Cultura

Vinte raps brasileiros para ouvir no Dia da Consciência Negra

Estilo musical é umas principais vozes do negro brasileiro.




Oriundo dos guetos americanos, o rap ganhou força nas periferias brasileiras nos 80, mostrando a realidade local, denunciando a opressão e o racismo, e acabou se tornando a voz do povo negro. Marginalizado desde o início e, de certa forma, até hoje, o estilo ganhou muita força nos últimos anos, quebrando as barreiras das comunidades, mas sem perder a essência central. O JORNAL DA PARAÍBA escolheu o rap para celebrar o dia da Consciência Negra, comemorado nesta quarta-feira (20).

Elaboramos uma lista com 20 raps nacionais, de diferentes épocas, como forma de homenagear a cultura negra. As músicas denunciam o racismo, falam da escravidão contemporânea, pregam a valorização da população negra e destacam conquistas alcançadas nos últimos tempos.

Na lista estão artistas como Racionais MC’s, DMN, Emicida, MC Sofffia e outros. Confira abaixo.


1 – Voz ativa (Racionais MC’s)

Para abrir a lista, não poderia ser diferente: uma música do principal grupo de rap do país, o Racionais MC’s. Em ‘Voz Ativa’, Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e Kl Jay se colocam como porta-vozes do negro e da periferia brasileira, posto que eles ganhariam oficialmente alguns anos depois com o disco ‘Sobrevivendo no Inferno’. A música fala de como fugir da opressão racista, levanta a autoestima dos negros e defende a união dos negros, invocando nomes de líderes como Nelson Mandela e Malcolm X.

“Chega de festejar a desvantagem/E permitir que desgastem a nossa imagem/Descendente negro atual meu nome é Brown/ Não sou complexado e tal/Apenas Racional/É a verdade mais pura/Postura definitiva/A juventude negra/Agora tem voz ativa”

2 – 4 P (DMN)

Lançada na primeira metade dos anos 90, 4 P, do grupo DMN, é a abreviação de ‘Poder Para o Povo Preto’, uma adaptação de um slogan dos Panteras Negras e que se tornaria também umas das marcas do rap brasileiro. A música é uma aula de representatividade. Entre os versos, são citados os nomes de várias personalidades negras brasileiras e internacionais.

‘A voz mais bonita do mundo eu sei de quem é, dilema nacional, axé/ Se soubesse o valor que a sua raça, tem tingia a palma da mão pra ser escura também/ O rei do domínio da bola é Pelé, a rainha do samba é Quelé’

3 – Sou Negrão (Posse Mente Zulu)

‘Sou Negrão’ é uma música feita pelo Posse Mente Zulu para o dia 20 de novembro e fala do orgulho de ser negro e defende a cultura afrobrasileira.

‘Luiz Gonzaga era preto, era o rei do baião/ Jair Rodrigues disparou no festival da canção/ Denner com a bola, mais que um dom/ Preto quer trabalhar, não quer ser um ladrão/ Futuro, presente, passado, realmente jogados/ Fizemos a história, perdemos a memória/ Temos nosso valor, temos nosso valor’

4 – Negro Drama (Racionais MC’s)

Uma dos maiores clássicos dos Racionais. A letra é um retrato detalhado da dificuldade que o negro enfrenta para conseguir a ascenção social no Brasil.

‘Negro drama/Eu sei quem trama/ E quem tá comigo/ O trauma que eu carrego/Pra não ser mais um preto fodido’.

Na música é ressaltado que mesmo quando o negro consegue mudar de vida, sair da pobreza, ele continua sendo alvo de discriminação.

‘Aí, você saí do gueto/ Mas o gueto nunca sai de você, morou irmão?/Cê tá dirigindo um carro/ O mundo todo tá de olho em você, morou?/Sabe por quê? Pela sua origem, morou irmão?’

5 – Sub-raça (Câmbio Negro)

À primeira vista pode-se pensar que essa música do Câmbio Negro tem um viés preconceituoso, mas é exatamente o contrário. O grupo se apropria do xingamento usado contra os negros para responder aos racistas e mostrar que a população negra precisa se orgulhar do que é.

‘O valor da própria cor/ Não se aprende em faculdades ou colégios/ E ser negro nunca foi um defeito/ Será sempre um privilégio/ Privilégio de pertencer a uma raça/ Que com o próprio sangue construiu o Brasil’

6 – Carta à Mãe África (GOG)

Com versos emocionantes, o rapper GOG relata à Africa a situação em que os filhos do continente vivem no Brasil. Ele deixa claro que muita permanece igual à época da escravidão .

‘As trancas, as correntes, a prisão do corpo outrora…/ Evoluíram para a prisão da mente agora/ Ser preto é moda, concorda?/Mas só no visual/ Continua caso raro ascensão social/ Tudo igual, só que de maneira diferente/ A trapaça mudou de cara, segue impunemente.’

7 – Filha de Dandara (Preta-Rara)

A música faz uma relação entre a vida das mulheres negras na atualidade com a história de Dandara dos Palmares, a mulher de Zumbi, que também lutou pela libertação dos negros no Brasil colonial.

‘Filha de Dandara sobrevivi/ Por ser guerreira estou aqui/Batalhando no dia a dia/Mostrando que lugar de mulher não é só na cozinha’

8 – Boa Esperança (Emicida)

Emicida escancara a discriminação racial e social em Boa Esperança. Com versos pesados, o rapper relata que a situação de preconceito e exploração não pode mais ser suportada, uma ‘bomba relógio pretes a estourar’.

‘Nessa equação, chata, policia mata? Plow!/ Médico salva? Não!/ Por que? Cor de ladrão/ Desacato invenção, maldosa intenção/ Cabulosa inversão, jornal distorção’

9 – Galanga Livre (Rincon Sapiência)

Música título do primeiro álbum de Rincon Sapiência, lançado em 2017, ‘Galanga Livre’ é uma música que transborda a cultura afro. A música fala do empoderamento negro nos dias atuais.

‘Nossa coragem levantar/Pro nosso medo encolher/Fui convidado pro jantar/Migalhas não vou recolher/Vida me chama pra cantar/ Sem fuga, livre pra correr/Um bom terreno pra plantar/ E a casa preta se ergue’

10 – Pré-conceito (Rael)

A música fala que o negro cresce sendo vítima de preconceito, mas que não deve naturalizar essas situações, nem se subjugar a elas.

‘Sinceramente, tô acostumado, por ser oriundo, por ser favelado/Né não, vagabundo, quem é tá ligado / Vive esse mundo, quem vem desse lado/ Que é difícil ser você, vencer, permanecer sem ser, contrariado.’

11 – Estereótipo ( Rashid)

Talvez seja o rap mais didático sobre a situação do negro no Brasil. Rashid fala de discriminação e desigualdade como poucos. Cita a questão das cotas raciais, cita o fato de negros serem comumente ligados à criminalidade e ressalta que eles são também os principais alvos de violência no país.

‘Falemos de chances mas aviso/ Não existe igualdade/pra quem tem que correr atrás/de quase 400 anos de prejuízo/ Cê num sabe o que é isso, já antecipo’

12 – Mandume (Emicida)

Emicida juntou um grupo de rappers para entoar um verdadeiro grito sobre resistência e vitória do povo negro brasileiro. O título da música é uma homenagem a Mandume ya Ndemufayo foi o último rei da tribo Kuanyama, que ficava em Angola. Ele ficou conhecido por lutar contra a catequização do seu povo pelos portugueses e resistiu à exploração das suas terras. O rap de Emicida, de certa forma, pede que os negros brasileiros se inspirem em Mandume.

‘Eles querem que alguém/ Que vem de onde ‘nóiz’ vem/ Seja mais humilde, baixa a cabeça/ Nunca revide, finge que esqueceu a coisa toda/Eu quero é que eles se…’

13 – A Coisa tá Preta (Rincon Sapiência)

A premissa de ‘A Coisa Tá Preta’ é a ressignificação da expressão de cunho racista em algo positivo, em defesa da cultura negra.

‘Abre alas, tamo passando/ Polícia no pé, tão embaçando/ Orgulho preto, manas e manos/ Garfo no crespo, tamo se armando/ De turbante ou bombeta/ Vamo jogar, ganhar de lambreta/ Problema deles, não se intrometa/ Óia a coisa tá ficando preta’

14 – Corra (Djonga)

Com referências diretas ao filme americano de mesmo nome, ‘Corra’ está no segundo disco do rapper mineiro Djonga. A letra é um diálogo entre um casal negro (a outra voz é de Page), que aborda de forma direta e ácida o racismo presente na estrutura da sociedade brasileira desde a colonização.

‘Éramos milhões, até que vieram vilões/ O ataque nosso não bastou / Fui de bastão, eles tinham a pólvora / Vi meu povo se apavorar / E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar’

15 – Tambor (Kamau)

Em ‘Tambor’, Kamau fala do orgulho em defender a cultura negra, mas ressaltando que a história de exploração e o racismo não devem ser esquecidos.

‘Se depender de nos só fortalecerá/Cada um ensina um caminho pra prosperar/Se for nós por nós, quero ver superar /Na vitória, sinfonia de tambores pra comemorar’

16- Olho de Tigre (Djonga)

É mais uma letra incisiva de Djonga. Sem nenhuma papa na língua, o rapper pede que os negros reagam ao racismo .

‘Um boy branco, me pediu “high five”/Confundi com um “Heil, Hitler”/Quem tem minha cor é ladrão/ Quem tem a cor de Eric Clapton é cleptomaníaco’

17- Z’África Brasil – Rei Zumbi

O rap homenageia Zumbi e destaca que os negros precisam de alguma forma continuar a busca pela liberdade.

‘Zumbi, o último guerreiro, o deus da guerra o rei de todos os negros/Irmão e dono do mar, o mais poderoso dos gênios/Zumbi-zumbi oia zumbi/ Veio à Terra pra chefiar a liberdade dos negros’

18 – Menina Pretinha – Mc Soffia

A música é voltada para o empoderamento das meninas negras . Nos versos, MC Soffia questiona padrões de beleza criados pela sociedade branca para os negros.

‘Menina pretinha/ Exótica não é linda/ Você não é bonitinha /Você é uma rainha’

19 – O Céu é o Limite (Devasto Prod)

‘O Céu é o Limite’ é uma cypher lançada este ano e conta com a participação de alguns nomes da cena rap brasileira. O ponto central da letra é a defesa das recentes conquistas dos negros e mostrar que eles não precisam ter limites, nem impostos pela sociedade e nem colocados por eles mesmos.

20 – Vivos (BK)

Para fechar a lista uma música novíssima. ‘Vivos’ está no disco ‘Gigantes’, lançado por BK no final de outubro. O som pode ser considerado um rap ostentação, mas sem esquecer de batalhas vividas anteriormente.

‘Não tive pai herói, tive a força de dona Ana/ É que eu fui vida louca, meu filho vai ser vida ganha/ Correndo e com renda/Falamos em códigos e barras, mas não estamos à venda/ Com recalque te chama até de Illuminati/ Não podem ver o preto vencer e são covardes/ É que podemos voar ou jogar tudo pelos ares’


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