Vida Urbana

Horta em escola municipal muda a vida de alunos em Cabedelo

Um projeto desacreditado por muitos acabou despertando o interesse de jovens para o estudo e pelo ambiente escolar. Para eles, o futuro agora é verde e frutífero.



Phillipe Xavier
Phillipe Xavier
Escola Municipal Rosa Figueiredo de Lima mantém uma horta que fortaleceu laços de afeto, trouxe disposição para a aprendizagem e desenvolveu senso de responsabilidade

Uma realidade difícil agravada pelo desinteresse pelos estudos. Era assim a vida de Abner Augusto Nascimento, de 16 anos. Nas páginas de sua história, marcas de perdas próximas de amigos envolvidos com o tráfico de drogas e com a violência da comunidade misturavam-se com as incertezas sobre seu lugar no mundo. Rebelde e já tendo sido reprovado, as esperanças de um futuro para ele eram pequenas.

Foi quando os alicerces da escola surgiram como um refúgio e uma solução para os problemas do adolescente. Localizada em Cabedelo, cidade da Região Metropolitana de João Pessoa, a Escola Municipal Rosa Figueiredo de Lima, que antes era vista com maus olhos por ele, deixou de ser apenas um espaço de aprendizado de conteúdos enfadonhos para abrigar as certezas de um horizonte verde e frutífero.

E as palavras para descrever a nova chance que Abner recebeu da vida não são em vão. Isso porque foi por meio da criação de uma horta em um local inutilizado nos fundos da escola que ele recuperou o interesse pelos estudos e conseguiu criar laços afetivos com colegas e professores. “Ele mudou muito. Através da horta, com os professores incentivando, ele veio a ser aprovado e hoje se dedica a ela e a qualquer outro trabalho proposto pela gente”, afirma orgulhosa a diretora Rosa Maria do Amaral.

Em meio às plantações de vegetais e frutos como tomate, banana e laranja, além de temperos e plantas medicinais, é que Abner se sente à vontade. Precisa regar? Ele rega. Precisa tirar as ervas daninha? Ele tira. Não existe tempo ruim para o menino que tomou gosto pelo cuidado com a natureza e pelas questões ambientais. E esse apego se estende também à sua casa, onde mora com a avó. Lá ele já começou a cultivar o que aprende na escola e a mudar hábitos, inclusive os alimentares.

“Acho importante esse contato com a escola”, diz Abner. “Minha vida antes era ficar em casa ou na rua sem fazer nada e agora é dentro da escola com os amigos daqui, aprendendo e ajudando. Qualquer coisa, a [diretora] Rosita e os professores sabem que podem me chamar”, acrescenta ele, que aos poucos vê seu futuro sendo definido. “Pretendo fazer um curso técnico de meio ambiente no ensino médio por influência do professor e das aulas”.

O jovem Abner Augusto tomou gosto pelos estudos a partir da horta desenvolvida na escola. (Foto: Phillipe Xavier)

“A criança é a melhor semente que existe"
Uma das inspirações de Abner é João Thomaz. Professor de ciências e de biologia, ele é um dos responsáveis por tirar do papel o projeto da horta. Munido de boa vontade e perseverança, em nenhum momento João desanimou ao se deparar com a resistência inicial que sua ideia traria. Para ele, a certeza de que aquele trabalho poderia fazer a diferença para os alunos era mais forte do que tudo.

“Quando eu comecei, os outros professores tinham medo. Eles não queriam usar a horta nas próprias disciplinas e sair do conteúdo”, explica. “Mas aos poucos eu fui insistindo, sugerindo, por exemplo, trabalhar a matemática no diâmetro da plantação, no peso das frutas, a história na questão do cultivo dos produtos no período da colonização”, complementa, ressaltando, ainda, que acredita ser possível integrar o ensino de todas as matérias com a horta. “É prático e econômico, só basta querer”.

Segundo João, os benefícios da horta na escola têm sido nítidos não apenas na melhoria dos boletins, mas no senso de responsabilidade e de coletividade desenvolvido, já que parte do que é produzido serve os próprios alunos e professores. Fora isso, alguns dos produtos também são vendidos dentro da escola a fim de gerar renda e auxiliar a compra de materiais para os projetos, quando estes não são fornecidos pela prefeitura.

“A criança é a melhor semente que existe. E é gostoso você pegar uma cabecinha e transformá-la em algo positivo. Eu acho que esse é o caminho: trazer o aluno ainda mais para a escola, trazer a família, mostrar que ideias estão sendo produzidas, que existe esse trabalho de conscientização. Essa é uma educação que eu gostaria para o meu próprio filho”, observa o professor.

Se no dicionário, instrução é um dos sinônimos de educação, no dia a dia de educadores como João o vocábulo se aproxima da palavra afeto. E, conforme ele, o afeto, de professores para alunos e de alunos para professores, se traduz tanto no cuidado com as ações da escola, quanto no carinho entre as pessoas. “Eu mesmo tive que me recolher um tempo e, quando voltei, um aluno chegou dizendo que fiz uma falta tremenda. Foi aí que eu parei e pensei ‘rapaz, eu sou importante para essa criança, que bom’”, conta emocionado.  

Mais educação
Atualmente, a horta da escola faz parte do Programa Mais Educação, implementado pelo Governo Federal e indicado para jovens do terceiro ao oitavo ano do ensino fundamental. As atividades do programa, voltadas para induzir a ampliação da jornada escolar e a organização curricular na perspectiva da Educação Integral, ocorrem no turno contrário ao das aulas dos alunos. 

Professor João Thomaz foi um dos idealizadores da horta e hoje é inspiração para os alunos. (Foto: Phillipe Xavier)


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