Vida Urbana

Escolas de João Pessoa fecham turmas da noite por causa da violência

No Lyceu Paraibano, na capital, o número de alunos caiu de 390, em 2015, para 180 este ano. À noite só funciona uma turma de cada ano.



Stanley Talião
Stanley Talião
Corredores do Lyceu Paraibano ficam vazios à noite

A imagem das salas de aulas lotadas e de dezenas de alunos passando pelos corredores do Lyceu Paraibano, em João Pessoa, é uma cena comum, mas apenas nas turmas do período diurno. Pelo menos nos dois últimos anos, a escola enfrenta uma queda de matrícula de novos e antigos estudantes para as séries do ensino médio no turno da noite. Entre os principais motivos desse ‘esvaziamento’ está o medo da violência, relatado por estudantes e professores.

No Lyceu Paraibano, o número de alunos do ensino médio nas turmas da noite caiu de 390, em 2015, para 180, neste ano. Segundo a diretora da escola, Maria José Silva, atualmente, no período noturno, funcionam apenas uma turma para cada ano dessa fase escolar. Ela relata que o risco de assaltos, roubos e até agressões físicas nos arredores da escola é uma situação que acontece em qualquer horário. Contudo, à noite a situação piora. “No entorno da escola têm assalto à luz do dia, às 8h. À tarde também e à noite, nem se fala. Até o ano passado, durante a noite ainda ficavam dois policiais de plantão perto da escola. Mas este ano não apareceu ninguém”, lamentou. Os perigos que os estudantes Cícero Felipe e Douglas Higino enfrentam todos os dias no trajeto de casa para a escola reforçam as declarações da professora.

“A ida ainda é menos perigoso porque o Centro está movimentado. Mas quando as aulas terminam, por volta das 22h, é complicado, porque vamos a pé e todo o caminho é deserto e tem risco de assalto”, relataram os jovens, que moram no bairro do Róger.

Ainda na área do Centro, no bairro de Tambiá, outra escola tradicional, a Luiz Gonzaga Buriti,  fechou as portas no período da noite e só há vagas disponíveis para a modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) à tarde, desde 2011.

O mesmo problema também estaria ocorrendo em escolas dos bairros Alto do Mateus, João Agripino e Manaíra, conforme informações do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação do Estado (Sintep-PB). Em Manaíra, a Escola Estadual Alice Carneiro, que tem estrutura para atender pelo menos 500 estudantes, encerrou as atividades do ensino médio no período da tarde, funcionando apenas pela manhã e noite. Nos muros da unidade escolar, as pichações com as siglas ‘OKD’ indicam o vandalismo e a violência que ‘ronda’ o colégio. De acordo com um funcionário que preferiu não se identificar, “as turmas da tarde não reabriram por culpa de brigas entre os próprios alunos”.

As salas de aulas a menos no Colégio Alice Carneiro já fazem falta e preocupam muitos moradores do Bairro São José, de onde vem a maior parte das matrículas na unidade. “Aqui perto só tem essa escola com ensino médio, quando as crianças daqui precisarem ir para essa série nós vamos procurar em outro bairro. E quem precisava estudar durante a noite também enfrenta perigo de assalto. Uma vizinha mesmo só tinha tempo de estudar à tarde, mas como acabou o ensino médio, ela desistiu por medo”, disse a dona de casa Joseane dos Santos.

“Todo mundo relata que a violência tem afastado os alunos e professores dessas escolas. Tem gente que prefere estudar em um colégio com uma estrutura carente, mas que seja perto de casa, a estudar em outro melhor, que além de mais distante se corre risco de assalto”, explicou o presidente do Sintep-PB, Carlos Belarmino.

SEE e PM

Através da assessoria de comunicação, a gerente operacional da Secretaria de Estado da Educação, Socorro Diniz, alegou que o número de matrículas no ensino médio no período noturno e da EJA não foi reduzido, como denunciou o Sintep-PB. Contudo, ela não divulgou dados sobre matrículas nessa fase específica de ensino em 2015 e neste ano. Através da assessoria de comunicação, a Polícia Militar informou que “todas as equipes policiais, compostas por viaturas e motocicletas, são orientadas a reforçar as rondas preventivas no entorno das escolas e demais estabelecimentos de ensino, como faculdades, sobretudo no período noturno e nos horários de entrada e saída dos alunos”. A assessoria ainda destacou a execução do Ronda Proerd.
 


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