Vida Urbana

Casarões históricos estão abandonados e com risco de desabamento

João Pessoa tem 87 casarões históricos em situação de abandono, e de acordo com a Defesa Civil, enfrentam riscos de desmoronamento. 



Francisco França
Francisco França
De acordo com o coordenador da Defesa Civil do Município de João Pessoa, Noé Estrela, pelo menos 87 casarões enfrentam risco de desmoronamento na cidade

Edificações que passaram da exuberância nos tempos áureos ao descaso dos proprietários bem como do poder público no século 21. No Centro de João Pessoa, é possível observar residências de paraibanos influentes que hoje caem aos pedaços, descaracterizando e apagando a opulência que viveram com a presença de seus antigos moradores. Nessa situação encontram-se 87 casarões históricos em João Pessoa, que, de acordo com a Defesa Civil, enfrentam riscos de desmoronamento, sem contar muitos outros que estão, aos poucos, se transformando em ruínas. Dentre estas residências está o casarão dos Gama e Mello.

Antônio Alfredo da Gama e Mello, proprietário do casarão, assumiu o cargo de presidente da província (equivalente a governador do Estado) entre os anos de 1896 e 1900. Além de uma atuante e marcante vida política, ele ainda foi um grande intelectual, conforme o historiador José Octávio de Arruda Melo, autor da obra ‘Uma História da Paraíba’.

“Antônio Alfredo da Gama e Mello era jornalista, intelectual de boa categoria e muito respeitado no final do século 19. Ele foi autor do primeiro editorial de um jornal do Estado, era professor de Latim. Um homem muito inteligente”, explicou. O ‘sobrado amarelo da Rua Nova’ – como era conhecido – foi residência do político até 1908, ano de seu falecimento.

Na década de 20, na mesma casa, nasceu o escritor e acadêmico paraibano Virginius da Gama e Mello, homenageado com o nome da edificação. Conforme o historiador, Virginius também se destacou como intelectual, falecendo em 1975.

Hoje, quem passa pela frente do casarão, que fica localizado na rua General Osório, próximo à Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, desconhece a história que fica por trás da fachada em ruínas. Anteriormente conhecida de ‘Rua Nova’, aquela é uma das mais antigas da cidade e abrigava a residência de famílias influentes do Estado. No local, hoje, quem passa pela frente vê fachadas deterioradas e árvores que encobrem a frente das residências. A dos Gama e Mello hoje se encontra em ruínas, praticamente apenas com a fachada, que está em avançado estado de deterioração, de pé. Dentro do prédio, todo o telhado já caiu e não se sabe se hoje o local representa perigo para quem passa pela sua frente.

DEFESA CIVIL

De acordo com o coordenador da Defesa Civil do Município de João Pessoa, Noé Estrela, pelo menos 87 casarões enfrentam risco de desmoronamento na cidade. Ele revelou que desconhece que no casarão dos Gama e Mello existam riscos iminentes de desabamento que exijam a necessidade de sinalização do local e destacou que a responsabilidade de restauração destes não é do Estado ou do município.

“É responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico do Estado da Paraíba (Iphaep) apenas analisar e notificar os proprietários para que tomem alguma providência. Se for da responsabilidade da prefeitura, isso fica com a Coordenadoria do Patrimônio Cultural (Copac). Quanto aos riscos, não temos conhecimento sobre esse casarão específico, mas vamos analisar”, assegurou.

A superintendente do Iphaep, Cassandra Figueiredo, informou que o imóvel, pertencente à família Gama e Mello, se restringe hoje somente à fachada. Ela explicou que, ao assumir a superintendência do órgão, implantou um cronograma contínuo de fiscalização, notificando proprietários e embargando obras irregulares sem autorização do Iphaep. Nos casos de abandono, ela revelou que o órgão vem entrando com Ações Civis Públicas. “Estamos fazendo isso para que a Justiça possa determinar a preservação por parte do proprietário e esse imóvel (dos Gama e Mello) faz parte desses casos”, afirmou, revelando, ainda, que dos 87 em risco, 23 já saíram por já terem sido recuperados.

A reportagem tentou contato com Fernando Milanez Neto, coordenador da Copac, contudo ele não atendeu às ligações. A reportagem ainda procurou o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Cláudio Nogueira, contudo ele disse que, apesar de ser um imóvel tombado pelos dois órgãos de proteção, o Iphaep é quem está à frente dessa questão.
Também tentamos localizar os proprietários do imóvel, por meio do Iphaep, da Secretaria de Planejamento da capital, da Defesa Civil e de historiadores, contudo não obtivemos êxito.

PROTESTO
O descaso com o casarão dos Gama e Mello foi motivo para um protesto, realizado no último dia 1º por intelectuais residentes na capital. Conforme o historiador Wills Leal, organizador do movimento, o dia relembrou os 40 anos da morte de Virginius da Gama e Mello e os 39 anos de promessas de que na sua antiga residência seria construído um memorial. Conforme Leal, os intelectuais elaboraram um documento de repúdio no dia do protesto revelando o descaso e pedindo providências com relação a essa questão.  


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