Vida Urbana

Crianças carentes ‘invadem’ ruas em busca de dinheiro em recesso escolar

Nos sinais de trânsito crianças e adolescentes se arriscam para limpar parabrisas de automóveis e ‘ganharem um trocado extra’.




João paulo Medeiros
Do Jornal da Paraíba

Os meses de junho e julho são sinônimos de preocupações para as entidades que acompanham as crianças e adolescentes em Campina Grande. A chegada das festas juninas, aliada ao início do recesso escolar e de programas sociais como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) fazem com que centenas de menores deixem suas casas e saiam às ruas em busca de dinheiro. Nos sinais de trânsito, na Feira Central e ruas próximas ao entorno do Parque do Povo, onde é realizado o ‘Maior São João do Mundo’ são as áreas preferidas.

Nos sinais de trânsito crianças e adolescentes se arriscam para limpar parabrisas de automóveis e ‘ganharem um trocado extra’. Na Feira Central e no Parque do Povo, o atrativo principal dos jovens são latinhas de bebidas, a coleta de papelão e lixo, assim como pequenos serviços realizados muitas vezes com a colaboração de pais, parentes e conhecidos.

As práticas, entretanto, afrontam diretamente o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), conforme o Ministério Público, e têm se transformado em frequêentes denúncias feitas aos quatro Conselhos Tutelares da cidade. “O número de crianças dobrou nos sinais de trânsito e no Parque do Povo. A gente percebe na chegada desses locais e temos recebido muitos casos, mas não estamos atuando porque estamos apurando somente casos de emergência, já que estamos com nossas atividades paralisadas”, alertou a conselheira tutelar do Conselho Sul, Isolda Fragoso.

Com onze anos, Flaviano (nome fictício), não esconde o motivo de passar mais de cinco horas quase todos os dias da semana na esquina entre a Avenida Canal e a rua Vila Nova da Rainha, em pleno Centro da cidade: “É pra ganhar um trocado e ajudar a ‘mainha’. Mas também peço para jogar videogame”, revelou o menor, que sempre permanece no local em companhia de Pedro (nome fictício), que tem apenas dez anos. “Minha mãe não sabe que estou aqui. Quando saí de casa passei pela porta escondido”, relatou o segundo garoto que mesmo sem camisa faz malabarismo no sinal de trânsito durante boa parte das noites para ‘conquistar a simpatia dos motoristas’.

De acordo com os Conselhos Tutelares, sinais de trânsito localizados nas avenidas Brasília e Aprígio Nepomuceno, no bairro do Catolé; e em ruas próximas às avenidas João Pessoa e João Suassuna, no Centro, são outros pontos escolhidos pelos menores para desenvolverem atividades semelhantes às de de Pedro e Flaviano.

Para piorar a situação, a rede pública municipal de ensino e o Peti campinense entraram de recesso. As atividades do Peti pararam desde o dia 21 de junho, mas deverão ser retomadas amanhã com a realização de uma colônica de férias. “No caso da região em torno do Parque do Povo a maior parte dessas crianças vai para esses locais acompanhando os pais, porque muitas vezes eles não têm onde deixar os filhos e moram em áreas de risco. Antes do recesso, realizamos várias reuniões com os pais pedindo para não levá-las. A gente fez trabalho preventivo”, explicou a coordenadora do Peti no município, professora Maria das Dores.

Não há um levantamento específico que indique o aumento dos menores nas ruas nesse período, mas os números do Ministério Público, coletados da última pesquisa da Secretaria de Assistência Social (Semas) em 2008 assustam. De acordo com o promotor Herbert Targino, na época as estimativas eram de que mais de 900 crianças e adolescentes estariam trabalhando ou pedindo nas ruas da cidade.


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