Vida Urbana

'Não é não' chega à Paraíba com ações contra o assédio no Carnaval e São João

Para este ano, movimento formado chega a ter representação em 15 estados.




Tatuagens foram distribuídas durante o Maior São João do Mundo, em Campina Grande. Foto: Yona Kaluaná/Acervo pessoal

Existe um ditado na cultura popular que diz: “quando um não quer, dois não brigam”. Na verdade, nas relações sociais que envolvam duas pessoas, no mínimo, tudo precisa ser aceito para acontecer. Sem consentimento, é abuso. Para combater casos de assédio, o Movimento ‘Não é não’ reúne mulheres, através de tatuagens com esta mensagem, para deixar um recado claro para quem insiste em praticar este ato repugnante.

Na Paraíba, o núcleo do movimento foi instituído oficialmente este ano, mas em 2019 já foram realizadas ações durante o Maior São João do Mundo, em Campina Grande. Segundo a estudante Yona Kaluaná, uma das responsáveis pela articulação do ‘Não é não’ no estado, o foco agora é o Carnaval, envolvendo 15 estados do país (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal, Goiás, Paraná, Pará, Bahia, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Amazonas e Espírito Santo).

“Quando realizamos a ação em Campina Grande, o movimento ainda não estava de maneira oficial na Paraíba. Já sentimos uma repercussão muito boa e agora o foco é o Carnaval, que através desta festa popular foi que o coletivo surgiu. A nossa proposta, inicialmente, é Campina Grande e João Pessoa, mas caso consigamos mais dinheiro com o financiamento coletivo, queremos expandir para outras cidades”, disse.

Mas, as ações não se resumem às festas. Yona contou que um dos projetos é promover rodas de conversa em escolas públicas e particulares em Campina Grande e João Pessoa. Na Capital, o coletivo é coordenado pela arquiteta Bea Brito. No Rio de Janeiro, local onde nasceu o movimento, as escolas já receberam o debate. A proposta foi conversar com meninas sobre o que é assédio, para saber como elas vivenciam, o que acham disso e a partir desses relatos, mostrar que a tatuagem é uma ferramenta na luta contra o assédio.

Para que a ação do Carnaval possa acontecer na Paraíba, o Movimento ‘Não é não’ está com uma campanha na internet para receber doações, através de um financiamento coletivo, com o objetivo de produzir as tatuagens. As doações vão de R$ 10 a R$ 150.

Compartilhando histórias

Tudo começou em 2017, quando um grupo de amigas começou a mobilização, no Rio de Janeiro. Elas transformaram a indignação diante dos assédios que já haviam sofrido em força para agir. Em 48 horas, foi possível arrecadar R$ 2.784 e já no Carnaval do mesmo ano foram 4 mil tatuagens distribuídas gratuitamente pelas ruas do Rio. No ano seguinte, a ideia foi romper as fronteiras e espalhar o movimento pelo Brasil. Com um novo financiamento coletivo, agora em nível nacional, foi arrecadado R$20.547, com a colaboração de 355 pessoas. No carnaval de 2018, distribuímos 26 mil tatuagens em seis cidades diferentes (Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife e Olinda), em parceria com blocos, coletivos e marcas. Em 2019, um novo crescimento: as ações foram realizadas em nove estados (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Bahia, Pará, Pernambuco e Paraná), com a distribuição de 186 mil tatuagens temporárias, distribuídas em 40 cidades.

“A tatuagem pode transformar o nosso corpo em nosso instrumento de luta, pois é uma maneira clara e direta de mostrar às pessoas o que pensamos, acreditamos e também ajuda a criar uma rede de apoio. Às vezes estamos em uma festa e ver alguém com uma tatuagem nos dá a sensação de que ali tem gente que compartilha da mesma ideia, da mesma bandeira de luta”, afirmou Yona.

Regionalidades

Apesar de ter surgido como um movimento focado no Carnaval, o ‘Não é não’ tem ganhado versões com características regionais, como na Paraíba, com o Maior São João do Mundo. Yona conta que um amigo fez contato com o coletivo, falando do interesse em realizar uma ação na festa junina da Rainha da Borborema, mas recebeu como resposta que só mulheres poderiam organizar a ação.

Foto: Yona Kaluaná/Acervo pessoal

“As meninas responderam que não poderia ser homem, então esse amigo entrou em contato comigo perguntando se eu tinha interesse. Me deram apoio para concretizar, comecei a ter contato, saber como funciona e descobri que as tatuagens eram frutos de um financiamento coletivo. A ação no São João de Campina Grande foi algo fantástico, gerou repercussão e após o carnaval queremos repetir”, falou.

A ideia é expandir, também no São João, para outros lugares onde a festa acontece na Paraíba, por se tratar de um evento realizado em um maior número de cidades, por causa da tradição junina. “Aqui na Paraíba tem muito isso de não haver uma campanha voltada especificamente para essas questões de assédio dentro do São João, que é a maior festa na nossa região”, complementou.

Homens, não!

As ações do coletivo são exclusivamente realizadas por mulheres. Yona explicou que os homens podem se engajar na luta divulgando ou até contribuindo com o financiamento coletivo, mas não devem usar as tatuagens.

“Não distribuímos as tatuagens para os homens, mas a luta também é deles. A luta é de todos que entendem que o assédio possa diminuir e o que nós queremos é nem precisar distribuir as tatuagens. Queremos existir nos lugares sem sofrermos assédio. Os homens podem divulgar, contribuir com o financiamento coletivo, mas as tatuagens ficam só para as mulheres”, finalizou.


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