Vida Urbana

Crise hídrica é desafio histórico para Campina Grande

Segundo especialista, dificuldades de abastecimento enfrentadas pela cidade são naturais devido à localização.



Junot Lacet Filho
Junot Lacet Filho
Açude Velho foi a primeira fonte de água da cidade e se tornou cartão postal da cidade

Campina Grande chega aos seus 135 anos, celebrados nesta quarta-feira (11), sendo abastecida pelo Açude Epitácio Pessoa, na cidade de Boqueirão, que registrou na terça-feira (10) um volume de água equivalente a 8,8% de sua capacidade. Mas a história de busca por soluções para o abastecimento de água da cidade se confunde com a própria trajetória de Campina Grande. Tanto que ‘Boqueirão’ é o quarto reservatório construído com este objetivo.

O engenheiro agrônomo e especialista em recursos hídricos Isnaldo Costa explica que a condição da dificuldade hídrica de Campina Grande é natural devido à sua localização, encravada na região semiárida do Nordeste, com altitude média de quase 600 metros acima do mar.

“A cidade foi construída no planalto. A área é alta e naturalmente não há como ter grandes reservatórios. A crise hídrica naturalmente já seria um desafio e isso tornou-se um problema maior ao longo do tempo, devido ao crescimento rápido da economia. Ao mesmo tempo que Campina Grande buscava água, o desenvolvimento tornava-se realidade devido ao trabalho de sua gente”, ressaltou.

Três açudes

Considerado um cartão postal de Campina Grande e um dos marcos do nascimento da cidade, o Açude Velho nasceu de uma necessidade objetiva: água em tempo de estiagem. Em torno de 1820, o local se tornou o primeiro reservatório construído para abastecer a cidade, de acordo o historiador Cícero Agra.
Agra conta que o Açude Velho surgiu do barramento do antigo Riacho das Piabas, cercado pela própria população. “A relação do manancial com o crescimento de Campina Grande está sempre próxima, porque a cidade cresceu às suas margens e a busca pela água foi algo que seguiu com o tempo”, explica.

Com o crescimento, o Açude Novo foi construído três décadas depois, em 1870, um segundo segundo momento em que Campina Grande precisa de água, que não durou muito tempo e um terceiro reservatório foi pensado, sendo construído em Bodocongó. Antes mesmo de ser concluído, em 1917, foi descartado para o abastecimento do consumo humano, como destaca Agra. “No entanto, teve uma importância muito grande no contexto econômico do desenvolvimento porque foi a base para o funcionamento das indústrias que chegavam na cidade”, conta.

Após a construção dos três açudes, Campina Grande ainda foi abastecida pela barragem de Vaca Brava, localizado na cidade de Areia, após 1937. “Antes de receber as águas da barragem de Areia, houve um abastecimento vindo de Puxinanã durante a década de 1920. No entanto, a água era pouca para a demanda e acabou não atendendo à situação”, diz o historiador.

A solução mais longa chegou na década de 1950 com a construção de ‘Boqueirão’ que resiste até os dias atuais, mesmo não estando localizado dentro do território do município. Dos três açudes símbolos do crescimento da cidade, apenas um não existe mais: o Açude Novo foi aterrado e transformado em 1976 no Parque Evaldo Cruz.

A construção do açude Epitácio Pessoa durante a década de 1950, em Boqueirão, surgiu como uma solução para Campina Grande, construído fora da cidade, mas com função essencial para os campinenses.

Agra lembra que o sistema de abastecimento enfrentou algumas situações críticas desde sua inauguração, sendo a mais recente registrada nos últimos anos. “No entanto, a chegada das águas do Rio São Francisco começou a trazer a tranquilidade de volta. O curioso de todo esse processo é que a história da cidade permanece ligada à água”, conclui Agra.

 

 


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