Cultura

'Venom': personagem é desperdiçado em filme sem sentido

Embora o anti-herói seja interessante, roteiro sem pé nem cabeça transforma o filme numa confusão.




venom

Horroroso, mas cativante: Venom não oferece nada além de um bom protagonista.

RESENHA DA REDAÇÃOVENOM (EUA, 2018, 112 min.)
Direção: Ruben Fleischer
Elenco: Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed
★★☆☆☆

 

Um dos antagonistas mais famosos da Marvel finalmente ganha protagonismo com Venom, que estreia nos cinemas da paraíba nesta quinta-feira (4). O personagem já havia aparecido em inúmeras adaptações do Homem-Aranha (sendo inclusive o principal vilão de Homem-aranha 3, de Sam Raimi), mas desta vez ele ganha uma “história” somente para si.

No filme, o alienígena chega à Terra após ser capturado, junto com outros dois simbiontes (parasitas que só sobrevivem se unidas a um hospedeiro), por uma equipe da companhia de biotecnologia Fundação Vida, que realizava uma expedição no espaço. Após um acidente, umas das amostras alienígenas escapa, enquanto as outras duas são levadas para a sede da empresa.

É justamente a Fundação Vida que está na mira de Eddie Brock (Tom Hardy), um jornalista investigativo que descobre que a fundação está usando cobaias humanas de maneira ilegal em experimentos. Sem provas para basear sua denúncia, Brock é desacreditado e perde o emprego, é abandonado pela noiva e tem a vida financeira destruída pelo presidente da Vida, Carlton Drake (Riz Ahmed). A partir deste ponto, o filme se preocupa em narrar os eventos que levaram à junção de Eddie com o alienígena simbionte.

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O roteiro, escrito a seis mãos (por Jeff Pinkner, Scott Rosenbeg e Kelly Marcel) deixa claro seus problemas desde o início. Os diálogos soam artificiais e sem sentido, como se colocados ali apenas para preencher tempo de tela até o momento em que a ação possa começar. Perde-se tempo demais com besteiras – as conversas de Eddie com a noiva, Anne (Michelle Williams), têm o intuito de aproximar o público do casal e de oferecer informações sobre as personagens, mas soam vazias e nada naturais: em certo momento, Anne retruca “eu não gosto de esperar” para Eddie, como se estivesse revelando uma informação completamente nova para uma pessoa com quem ela já está junta há bastante tempo.

Apesar da enrolação, o primeiro terço do filme até que faz sentido ao retratar paralelamente a chegada do simbionte à Terra e a destruição da carreira e do romance de Eddie. O jornalista está no fundo do poço quando finalmente se une ao alienígena, e é de fato divertido acompanhar os bizarros momentos iniciais dessa união. Hardy interpreta um Eddie bufão – soa até ridículo em algumas partes, mas diverte na maioria das vezes. Por sua vez, Venom, ao mesmo tempo em que é ameaçador e assassino, também revela um lado bem-humorado e surpreendentemente sentimental.

Venom poderia ser extremamente bem-sucedido ao explorar essa junção a fundo, mas infelizmente perde completamente o próprio rumo ao colocar Eddie/Venom como os grandes salvadores de uma conspiração sem pé nem cabeça arquitetada por um dos outros alienígenas capturados, Riot, que parasita o presidente da Fundação Vida, Carlton. Carlton/Riot é um vilão extremamente ineficiente por dois motivos: é apresentado muito tarde na história e não tem uma motivação clara à qual o espectador possa se opor. O objetivo dele é apenas “destruir a Terra”, sabe-se lá por qual motivo.

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Tom Hardy em cena de Venom: relacionamento entre o jornalista e o alienígena diverte.

O roteiro se perde completamente numa confusão de fios sem coesão alguma. Existem eventos que também desafiam a noção de verossimilhança: quando a Fundação Vida descobre que o alienígena se uniu a Brock, a empresa manda um verdadeiro exército atrás do jornalista-ET. Eles destroem carros, atropelam pedestres e explodem tudo no meio da rua, mas em instante algum há uma intervenção da polícia ou algum pudor por parte de uma empresa que realiza experimentos ilegais e que pretende permanecer sob o radar das autoridades.

Para além de Eddie/Venom, todas as outras personagens parecem letárgicas e deslocadas; Williams, por exemplo, não faz questão nenhuma de dar qualquer traço de vivacidade a Anne. A direção de Ruben Fleischer também não funciona muito bem: as cenas de luta são confusas, filmadas principalmente em planos fechados que dificultam a visualização; e a principal cena de perseguição do filme alonga-se por tanto tempo que você começa a torcer para que Venom seja capturado.

Muito se foi questionado, durante a produção do filme, se um filme solo de Venom seria necessário e se o personagem conseguiria se sustentar sem o apoio do Homem-Aranha para antagonizar. Aqui posto como anti-herói, Venom, embora interessante em si mesmo, perde sua razão de ser: perdido em meio a um caos sem sentido, resta ao protagonista soltar um pouco de seu charme e humor para tentar conquistar o público. Cativa, mas precisaria de muito mais que isso.


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