Marcus é irmão de Marcelo Pimentel, preso na 1ª fase da Gabarito, e estava no condomínio de luxo quando a ação foi desencadeada, mas conseguiu fugir.

As investigações revelaram que o grupo cobrava o valor correspondente a 10 vezes o salário inicial do cargo pretendido pelo candidato. Os interessados "compravam" a aprovação por valores que iam de R$ 30 mil a R$ 150 mil. No dia da aplicação das provas, os candidatos que compraram a aprovação repassavam as questões à quadrilha por meio de ponto eletrônico. Os membros do grupo criminoso - chamados de "professores" - transmitiam a resolução das questões aos candidatos.

A polícia identificou que guardas municipais de uma prefeitura, que teriam sido beneficiados pelo esquema, mal sabiam escrever e eram aproveitados em obras. Também foi verificado situações de servidores que nunca assumiram efetivamente os cargos. “Eles não trabalham efetivamente, são aprovados nos cargos públicos, compram atestados médicos falsos, ficam em licença médica, recebendo e nunca sequer chegam a exercer esses cargos”, disse.

Entre os presos, está a irmã do agente de trânsito Diogo Nascimento, Dayane Nascimento, aprovada em dois concursos que estão sob suspeita e apontada como companheira de Vicente Borges, um dos líderes do esquema, um servidor concursado do Detran-PB, Diones Leite, e um casal de policiais militares.

Os presos vão responder por organização criminosa e individualmente por cada concurso fraudado. Lucas Sá explicou que a Polícia Civil só vai fazer o indiciamento das seleções de nível estadual, os de âmbito federal, como universidades e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), vão ser repassados para a Polícia Federal.

Durante as duas etapas da Operação Gabarito foram apreendidos 11 carros com os suspeitos. Quatro dos seis presos na sexta-feira vão passar por audiência de custódia na tarde desta segunda. O casal de policiais militares já teve a prisão preventiva decretada.