Cultura

'Slender Man - pesadelo sem rosto' não assusta e beira o ridículo

Roteiro preguiçoso, animações toscas e Slender Man ‘conectado’ destroem aura de horror em torno da personagem.




Cena de Slender Man – pesadelo sem rosto.

RESENHA DA REDAÇÃOSLENDER MAN – PESADELO SEM ROSTO (EUA, 2018, 93 min.)
Direção: Sylvain White
Elenco: Joey King, Julia Goldani Telles, Jaz Sinclair, Annalise BassO, Javier Botet
★★☆☆☆

 

A figura do Slender Man surgiu nos recantos da internet no ano de 2009, quando Victor Surge criou a icônica e esguia imagem para participar de um concurso de Photoshop. De lá para cá, a personagem transformou-se em mito, com diferentes versões de sua história e aparições sendo relatadas em fóruns e redes sociais; e chegou até a motivar um crime real na cidade de Waukesha, nos Estados Unidos. Depois de dez anos povoando a cultura pop e assustando crianças e adultos, Slender Man chega às telas dos cinemas com Slender Man – pesadelo sem rosto, que estreia nesta quinta-feira (23) nos cinemas da Paraíba.

O filme acompanha quatro adolescentes irresponsáveis que, numa reunião de fim de semana, por tédio, resolvem assistir a um vídeo que supostamente invocaria a entidade. Todas descrentes… mas surpresa: o bichinho de fato foi chamado, e agora as garotas devem descobrir um jeito de derrotar o espectro de três metros que agora vem sequestrá-las e/ou matá-las uma a uma.

O roteiro, escrito por David Birke, é preguiçoso e já foi visto inúmeras vezes em outros filmes de terror teen. Ele parte de uma burrice primordial e quase inacreditável das personagens que já se tornou batida em obras do gênero: é perfeitamente verossímil ler sobre histórias de terror num encontro com amigos, mas daí a de fato invocar uma entidade assassina dos confins do inferno… parece que os problemas adolescentes envolvendo amores frustrados e provas escolares já não rendem drama suficiente. Uma pena para o quarteto de protagonistas que, por sua vez, faz um bom trabalho – especialmente Joey King, que interpreta Wren.

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Isso dito, deve-se ressaltar que primeiro terço de Slender Man – pesadelo sem rosto é até efetivo em criar uma sensação de mistério e angústia nas personagens e no espectador. Após assistirem aos vídeos, as meninas começam a ter pesadelos, visões e comportamentos paranoicos, como se algo indefinido estivesse sempre à sua cola, à espreita. É justamente essa imprecisão, essa personalidade difusa do Slender Man que o fez um ícone tão popular na internet: seus objetivos e origem não são conhecidos, e ele é geralmente avistado de longe, em fotografias de má qualidade; uma personificação de nossos próprios medos – estamos sempre temendo algo, mas não sabemos bem definir o quê.

Slender Man deixa a timidez de lado e começa a aparecer mais diretamente às suas vítimas quando uma das garotas, Katie (Annalise Basso), some misteriosamente. É aí que o filme se perde; ao deixar as sombras e se transformar em uma figura concreta, o espírito se transforma em apenas mais um monstro em apenas mais um filme de horror carregado de clichês. Não há nada no personagem que o distinga e faça jus à década de calafrios que ele provocou na internet – Slender Man poderia, em seu próprio filme, ser substituído por literalmente qualquer vilão – desde Lord Voldemort a Freddy Krueger (de quem o Slender rouba a capacidade de aparecer durante sonhos). A personagem, assim, acaba se tornando uma ridícula caricatura de si mesma.

slender man - pesadelo sem rosto

Filme é tão rico em sustos quanto o Slender é de músculos.

As cenas com a entidade também não funcionam por aspectos técnicos. Slender Man – pesadelo sem rosto teve um orçamento minúsculo, de apenas US$ 10 milhões, e a escassez de recursos fica clara no CGI utilizado para dar vida à criatura e aos delírios das personagens. Quando é visto de perto e sob iluminação, a figura não aterroriza nada e parece artificial. O filme revela, ainda, o amadorismo do diretor Sylvain White em sua utilização de certos recursos, como a snorricam – câmera que fica acoplada ao corpo do ator e é frequentemente utilizada para transmitir uma sensação de confusão ou pânico; ou em sua insistência em jogar ao espectador sequências de imagens de forma confusa e desconexa.

Há uma tentativa do roteiro em transformar a obra em uma espécie de metanarrativa para refletir sobre o que poderia ter tornado o personagem tão popular. A internet, berço de nascença do Slender Man, é central no filme, e as personagens estão constantemente conversando via chats, visitando fóruns obscuros ou vendo vídeos das aparições do monstro.  Mas esse esforço torna-se cômico quando o Slender Man mostra estar familiarizado com os avanços tecnológicos: por mais de uma vez, ele usa um smartphone para assustar suas vítimas. A simples ideia da figura de braços finos e longos realizando uma filmagem já é o suficiente para destruir a áurea de horror construída durante uma década. Que desserviço.

É, assim, decepcionante que um ícone que por tanto tempo cultivou o imaginário pop tenha acabado em um filme tão tolo e sem inspiração. Slender Man – pesadelo sem rosto é inefetivo em criar uma boa história; em reforçar o mito; e em assustar. É melhor ir procurar algum dos milhares de vídeos do espectro na internet – é terror de melhor qualidade, e não será necessário pagar o preço do ingresso.

 


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