Cultura

‘Rios Grandes’ registra em fotos o dia dos vaqueiros do Nordeste e dos Pampas

Obra de Pablo Pinheiro, que será lançada amanhã, em João Pessoa, registra vaqueiros sertanejo e gaúcho.




Em 2010, quando o fotógrafo paulista Pablo Pinheiro, radicado no Rio Grande do Norte, começou a registrar o cotidiano dos vaqueiros da região do Seridó, ele não estava à procura dos peões de rodeios ou de filhos de fazendeiros: queria saber mais sobre o homem de couro e gibão, que entoa os aboios e toca o gado.

“Queria entender o que seria esse vaqueiro tradicional”, explica. “Estava curioso para entender como funciona”.

O processo ultrapassou divisas, atravessando o Seridó paraibano, como Picuí e Pedra Lavrada, até chegar ao Rio Grande do Sul, através do Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, um dos mais importantes do segmento.

O resultado é o fotolivro Rios Grandes, que está disponível gratuitamente em PDF através do site http://estudiop.com.br/riograndes. Amanhã, às 19h, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa, Pinheiro promoverá uma palestra aberta ao público sobre o lançamento do projeto.
O fotógrafo já passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Porto Alegre. Depois, voltará para a origem da ideia, em Natal (RN), na sexta-feira.

A curiosidade sobre o vaqueiro gaúcho começou quando Pablo Pinheiro estava de férias, no ano passado, e foi para o Rio Grande do Sul. “Percorri por todos os recortes que tem a figura do vaqueiro profissional na região”.

Com o prêmio da Funarte, o fotógrafo “potencializou” a mão de obra não apenas com o fotolivro em PDF, disponível em três idiomas (português, inglês e espanhol), mas produzindo um projeto multimídia, além de 12 depoimentos de personagens que já estão disponíveis no YouTube.
Nos dias de hoje, Pinheiro aponta que não temos mais a imagem do vaqueiro como era antes, seja na Caatinga ou nas Padrarias. Foi escolhido um caminho de transição e contemporâneo, de acordo com o fotógrafo. Apesar do custo operacional mais viável de uma moto ser diferente que de um cavalo, “o mais importante a ser questionado é o ser humano”, analisa. “Qual a importância que ele tem na minha vida? Qual a relação concreta tem entre meu mundo e o dele?”

ÚNICA DIFERENÇA

Neto de nordestino, nascido em São Paulo e criado em Natal pelos pais paulistas e migrantes, Pablo Pinheiro se preparou para enfrentar o frio invernal de um Rio Grande do Sul no mês de maio.
Segundo o fotógrafo, contrabalanceando seu “pé no Nordeste”, foi muito mais difícil encarar a desconhecida região sulista. Por isso, chegou a perder 15 quilos para “se garantir no meio do mato”, um habitat bem diferente do sertanejo.

Mas nem tanto, tirando o fator clima, de acordo com ele. “Fui mergulhar dentro desse processo achando que ia ser bem diferente, mas a única diferença é a distância. Quando entramos nos Pampas, os matos são iguaizinhos aos da Caatinga”, analisa.

“Não só o universo vegetal, mas a cultura do gado, a luta diária que começa desde cedo e a mesma coragem que tem o vaqueiro sertanejo é encontrado no gaúcho. A formação humana é diferente, mas o resultado é igual”.

Rios Grandes conta com a edição de imagens da renomada Rosely Nakagawa. “A visão cosmopolita do autor só acrescenta porque traz uma crítica importante na busca de quem é este vaqueiro e de como nasce esta cultura. Traz uma poética que será vista também por mais pessoas – que estão fora da visão regionalista”, afirma a diretora de arte.