Vida Urbana

Com 10 assassinatos no mês, violência assusta moradores de Santa Rita

Município, de 1º a 25 de março, registrou dez assassinatos. Moradores relatam que crimes são constantes na cidade.




Um homicídio em média a cada dois dias e uma população assombrada por uma sensação de insegurança até dentro de casa. Essa é a situação vivenciada pelos moradores da cidade de Santa Rita, que fica na Região Metropolitana de João Pessoa, e que em 25 dias registrou dez assassinatos. Segundo o relato dos habitantes, não importa se é manhã, tarde ou noite, roubos, furtos e até homicídios são constantes. “Santa Rita já foi bem mais tranquila. Hoje, não! Antes de sair de casa a gente tem que rezar, se confiar em Deus, porque não sabe se vai voltar”, desabafou a estudante Cristiane Sousa.

Em diversas ruas de Santa Rita, mesmo sendo no fim da tarde, poucas são as pessoas que param em frente às suas casas para conversar com seus vizinhos. A essa hora, as portas estão fechadas e as grades bloqueadas com cadeados, segundo o comerciante José Ferreira Rosendo, que mora há mais de 30 anos na cidade. “Ah, antigamente era bom demais. Agora é difícil você ver alguém que fica tranquilo tanto nas ruas quanto em casa. A situação está de mal a pior”, lamentou.

Uma outra moradora da cidade, que preferiu não se identificar, revelou não ter mais coragem de andar sozinha. Era um dia tranquilo quando, em uma festa que estava sendo realizada em sua casa, um assaltante a abordou e entrou em sua residência. “Ele entrou para procurar mais celulares ou mais coisas que pudesse roubar. Agora é assim, em toda a nossa rua as casas são todas gradeadas”, disse. Ela mora em uma das principais avenidas da cidade.

E o principal medo da população é ser assaltada e, nesse momento, ser vítima de alguma tentativa de homicídio. “Porque para eles (os bandidos) nossa vida não vale de nada. Alguns não se satisfazem com o que a gente tem e tiram a nossa vida. E isso é em qualquer bairro e horário. Está cada vez mais complicada a situação de Santa Rita. Tenho saído bem menos de casa recentemente por causa disso. Só vemos nos noticiários mortes, tráfico de drogas, roubo. E é isso que estamos vivendo mesmo”, comentou a auxiliar de serviços gerais Eliane da Silva.

Dois assaltos no ano passado e esse ano pelo menos uma fuga de assaltantes. Assim a estudante Cristiane Sousa começou a relatar a insegurança que a rodeia no dia a dia. Ela, que acredita que a oração é a maior possibilidade de certeza de que voltará para casa com vida, destacou a necessidade de mais políticas públicas, que abranjam uma população que cotidianamente está se perdendo pelos rumos do tráfico de drogas.

“Em menos de 24 horas Santa Rita registrou três homicídios de jovens no início deste mês. Vidas perdidas de pessoas que poderiam ter um futuro, estudar, trabalhar e morrer apenas na velhice. É preciso que algo seja feito por parte de todos porque não é uma questão apenas de polícia, também precisamos de governantes que se preocupem com isso”, finalizou.

Número de homicídios na cidade é ‘atípico’

Somente entre os dias 1º e 25 de março, a cidade de Santa Rita registrou 10 homicídios, de acordo com o delegado seccional da cidade, Everaldo Medeiros. Os quatro últimos ocorreram na segunda metade do mês, dos quais uma das vítimas foi um adolescente de 17 anos, morto em plena Sexta-feira da Paixão. No início de março, por sua vez, três jovens foram mortos em um período de menos de 24 horas. Em todos os casos havia envolvimento com o mundo do crime por parte das vítimas, de acordo com a Polícia Militar, inclusive um adolescente, que tinha passagem pelo Centro Educacional do Adolescente (CEA). Até o fechamento desta edição, os casos seguiam em investigação e nenhum suspeito tinha sido localizado.

De acordo com o delegado seccional de Santa Rita, nos últimos anos a cidade tem vivenciado uma redução no número de homicídios e o que se observou na última segunda-feira pode ser considerada uma situação ‘atípica’. Ele, que atua em sete municípios, incluindo Santa Rita, destacou que a cidade é a que apresenta o maior número de problemas devido ao aumento do tráfico de drogas, que repercute na criminalidade sentida pela população.

“Santa Rita tem mais de 150 mil habitantes e uma área muito extensa composta por uma parte urbana e outra rural. Toda essa extensão dificulta um pouco o trabalho policial, mas, mesmo assim, só no núcleo de homicídios temos 17 policiais atuando, o que repercute nos números. Em janeiro deste ano tivemos uma redução de 80% com relação ao mesmo período do ano passado nos homicídios em toda a seccional. Em fevereiro empatamos e agora em março estamos com 11 homicídios, dos quais 10 em Santa Rita e um em Sobrado. Mas estamos trabalhando na elucidação”, assegurou.

O delegado ainda destacou reduções de homicídios em 2014, de 26% com relação ao ano anterior, e em 2015 um leve aumento de 5%.

POLICIAMENTO

Os mesmos números foram repassados pelo coronel Julio César, comandante do 7º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo policiamento de Santa Rita e mais outras seis cidades. Ao todo, ele destacou que são 400 homens realizando policiamento diuturnamente para garantir a segurança da população.

Para o coronel Julio César, contudo, essa não é apenas uma questão que compete às polícias resolver. É preciso ampliar essa discussão.

“A situação de insegurança da população é algo que ocorre em todo o Brasil, mas é preciso compreender que o combate à criminalidade é sistêmico, sai das mãos da polícia e vai para Ministério Público, Poder Judiciário. Quando você resume isso apenas às polícias fica parecendo que ela é ineficiente, mas não é. É algo muito complexo, mas nossa parte temos feito”, garantiu.

 

DENÚNCIAS

O delegado seccional de Santa Rita destacou a necessidade de cooperação por parte da população para a elucidação dos casos. As denúncias, tanto de suspeitos quanto de possíveis pontos de tráfico de drogas, podem ser feitas por meio do Disque 197, anonimamente e de forma gratuita. Ainda o núcleo de homicídios da cidade pode ser contatado diretamente pelo número 3229-8391. “Ainda os registros das ocorrências precisam ser feitos. Tudo isso nos ajuda a dar respostas a esses crimes que chegam e assustam a população. Nós, de forma integrada com a Polícia Militar, atuamos nessa repressão constantemente, com trabalhos de repressão e inteligência”, finalizou.


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