Vida Urbana

Versões sobre morte de estudante em blitz continuam contraditórias

Trabalho de reconstituição durou mais de três horas. Autor do tiro e piloto da moto participaram



Reprodução/TV Cabo Branco
Reprodução/TV Cabo Branco
Policial que matou jovem e piloto da moto participaram da reconstituição

A Polícia Civil e o Instituto de Polícia Científica reconstituíram na noite de quinta-feira (3) a morte do universitário Cícero Maximino da Silva, de 20 anos, no bairro de Manaíra, em João Pessoa. O trabalho durou mais de três horas e contou com a participação do policial militar que baleou o jovem na blitz e também do condutor da motocicleta, na qual Cícero estava na garupa. Após a reconstituição, o delegado responsável pela investigação, Reinaldo Nóbrega, afirmou que o caso continua com duas versões completamente contraditórias.

“É um caso complexo, temos duas versões totalmente antagônicas. Intimamos as duas partes. Toda a Polícia Militar, que compareceu de pronto, toda a guarnição que participou da blitz no dia, todos os 11 homens envolvidos, além de uma guarnição de apoio, e também o motoqueiro, que conduzia a moto quando ocorreu o fatídico. De antemão afirmo que as versões continuam antagônicas. O prazo legal [para entrega do laudo da reconstituição] é de 10 dias, mas o perito pode pedir uma prorrogação se a perícia for complexa, como é o caso desta", disse Reinaldo Nóbrega.

O estudante de 20 anos Cícero Maximino da Silva foi morto por policiais na noite de 21 de outubro em uma blitz no bairro de Manaíra. Segundo a Polícia Militar, ele e outro homem estavam em uma motocicleta e tentaram fugir e atropelar os policiais que estavam no local; eles teriam ainda, segundo a PM, tentado puxar uma arma. O condutor da moto deu outra versão e, em entrevista ao JORNAL DA PARAÍBA, disse desconhecer a arma e que não tentou fugir da blitz. O jovem posteriormente reafirmou sua versão à Polícia Civil.


O ouvidor-geral da Secretaria de Segurança da Paraíba, Mário Gomes, acompanhou todo o trabalho de reconstituição. “Esse é o momento em que a gente tira as dúvidas e confronta as versões que foram dadas até agora, para chegar as conclusões de fazer ou não o indiciamento no inquérito policial”, destacou.

O primeiro a demonstrar a versão do fato foi o policial que matou o jovem, que participou dos trabalhos com o rosto coberto. Na sequência, foi a vez do jovem que pilotava a moto.

 

Mudando um pouco a versão contada pela PM no dia do fato, o advogado do policial autor do disparo, Harley Cordeiro, disse que o tiro pode ter sido acidental. “Um rapaz invadiu a blitz, ultrapassou, e o policial já estava em uma outra abordagem, já estava na contenção de outro rapaz que tinha invadido, quando veio a moto para cima dele, e ele não teve outra alternativa que não agir no estrito cumprimento do dever legal”, disse. Ele relatou ainda que o policial não contou se os rapazes estavam armados. “A moto já veio para cima dele, o pessoal ficou gritando ‘a moto’, quando foi em cima dele, ele não teve como sair. Foi no reflexo o disparo, eu acredito até que tenha sido de forma acidental”, completou.

Conforme o delegado Reinaldo Nóbrega, a simulação das versões não explicou detalhes de como a arma, que a PM afirma pertencer aos ocupante da moto, foi encontrada.

"Segundo o que foi colhido, a guarnição da polícia se preocupou primeiro em atender e prestar socorro à vítima. Pouco tempo depois, uma pessoa encontrou essa arma aqui, ao solo. O local exato onde essa arma foi encontrada a gente não sabe. Essa pessoa acionou o Ciop [Centro Integrado de Operações Policiais] e uma outra guarnição apreendeu essa arma e levou direto para delegacia de Homicídios. A gente não tem a gravação da ligação ao Ciop, só tem o registro da ligação. E como é resguardado o anonimato ao denunciante, a gente não sabe quem foi essa pessoa", completou.