Vida Urbana

Cirurgia minimiza trauma de mulheres vítimas de violência doméstica

Há 2 anos, toda vez que Ana Paula encarava o espelho via refletida muito mais que sua imagem. Ela enxergava também as marcas deixadas pelas agressões do antigo marido, que por ciúmes, raiva ou por puro sentimento de posse sobre aquela mulher que julgava ser sua, a cortou, furou e feriu durante um ano, deixando […]



Francisco França
Francisco França
Para Ana Paula, a cirurgia reparadora do SUS foi o caminho para anular marcas da violência

Há 2 anos, toda vez que Ana Paula encarava o espelho via refletida muito mais que sua imagem. Ela enxergava também as marcas deixadas pelas agressões do antigo marido, que por ciúmes, raiva ou por puro sentimento de posse sobre aquela mulher que julgava ser sua, a cortou, furou e feriu durante um ano, deixando cicatrizes na pele e também na alma. Se hoje ela pode lidar melhor com sua imagem é porque conseguiu realizar gratuitamente a cirurgia plástica reparadora, que pode não ter anulado das suas memórias a violência sofrida, mas começa a retirar do corpo os sinais da crueldade passada. 

Muito além da vaidade, o procedimento cirúrgico para mulheres vítimas de agressão física, que desde o último dia 31 de dezembro passa a ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por determinação federal (lei 13.239) e há dois anos já é realizado pelo Hospital Municipal Santa Isabel, pode ser o primeiro passo para superação do trauma. Para Ana Paula, certamente foi. Desde que começou o processo, sua vida passou a ter outro sentido, revela a secretária. “Eu apanhava quase todos os dias, com tudo o que tinha de pontiagudo dentro de casa. Foi quase um ano apanhando. Fiquei com muitas marcas e a gente não tem como não lembrar do agressor quando vê a cicatriz, por isso é tão importante amenizar essas marcas”.

A região do colo, próxima aos seios, e as costas, quase totalmente, foram as escolhidas pelo agressor para deixar seus cortes. “Ele dizia que era pra ninguém ver minhas feridas, que ia me deixar de uma maneira que nenhum outro homem fosse me querer. Ele só não tocou no rosto porque dizia que não ia deixar prova para ninguém ver”, lembra Ana Paula, que na época morava com o marido e os dois filhos em São Paulo, longe dos pais que estavam na Paraíba.

Por causa da distância, os familiares não tinham conhecimento das agressões, até que uma tia de Ana Paula, que ainda morava em São Paulo, alertou a mãe da secretária, Lusitânia Paulino, sobre o que vinha acontecendo. Emocionada, a dona de casa recorda como encontrou a filha, evidenciando que o auxílio cirúrgico mudou a realidade de todos naquela família.  

“Eu não reconheci quando vi minha filha. Ela com cabelo todo cortado e toda inchada de apanhar. Meu coração fica apertado quando lembro o que ele foi capaz de fazer com minha filha. A gente não imagina que vão fazer isso com um filho, ainda mais ele que conheceu ela na igreja. Ela ficou sem vida, vegetava, parecia morta de espírito, dizia que queria morrer. Graças a Deus ela venceu e agora é outra. A gente passou por um período muito duro, mas hoje estamos bem”, disse.

Como tem problemas com queloide, inchaço que aparece em cicatrizes na pele, podendo causar coceira e dores, as marcas em Ana Paula são ainda mais incômodas e a cirurgia mais necessária. “Se faz calor ou frio a cicatriz doí, como se fossem agulhadas. Até uma etiqueta que bate na cicatriz machuca. É como se eu tivesse sendo agredida de novo cada vez que sinto ela doer. Já passei por duas cirurgias e vou fazer pelo menos mais uma. As cirurgias que fiz custariam uns R$ 33 mil. Eu jamais teria como pagar esse valor”, disse a secretária.

Para a coordenadora das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam) do Estado, Maísa Félix, a oferta de cirurgia plástica reparadora é uma forma do Estado dar mãos às vítimas em um momento de dificuldade. “É o tipo de assistência que restabelece a dignidade da mulher”, disse.


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