Vida Urbana

Há seis anos, família vive dentro de lixão para garantir sobrevivência

Resíduos despejados signficam esperança para a família do catador Luiz Antônio de Souza. Ele sustenta três filhas e uma neta.



Francisco França
Francisco França
Luiz Antônio trabalha para garantiro alimento na mesa com dinheiro da reciclagem

O que para muitos é descartável e vai para o lixo, para outros pode significar esperança, alimento na mesa e sono tranquilo. Vivendo em uma casa de taipa e lona improvisada junto com três filhas e uma neta, de 21, 15, 13 e 5 anos, dentro do lixão da cidade de São José dos Ramos, Luiz Antônio de Souza, de 64 anos, diz que é do lixo que ele tira seu sustento. “Antes eu catava lixo em várias cidades. Quando achei esse lixão, dormi dois dias embaixo de uma Jurema, achei uns paus, montei meu barraco e trouxe minha família. A vida é difícil, mas não falta pão na mesa”, declarou. A cidade em que Luiz Antônio vive faz parte do total de 204 que, segundo levantamento do Ministério Público da Paraíba, continuam depositando seus resíduos em lixões sem planejamento para criação de aterros.

É com orgulho que Luiz Antônio relata como construiu sua casa de três quartos, sala e cozinha, e como, dia a dia, trabalha para garantir o alimento na mesa com o dinheiro da reciclagem. Ele veio de Pernambuco para a Paraíba onde, por conta de dificuldades, teve que passar a catar lixo para sobreviver. Em uma dessas andanças, encontrou no lixão do município de São José dos Ramos a possibilidade de novamente ter um lar. Lá, ele reside há seis anos. Sem energia elétrica, água tratada ou saneamento básico, e ainda sem acesso a nenhum benefício social, Luiz revela que chega a se sentir esquecido.

“Eu luto, mas não posso dar muito, lamento por não poder dar uma vida melhor para as minhas filhas. Às vezes eu sinto que a gente é esquecido. Aqui é esquisito, então eu não deixo elas saírem muito de casa. Quando dá 18h já estamos todos nas camas, quietinhos", ressaltou.

Para ter um pouco de iluminação, candeeiros improvisados fazem as vezes das lâmpadas. Um local improvisado atrás da casa serve de banheiro e para ter água, um moinho localizado nas redondezas é a fonte que abastece baldes, estes são levados por Luiz com a ajuda de suas filhas, tendo em vista que seus braços não o deixam trabalhar mais sozinho. No lixão as meninas também já têm que ajudar. Para uma delas, Adriene Maria de Sousa, não há problema em ajudar seu pai. “Às vezes é bom porque a gente acha umas coisas, como brinquedo”, disse.

Um sorriso no rosto é inesperado, mas presente. É com esse sorriso que as filhas de Luiz encaram a vida, agradecendo por cada ursinho, roupa, sapato e até celular encontrados no lixo. E a alegria da noite delas é justamente um celular.

Prefeitura garante solucionar problema

A reportagem tentou entrar em contato com o prefeito do município de São José dos Ramos, Eduardo de Lima, contudo não obteve êxito. A assessoria do prefeito atendeu às ligações e se pronunciou revelando que a cidade existe há quase 20 anos e a prefeitura comprou o terreno em que Luiz mora com o objetivo de ter uma destinação para o lixo. Face à necessidade de solucionar o problema, a prefeitura realizou um consórcio com outras 12 prefeituras para construção de aterro sanitário. A assessoria revelou que esse processo já está adiantado e a previsão é de que seja dado encaminhamento logo que as cidades recebam verba por parte do governo federal.

Com relação à situação de Luiz Antônio, a assessoria do prefeito disse que ele não morava na cidade e assim que se mudou para o local passou a ser assistido pela prefeitura, que o cadastrou em programas sociais, dentre os quais o ‘Minha Casa, Minha Vida’. No ano passado, 11 casas foram entregues, mas Luiz não foi beneficiado porque outras famílias estavam na sua frente com documentações inclusive já encaminhadas à Companhia Estadual de Habitação Popular (Cehap).
Atualmente outras 20 famílias vivem em casas de taipa em uma comunidade do município também à espera de moradias, contudo, a assessoria do prefeito reconhece que a situação mais preocupante é a de Luiz e sua família.

A assessoria destacou que um terreno já foi comprado pela prefeitura no Centro da cidade para a construção de outras casas, contudo, os recursos estão sem previsão de serem recebidos. Assim que o forem, eles serão destinados à construção dessas casas que terão dentre os beneficiários Luiz.

SAIBA MAIS

Agosto de 2014 foi o prazo final para os municípios da Paraíba fecharem os lixões, no entanto, muitos não cumprem essa obrigatoriedade. A elaboração dos Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS) é condição necessária para os municípios terem acesso aos recursos da União, destinados à limpeza urbana e ao manejo de resíduos sólidos.

O PGIRS pode estar inserido no Plano de Saneamento Básico integrando-se com os planos de água, esgoto, drenagem urbana e resíduos sólidos, previstos na lei nº 11.445/2007. No último dia do ano passado, contudo, foi prorrogado o prazo a partir do qual os municípios que não tivessem planos municipais de saneamento deixariam de receber recursos federais. Esse prazo foi adiado para o dia 31 de dezembro de 2017. A medida, de acordo com o Ministério das Cidades, busca evitar a descontinuidade de investimentos no setor, tendo em vista que apenas um terço das cidades brasileiras apresentaram seus planos.


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