Vida Urbana

155 anos de Campina Grande: Mobilidade urbana da cidade é premiada apesar dos impasses no transporte público

Cidade foi reconhecida pela pesquisa americana ‘Expert Market’ como uma das melhores em operação e regularidade do transporte público.




Mobilidade urbana de CG é destaque, apesar do impasses do transporte público. / Foto: Arquivo Jornal da Paraíba

Quando perguntada sobre o que a população campinense tem a comemorar em seu aniversário de 155 anos de emancipação, comemorado nesta sexta (11), em relação a mobilidade urbana da cidade, a estudante universitária Stella Costa é precisa: “A verdade é que pra comemorar os 155 de Campina eles [os gestores] deveriam melhorar muitas coisas. A cidade tem uma boa história, linda por sinal. E ainda tem pequenas coisas que de certa forma atrasa, uma delas é a mobilidade urbana.”

Stella mora no bairro do Bodocongó, e faz uso do sistema de transportes públicos de Campina Grande diariamente para se locomover até à Universidade Estadual da Paraíba. No trajeto em que ela percorre, apenas a linha 333 pode ser considerada uma opção, ainda que para isso, seja preciso esperar cerca de uma hora no ponto de ônibus, e presenciar situações caracterizadas como “negativas” dentro dos coletivos. “Nunca presenciei nenhuma situação positiva dentro do ônibus que uso, mas negativas sempre tem. Acontece sempre de idosos pedirem paradas, mas o motoristas não atendem e passam direto. A porta do meio é para gestantes, deficientes e idosos, mas os condutores não param. Todo mundo grita pedindo, se humilhando, mas as pessoas percorrem o ônibus lotado e saem pela porta de trás.”, explicou Stella.

Os debates em torno do projeto de mobilidade urbana de Campina Grande não são recentes, e ganharam ainda mais força em maio, quando a Prefeitura Municipal de Campina Grande anunciou a extinção do Terminal de Integração. Desde então, a integração entre duas linhas de ônibus começou a ser feita apenas através do uso do cartão, e o passageiro pode realizá-la em, no máximo, 70 minutos entre uma linha e outra.

Para além dos ônibus, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes à 2018, existem cerca de 183.427 veículos em Campina Grande, entre motocicletas, carros e bicicletas. São quase 70 mil motos e 110 mil carros, ônibus e caminhões, e de toda a Paraíba, Campina fica em segundo lugar na frota de veículos no geral, perdendo apenas para a capital João Pessoa. Informações da Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos (STTP) ainda revelam que nos último anos, o município recebeu a instalação de cerca de 4.156 placas de sinalização e 682  faixas de pedestres.

A alta quantidade de veículos em uma cidade localizada no interior do estado tem relação com a extensão territorial que ela possui. No caso de Campina Grande isso é compreensível porque o município tem cerca de 409 mil habitantes em uma extensão de 593 mil km². Assim, para que a dinâmica de trânsito do município permaneça normalizada, o projeto de mobilidade urbana deve ser cumprido à risca, desde os aspectos técnicos às questões humanas, que envolvem pontos como acessibilidade e translado de pessoas de locais mais periféricos, por exemplo.

Apesar dos empasses envolvendo a utilização dos transportes públicos, o superintendente da STTP, Félix Araújo Neto, afirma que Campina Grande tem 86% das vias utilizadas por esse tipo de veículo asfaltadas e 12% em calçamento, restando apenas uma porcentagem reduzida de vias que ainda estão em terra, nas zonas rurais ou em bairros afastados do centro. 

Para Félix, além de obter resultados práticos, como a redução na quantidade de acidentes de trânsito, o projeto de mobilidade urbana de Campina também é um importante referencial para empresários que desejam instalar negócios na cidade. Segundo ele, apesar das dificuldades e dos desafios, a cidade tem uma operação de mobilidade melhor do que outros locais. “Considerando tempo de espera e mudança de ônibus e outros fatores. Esse resultado é fruto de planejamento e ação conjunta dos órgãos competentes, permitindo que o município tenha uma média de deslocamento que atrai os investidores, já que é uma das poucas cidades de porte médio que mesmo em horários de pico de frota de veículos tem uma média de deslocamento de apenas 30 minutos.”, comentou Félix. 

Reconhecimento

Campina Grande foi reconhecida pela pesquisa americana ‘Expert Market’ como sendo uma das cidades com melhor operação e regularidade do transporte público, e também está numa das melhores colocações no quesito de mobilidade para transportes cicloviários, de acordo com a Esquipe de Avaliação Nacional de Transporte de Bicicleta. 

Em agosto desse ano, o superintendente da STTP de Campina Grande, Félix Araújo Neto, apresentou um relatório sobre os altos custos cobrados pelos Detrans de todo o país para procedimentos que envolvem multas de trânsito no Congresso Brasileiro de Mobilidade Urbana. Na ocasião, Félix defendeu uma proposta de redução dos valores pagos ao Detran, como disponibilidade de dados cadastrais dos veículos, registro de multas, e serviços não obrigatórios que são cobrados aos órgãos de trânsito municipais.

O Prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues, também participou das discussões, apresentando dados sobre iniciativas promovidas pela Superintendência de Trânsito e Transportes Públicos da cidade, como a “Fábrica de Semáforos”, que reduziu os custos na aquisição de equipamentos próprios ao setor.

Iniciativas

Na última segunda-feira (7) foi publicada no Semanário Oficial de Campina Grande uma lei que institui a gratuidade aos carros de idosos e deficientes físicos por duas horas na zona azul do município. A lei foi sancionada pelo prefeito Romero Rodrigues, e para ter direito ao benefício, o veículo deve possuir uma credencial que indica o transporte de pessoas maiores de 60 anos e/ou com dificuldades de locomoção. Após o término do período de duas horas no estacionamento, o dono do automóvel deve pagar uma taxa de permanência, que atualmente custa R$ 2. No ano, o valor arrecadado chega a R$ 2 milhões, e é administrado por três entidades sociais.

Com relação a assistência, a população de Campina Grande pode sugerir, pedir informações ou tirar dúvidas através do WhatsApp da Superintendência de Trânsito e Transportes Público (STTP) da cidade. O ‘TrânsitoZap’ funciona através do número (83) 99909-0157, com atendimento das 8h às 17h. A STTP ainda tem realizado o projeto “Piloto Legal”, em parceria com a Prefeitura Municipal de Campina Grande. Ele está disponível para pessoas que possuem CNH dentro da validade e na categoria “A”, além de motocicleta e capacete.

O que precisa melhorar

De acordo com Lívio José, professor de desenho arquitetônico com enfase em acessibilidade e desenho universal do curso de Engenharia de Produção, pela Universidade Federal de Campina Grande, o Plano de Mobilidade Urbana de Campina tem beneficiado apenas os meios de transportes público e individual, mas as pessoas que se locomovem a pé pelas ruas da cidade não são atingidas pelo projeto.

Lívio foi membro do Comitê de Mobilidade Urbana por quatro anos, e viu o PlanMob ser projetado e entre à Prefeitura Municipal de Campina Grande. No entanto, o documento feito em 2015 não saiu do papel, e a cidade que completa 155 anos nesta sexta-feira (11) não dispõe de acessibilidade em suas calçadas.

“Temos melhorias no sistema viário, mas não temos órgãos que façam gestão de pessoas; É possível dizer que não temos mobilidade urbana no que diz respeito aos pedestres. Infelizmente, a cidade são está sendo gestada para as pessoas idosas ou deficientes.”

O professor de desenho arquitetônico ainda explicou que entregou ao prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues, a proposta de ações articuladas para pessoas com deficiência – Plano de Mobilidade Urbana, em 2016. O projeto, segundo ele, foi enviado através do Comitê Técnico de Mobilidade Urbana, mas, até então o prefeito e os demais secretários da pasta não se pronunciaram a respeito do assunto.

* Bruna Couto é aluna de jornalismo na Universidade Estadual da Paraíba e estagiária do Jornal da Paraíba. Esta série de reportagens foi produzida sob orientação de Aline Oliveira


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